O que li n° 1 (dezembro/2019)

[Laura Cohen]

Uma coisa que causa siricotico: entrar no ônibus e tem uma pessoa lendo um livro – independente do livro ou de quem lê, eu preciso saber o que a pessoa está lendo. Estou sempre perguntando aos meus amigos: “o que você está lendo?”. E gosto muito de falar do que estou lendo com pessoas que já leram, querem ou não querem ler e estão lendo os livros em questão. Antes, eu postava meus pequenos comentários literários nas redes sociais, mas fiquei sentindo que era um espaço limitado e chatinho, e que não dava para falar de outras leituras além dos livros. Daí resolvi fazer o O QUE LI, um post mensal aqui no blog das Estratégias Narrativas, com as leituras que fiz de livros, artigos, zines, contos, indicando as coisas que eu gostei, às vezes tendo a coragem de falar do que não gostei/abandonei e ignorando solenemente o que odiei.

Foram as leituras de dezembro de 2019:

ROMANCES/NOVELAS

ANDAR, Thomas Bernhard, ed. Brasileira.

O Bernhard é um dos meus autores favoritos, e Andar  foi uma indicação da Olívia Gutierrez, que é uma andadora profissional e ótima curadora literária. O romance-novela se constrói  num estilo muito parecido com o de O náufrago (mas magnum opus é magnum opus né, amores): idas e voltas narrativas, disse-que-disse, citações infinitas das falas e atos dos outros e muita ansiedade. Se há alguma narrativa nesse livro (pois penso que a força desse texto está na construção e no pensamento, e não nos acontecimentos), é a história de três amigos que caminham juntos conversando – ou conversam juntos caminhando – duas vezes por semana. Um desses três amigos não faz mais parte da caminhada  porque enlouqueceu e está em um hospital psiquiátrico, de forma que o narrador passa a substituí-lo. É um livro sobre pensar e andar, sobre a repetição e, principalmente, sobre a loucura. Uma narrativa filosófica e angustiada, como gosta o nosso querido Bernhard, e uma narrativa bastante engraçada, dessas que fazem a gente rir de nós mesmos, da arrogância da humanidade, da razão.

Olha como começa bem: “Enquanto eu, antes de Karrer enlouquecer, só andava com Oehler na quarta-feira, agora, depois de Karrer enlouquecer, também ando com Oehler na segunda-feira”.

Mais um trechinho: “Andar com Karrer era uma sequência ininterrupta de atos de pensar, diz Oehler, que quase sempre elaborávamos lado a lado, por horas a fio, e que de repente acabavam dando em algum lugar, em algum ponto de parada ou em algum ponto de pensamento, mas na maioria das vezes num determinado lugar de parada e de pensamento”.

LADY MACBETH DO DISTRITO DE MTZENSK, Nikolai Leskov, ed. 34. Tradução: Paulo Bezerra.

Eu nunca tinha lido-lido Leskov direito: só uns contos, e tinha achado sem graça. Foi por causa da polêmica ópera homônima de Shostakovich que resolvi ler esse livro, e fui COMPLETAMENTE ARREBATADA, assim, em caixa alta mesmo. Fiquei uns dois dias perdida em casa depois da leitura, tentando escrever, tentando pensar, tentando existir, mas completamente em êxtase e grata por existir uma coisa TÃO BOA no mundo. É uma novelinha de setenta páginas que devorei em algumas horas, mas também é um grande universo. Em resumo, é a história de uma entediada esposa de um comerciante em uma Rússia isolada e rural. Acho que falar mais que isso é dar spoiler, e o próprio nome Lady Macbeth no título já mostra a vocês o caminho sangrento que a narrativa toma. Fiquei impressionada como essa é uma narrativa proto-feminista, em que mostra uma mulher com valor de coisa enfrentando uma sociedade incapaz de repensar a si mesma e sempre exposta a eleger um bode expiatório. Um livro espantosamente atual.

O único trecho que posso mostrar aqui sem dar notícias da trama é o início, que não é menos genial que outros trechos que marquei: “De quando em quando aparecem em nossas paragens uns tipos que nos fazem sentir um tremor na alma sempre que nos lembramos deles, por mais que o tempo tenha passado desde o nosso último encontro. E um desses tipos é Catierina Lvovna Izmáilova, mulher de um comerciante, outrora protagonista de um terrível drama, após o qual nossa nobreza, usando uma expressão bem apropriada, passou a chamá-la ‘Lady Macbeth do distrito de Mtzensk’”.

SEM SANGUE, Alessandro Baricco, ed. Cia das letras. Tradução: Rosa Freire D’Aguiar.

Além da bênção que Elena Ferrante nos deu com seus livros, ela nos abençoou fazendo crescer o interesse pela literatura italiana. Meu marido tinha lido um livro do Baricco e achou morno, mas depois de várias indicações seguidas, achei dois livros do autor expostos naquela sedutora mesinha de livros-a-vinte-reais na livraria Quixote. O Alencar me indicou um dos livros, um amigo indicou outro. Sem sangue é um livro sobre vingança e compreensão (dois temas que me interessam muito, pois tenho ascendente em escorpião e vênus em aquário). Simultaneamente violento e cheio de doçura, com suas oitenta páginas, conta-se a história de homens que aparecem em uma propriedade rural para se vingar do homem que a habita – ao que parece, o homem cometeu crimes de guerra, mas não sabemos exatamente quais crimes foram. O homem tem dois filhos pequenos, o menino pouco mais velho que a menina. E é por causa dos jovens personagem que a coisa se torna tensa: como a guerra deixa restos nas gerações seguintes, em nós? Como a narrativa não marca um espaço ou uma guerra, ela se espelha em nosso tempo: como o passado brasileiro provoca o que vivemos hoje? Outro trunfo: o manejo tempo. O livro consegue fazer anos se passarem em apenas algumas frases. E consegue fazer uns minutos durarem muitas palavras.

Olha o trechinho: “Tentou descobrir se era um menino ou um soldado, se era a milésima vez ou a primeira, e se havia um cérebro ligado àquela pistola ou apenas a cegueira de um instinto. Viu o cano da pistola tremer imperceptivelmente, como se desenhasse um minúsculo garrancho no ar”.

QUADRINHOS

FUN HOME: UMA TRAGICOMÉDIA EM FAMÍLIA, Alison Bechdel, ed. Todavia. Tradução: André Conti.

Eu tenho certa dificuldade com a linguagem dos quadrinhos, talvez por ser uma pessoa que valoriza o texto acima da imagem. Pode ser o quadrinho mais lindo do mundo, mas se a narrativa é fraca, eu não vou gostar. O legal da Bechdel é que ela usa vários recursos para contar muito bem uma história: ela desenha, escreve, cita, dá referências, joga com o gênero do ensaio, criando a biografia de uma família focada na figura do pai. Quando leio uma história de família, que é um dos meus assuntos preferidos na literatura, sinto que é impossível não fazer uma comparação com nosso processo de crescimento, realizando uma reviravolta interna. Isso se potencializa aqui, porque a narrativa de Bechdel é muito sensível, franca, profunda e psicanalítica. Passando por memórias e citando suas leituras (de uma forma maravilhosa: ela desenha os livros que os personagens estão lendo e destaca trechos!), Fun Home é com certeza um dos quadrinhos mais consistentes que já li.

Sim, Alison, concordo com você: também suspeito muito da crítica literária. 

CONTO

GORILAS, José Eduardo Gonçalves. Revista Olympio n. 2. Ed. Tlön/Miguilim. 2019.

A segunda edição da revista Olympio, apesar de não ter sido lançada ainda, já está disponível na Livraria da Rua. E está linda, com o design xamânico do Estudio Guyabo. Quando pego qualquer revista que tem literatura, ensaio e outras artes, confesso que vou direto para a literatura. Fico sentindo que é como separar as jujubas vermelhas do pacote e comê-las primeiro. No caso, vamos a essa jujuba gordinha, que é o conto do José Eduardo Gonçalves.

Gorilas é um conto curto e enigmático, bem ao modo dos contos do Kafka. Em primeira pessoa, observamos um narrador fazendo observações ambíguas sobre esses personagens, os gorilas. Se o Piglia diz que todo conto tem duas histórias e o importante é o que não é dito, penso que Gorilas é um desses contos que se aproximam da poesia não pela linguagem, mas por ter em oculto três, quatro, cinco histórias. Gorilas cria o infinito em um pequeno espaço. Muito bom, querido Zé! Dos seus contos que vêm surgindo, acho que esse é o melhor que li até agora.

2 Comments on “O que li n° 1 (dezembro/2019)”

  1. Incrível a ideia de usar o blog para mostrar suas leituras, realmente as redes sociais tem um espaço muito limitado, embora eu mesma tenha um Instagram literário. Ótimas leituras, salvei algumas para ler também.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *