Poesia sem síntese – Sobre Quando o céu cair de Danielle Magalhães

[Laura Cohen Rabelo]

Penso que os textos aqui do blog são uma espécie de diário público de leituras, de escrita e de experiências em sala de aula. Às vezes posto uma coisa e umas horinhas depois mudo de ideia, da mesma forma que funcionam processos de criação, com aquiescências e negações. Começo assim para falar do livro Quando o céu cair da Danielle Magalhães porque sinto que os poemas dela funcionam mais ou menos nesse esquema: registros dos dias, fixados no tempo, repletos de agora e de hoje, e plenos de quando e de e de ontem, marcas no tempo.

O primeiro poema é justamente o que dá título ao livro, quando o céu cair, e começa já com os versos “em berlim eu passava/grande parte do tempo olhando para o céu”, o segundo poema se abre com um “tenho tentado sobreviver com alguma calma” e o terceiro “hoje eu ouvi alguém dizer”. Em outros poemas temos “o dia aqui amanheceu tão estranho”, “12 de outubro”, “hoje eu acordei muito/sem palavras pensando” e “entre 2014 e 2015”. Percebo nesse recurso da poesia um espírito de prosa, de alguém que registra fatos, que conta histórias do tempo presente, passado e futuro. Se destaca também uma coleção de mortos e mortes, eventos catastróficos públicos ou privados, presenciados e inseridos no pleno do cotidiano. Assim, dia após dia, como se enuncia na capa do livro, a fotografia tirada do amplo céu de onde pende um gancho escuro, espera-se pela queda do céu, que não caiu hoje, mas que talvez caia amanhã, então é melhor seguir com a vida ansiosa e atentamente.

Poucas palavras são grafadas com letra capital maiúscula, achei interessante que História esteja grafada assim em alguns poemas. Mas a História é tratada quase sempre com desconfiança e ironia. Na antiguidade ocidental, a prosa era, por excelência, a forma utilizada para escrever a história e a filosofia os gêneros que tinham a ver com fatos e pensamentos relatados, enquanto a poesia, a literatura, ou seja, a ficção, estava destinada aos versos. O poema biografia, por exemplo, tem muitas informações que coincidem com a própria biografia da poeta viva, só que tudo se escreve em versos, e é um poema que fala de questões financeiras cotidianas, oito de março, mulheres que escrevem poesia e um percurso acadêmico – representação de uma vida como a nossa, mas através dessa subjetividade, caindo em um lugar de política e filosofia de um cotidiano específico.

Outro tema do meu interesse (e pesquisa) recente é o tema da concisão. Gosto de pensar que cada autor escolhe e quebra, à sua forma, as leis dos gêneros de escrita. Tive certa vez um professor que disse muito categoricamente: “poesia é concisão”, e acho que o que Danielle faz é, na verdade, o contrário da concisão. Nos poemas, em sua maioria longos, a concisão só parece estar presente apenas na ausência quase total de vírgulas e pontos finais: o ritmo é ditado apenas pela quebra livre dos versos, um ritmo do qual se duvida e que pode atribuir polissemia às frases que vão se formando em discurso sem ar. Lendo o livro da Danielle, brinquei com própria autora que eu estava lendo não como um livro de poemas, mas como romances no sentido de que o romance muitas vezes se escreve sem necessidade síntese e com necessidade de enredo, em que todas as ações, pensamentos e gestos dos personagens podem ser expostos sem medo, como a imitação de uma forma de fazer a vida funcionar. A poesia de Danielle dá voltas como o próprio pensamento e diz demais, além do estritamente necessário, enunciando-se pelo excesso.

Muitas vezes a fala torna-se quicante, elaborando mesmo se sentindo incapaz da elaboração. Essa incapacidade de falar não a faz cair em afasia, mas em língua solta. Poemas distraem-se com a própria linguagem que perde em si mesma, chegando a um lugar inesperado, cheio de excesso e repetição. Em um dos poemas, em casa, existe a queixa dessa dificuldade com a linguagem buscada que acaba sendo sempre inexata: “há um abismo entre o que eu queria falar e/o meu modo de quebrar o silêncio/há uma ânsia de desistir/de falar desisto de procurar sua voz onde”… e por aí vai, um verso se encaixando no outro, dependendo do outro, criando uma gagueira intencional no corte no pensamento. O fim desse mesmo poema recorre ao seu princípio: “há um abismo em que caí tentando/procurar suas partes e não acho/acho que desisto morrerei/ em casa escutando o silêncio”. Evocando o silêncio, não há silêncio, apenas o pensamento repleto de palavras sobre dizer aquilo de uma forma melhor e falhar, hesitando até mesmo em torno da própria desistência – acho que desisto.

