O que li n°2 (janeiro, 2020)

Li demais, fiquei remelenta e não vi nenhum filme.

[Por Laura Cohen]

ROMANCES

Torto arado – Itamar Vieira Júnior. Ed. Todavia.

Admito que só comprei esse livro porque achei a capa bonita (quem nunca). O nome do autor me pareceu familiar, mas só lembrei quem era depois: ele era meu amigo de facebook e a Adriane Garcia já tinha me recomendado um livro de contos dele (que juro que vou ler depois dessa porrada do Torto arado). Agora vou escrever em caixa alta mesmo para ficar claro que estou gritando: SE ESSE LIVRO NÃO GANHAR ALGUM PRÊMIO VOU FICAR MUITO BRAVA. Livrasso do caramba. Aliás, acho que é o livro que a história do Brasil estava precisando. Eu tive a sensação de que eu deveria ter lido esse livro enquanto eu estava no ensino médio. Que os meus pais deveriam ter lido esse livro enquanto eles estavam no ensino médio. Estou pouco a fim de falar sobre o que ele (leia esse livro sem saber nada sobre ele, vale a pena a surpresa), mas talvez eu devesse falar mais da minha experiência de leitura: no começo, achei a história um pouco lenta, e um lento-bonito, um lento-bom, quase repetitivo – se você estiver achando que está devagar demais, INSISTA. Há um pequeno problema editorial: algumas informações se repetem, valia mais atenção de quem preparou os originais… Na segunda parte, já amei de paixão, é fluido sem frescura. E quando cheguei na terceira parte, meus amigos, é de cair o cu da bunda a surpresa que nós temos. Absolutamente genial, como se os estilos do William Faulkner e do Graciliano Ramos tivessem tido um filho. Vida longa, Itamar.

Não vai ter trecho desse porque já emprestei.

Querida Konbini – Sayaka Murata. Ed. Estação Liberdade.

Ouvi falar desse livro em um podcast e foi uma boa leitura para depois do Torto arado: leve sem ser idiota, crítico sem ser doloroso demais. E delicioso. É uma história muito simples de uma mulher que trabalha em uma loja de conveniência japonesa, a konbini, um emprego que é apenas um bico para a maioria dos japoneses que o exercem. No caso, essa mulher está na konbini há dezoito anos, o que parece uma anormalidade para as pessoas que a cercam. Entretanto, essa mulher ama a konbini para a qual ela trabalha, e esse trabalho é sua razão de viver: ela não se relaciona, não tem amigos, não se encaixa em nenhum outro lugar que não a konbini. Um livro sobre os limites do normal nas sociedades e sobre como pessoas fora do padrão podem incomodar nosso fundado senso de ordenação da vida. Profundamente feminista, tragicamente engraçado e sabiamente musical.

Trechim: “Pelo que eu observo, há no mundo dois tipos de pessoas preconceituosas: as que têm dentro de si o impulso e o desejo de discriminar e as que apenas papagaiam, em segunda mão, os discursos preconceituosos que ouviram em algum lugar”.

Sobre os ossos dos mortos – Olga Tokarczuk

Sou vegetariana, portanto estava com medo de ler um livro com um coelhinho rosa decapitado sangrando na capa. Mas muita gente me disse para ler esse livro, tanto que acabei pegando emprestado de um amigo. A narrativa me fisgou desde o começo: no meio de um inverno rigoroso em um pequeno vilarejo na Polônia, acontece uma morte inesperada de um dos poucos vizinhos da narradora. Essa narradora, para mim, é o elemento mais interessante do livro: uma mulher já idosa, que pratica astrologia, cria afeto pelos bichos (odiando, assim, os caçadores — que todos os leitores também hão de odiar!), traduz William Blake com um amigo e gosta de dar apelidos (ela chama de dar “os nomes corretos”) para as pessoas. Achei muito, muito bom até os dois últimos capítulos: o livro, quando poderia deixar um final em aberto, mais enigmático, opta por um desfecho previsível e quebra certas analogias/alegorias do mal humano que estava construindo. Me lembrou um pouco a experiência de leitura do Dostoiévski, que algumas vezes se estrepa no fim. No entanto, é uma aula de construção de personagem. Há uma passagem em que a narradora descreve um carteiro que é primorosa, e que provavelmente usarei em oficinas de personagens mais para frente. Em suma, o livro é maravilhoso até o antepenúltimo capítulo. Depois, pareceu com pressa para terminar, como se Olga Tokarczuk tivesse que pagar uma dívida de jogo com sua publicação…

Um trecho: “— E aí, como é viver numa torre de marfim, acima das cabeças dos meros mortais, com o nariz nas estrelas? — perguntou.

Não suporto isso nas pessoas — essa ironia fria. É uma postura muito covarde; tudo pode ser ridicularizado, desrespeitado, não é preciso se envolver em nada ou estabelecer qualquer laço. Como um homem impotente que não consegue sentir prazer, mas fará de tudo para estragar o prazer dos outros”.

MEMÓRIAS

Afetos Ferozes – Vivian Gornick. Ed. Todavia.

Eu odiei a capa e o título desse livro, mas acabei comprando porque o José Eduardo Gonçalves mandou — e normalmente ele acerta ao me indicar livros. É bem simples: Gornick fala de sua infância em um prédio cheio de famílias judias, como a dela, em Nova Iorque, alternado com o tempo presente (no caso, anos oitenta, quando o livro foi escrito), quando ela fazia caminhadas na rua com sua mãe já idosa. E Gornick vai crescendo enquanto sua mãe vai envelhecendo, até que finalmente essas duas narrativas se encontram. O conflito, por sua vez, jamais cessa. A franqueza como ela escreve tudo, tudo, tudo — informações profundas, que talvez só partilhemos com nossos terapeutas, ou, quem sabe, com desconhecidos — é o mais impressionante nessa história. Demorei a engatar um pouco a leitura, mas quando o livro me pegou, pegou; fui embora, depois fiquei economizando as cinco últimas páginas para não acabar. É sobre ser mulher e ter uma mãe. Bom para quem está se debatendo com os temas da maternidade real.

Para vocês: “Agora eu sou o repositório da sua vida, mãe”.

O ano do macaco – Patti Smith. Ed. Cia. das Letras.

2016 não foi um ano fácil para Patti Smith (para quem foi???), mas pelo menos ela escreveu esse livro lindo para nós. Das coisas dela que li, foi o que mais gostei, talvez porque seja uma mistura perfeita entre o sonho, o acontecimento e a voracidade temporal: prosa e poesia. Em viagens pelos EUA e voltas para casa, misturadas a sonhos e delírios fantásticos (por exemplo: a conversa entre Patti e a placa de um hotel), Smith conta sobre o ano em que ela fez setenta anos, ano do macaco para os chineses, ano em que Trump foi eleito, ano em que algumas pessoas que ela amava adoeceram gravemente.

Acho que acaba sendo um livro sobre o tempo, pois: “Mesmo que seja provável um princípio finito relacionado à velocidade com que a areia passa através de uma ampulheta, não há vantagem em ter um vidro imponente ou grãos mais perfeitos”.

TEATRO

Litoral – Wajdi Mouawad. Ed. Javali (coleção traduções)

Eu tenho uns planos de leitura que não são necessariamente metas ou desafios — talvez desejos literários. E meu desejo para 2020 é ler mais editoras de BH e ler mais teatro. Na última textura, lá estava Luciana Campos belíssima vendendo o livro novo do Wajdi Mouawad. Para quem não conhece, ele escreveu a peça que inspirou o filme Incêndios, dirigido pelo Denis Villeneuve, que é um dos meus filmes preferidos da vida. Litoral fala sobre Wilfrid, um homem que perde o pai e deve levar seu corpo para sua cidade natal, que está em guerra. O texto é chocante pela sua violência, houve várias partes em que quase larguei o livro porque achei que não ia aguentar mais cenas asquerosas e assustadoras. É uma leitura desconfortável e, na real, não sei se gostei muito de ler esse livro. Será por que eu ainda não estou muito acostumada a ler teatro? Ou será que é porque o texto é dolorido demais?  A coisa ruim dessa leitura: fiquei esperando por uma grande catarse, como acontece em Incêndios, achei o texto muito longo e repetitivo, tem uns recitativos meio esquisitos no final, poderia ter tido alguns cortes e algumas coisas precisavam de ser amarradas e de fato não foram. A peça foi encenada há uns anos, e acho uma pena eu ter perdido essa… Adoraria ver como funcionou no palco. A edição da Javali está, como sempre, impecável.

Trecho: “Quando se morre, já não se sabe de nada, Wilfrid. Já viu um cachorro sendo arrastado por um maremoto? Quando se morre, você vira um cachorro, com olhos de cachorro, totalmente só, no meio de uma imensa onda que nos arrasta mar adentro. Mar adentro é terrível, não há mais nada do que o horizonte, então você se caga e se mija todo porque não há mais nada a fazer ser não se mijar e cagar, como o último gesto de vida, um último gesto para deixar uma pista antes de partir”.

QUADRINHOS

Você é a minha mãe? – Alison Bechdel. Quadrinhos da Cia.

Não tão fácil de ler quanto Fun Home (que li mês passado), esse livro é mais longo, mais teórico e mais complicado. Entre a narrativa de diversos sonhos, sessões de análise, memórias, conversas telefônicas, processos criativos e relacionamentos, Bechdel mistura psicanálise, quadrinhos e literatura para dessa vez contar a história com sua mãe, ainda mais complexa do que a relação com o pai. Foi interessante ler esse livro junto do livro da Gornick, sobre o qual escrevi acima. De alguma forma, essa leitura foi tão reveladora, dolorosa, afetuosa para mim como pessoa que eu não sei se me sinto muito confortável para falar dele, ou até mesmo muito pronta para falar dele. Uma sensação parecida de quando li A filha perdida da Elena Ferrante, meu livro favorito da autora: uma compreensão das nossas mães e, por isso, uma compreensão da vida como um todo. Dê para sua mãe de presente depois de ler.

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