Há os poemas que também falam de uma poética, e justamente se alcança essa poética do não fazer fazendo muito, como o poema preço: “ressoa-me por onde/quer que passo/um poema que não existe/ um poema sem versos”. Entendo por poética um modo de fazer único de um poeta – bem como funciona o modo de fazer nas receitas culinárias. O poema fala do poema que não se constrói, o poema morto, e mesmo assim, paradoxalmente, encontramos o poema vivo: “queria escrever isso/para você também/ que disse que os poemas/ são formas políticas de afeto/mas não escrevo/ eu fico aqui/ com poemas que não chegam/ a ser talvez porque sustentar/ a vida o verso/ seja pagar o preço/ de um poema não escrito”. Escrever a falha ainda é escrever.

A vida relatada está aqui por toda a parte cercada pelo enunciado que se repete ao longo dos poemas, amarrando o conjunto do livro: quando o céu cair, essa ideia ansiosa do fim dos tempos se repete ao longo dos poemas, evocando esse cataclismo total. Justamente o quando do céu cerceia a escrita, a catástrofe que jamais virá porque já está aí, acontecendo: o mundo está acabando desde quando começou, transformando o canto sintético da fala poética em um canto contínuo e sem fim.

A minha experiência de leitura de Quando o céu cair foi ir da primeira à última página, em ordem. Ler poemas esparsos tira um pouco essa magnitude da qual eu falo aqui: para este livro, gastei tempo, rangi os dentes, queimei pestana. Ao mesmo tempo, ele pode funcionar como os romances mais complexos: eles nos deixam cansados, sem ar, é preciso fechar um pouco as páginas com um marcador, ir fazer outra coisa, dar um tempo.

O lançamento acontece amanhã, no Rio, mas nas próximas semanas vocês poderão conferir no nosso canal do youtube a entrevista completa que fizemos com a autora quando ela esteve aqui em BH.

Deixo vocês com meu poema favorito do livro todo (que, acredito, além de ser um poema, também é um conto):

últimos dias

Danielle Magalhães

corredores de hospital mudam
a consciência que passamos a ter da vida
do tempo da morte
e do amor
mal sabemos
que esquecer pode ser tão fácil
não sem o custo
de se deparar com a falta
é isso
esquecemos
como um exercício de sobrevivência
como um exercício de sobrevivência
o seu zé carlos tecia sua tarrafa
em cima de uma maca
num corredor de emergência
ele me falava
menina saia da cidade
a vida só é boa
perto do mar
da roça e dos bichos
menina não consigo carregar meu celular
para falar com meu filho
a única coisa que eu pude fazer
enquanto você dormia
foi ouvir as histórias do seu zé carlos
dando alguma sobrevida
ao dedo dele que estava para ser amputado
ele nunca mais ia poder pescar
ou mergulhar como antes
além disso a única coisa
que eu pude fazer foi emprestar o meu carregador
que não adiantou
no dia seguinte eu vi o filho dele lá
apesar de não ter visto mais o seu zé carlos
enquanto você dormia
eu tentei escrever algumas coisas
para não esquecer
acho até que você ia gostar das histórias
de pescador do seu zé carlos
não sem antes fazer aquela cara
de que ao invés de ficar
falando pelos cotovelos
ele poderia estar dormindo
e deixando os outros dormirem também mas
a questão é que você nem esteve acordada
para ter como reclamar
da conversa que você nem ouviu
como não ouviu quando
já lá em cima no quarto
para pacientes terminais
o marco
esposo da moça da maca ao lado
me perguntou se eu tinha livros didáticos
de português
porque ele queria estudar pontuação
enquanto ela dormia
eu anotei mas
desculpe não ter levado
marco
eu esqueci
um dia depois de sua morte
eu estava na praça saens pena resolvendo umas coisas
burocráticas enquanto o carro da funerária seguia
para o hospital antes de eu seguir pra lá também eu vi
uma senhora escrevendo no meio-fio da calçada
como se a vida ainda estivesse ali
lhe dando tempo de escrever
apesar de tê-la abandonado em todo o resto
calmamente
tive vontade de perguntar o que ela escrevia
e para quem escrevia
mas anotei
e hesitei
hoje
olhei para a anotação
e vi que o título que dei foi
últimos dias
o que segue
são notas não numeradas
em tópicos
o seu zé carlos
a preta velha escritora no meio-fio
quantas caixas de bombom são necessárias
para deixar um médico mais humano
a vida é tão breve
mal lembramos que é tão fácil
esquecer
hoje você faria aniversário

Laura Cohen Rabelo publicou os romances História da Água (Impressões de Minas, 2012) e Ainda (Leme, 2014), o livreto de poemas Ferro (Leme, 2016) e o romance Canção sem palavras (Scriptum, 2017). Mestre em estudos literários pela Faculdade de Letras da UFMG, é idealizadora e coordenadora do projeto Estratégias Narrativas, onde ministra cursos e ateliês de produção literária. Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *