O que li n°5: abril e maio

Comi mosca, trabalhei demais, comprei livros na promoção doida da 34, agora vim falar dos livros que li em dois meses e não em um só.

CONTOS

capa linda, texto foda, autora misteriosa

Surtos urbanos – Vera Albers

Rolou uma promoção na 34 e eu me propus a comprar uns livros dos quais eu não tinha ouvido falar e tive deliciosas surpresas nesse sentido. Esse pequeno livro de pequenas narrativas dessa misteriosa autora sem biografia, sem local e data de nascimento (sim, procure e você não vai achar) é uma joia para quem gosta de contos. Há uma variedade de linguagens e temas espantosa aqui, mas normalmente são histórias de pessoas em pontos de crise (como o Dostoievski faz tão bem em muitas páginas, aqui os contos têm no máximo 5 páginas…), narrados em vários tipos de vozes. Um livro excepcional – que sorte a minha de o ter encontrado e poder dizer isso a vocês. Ela me lembra bastante uma das minhas escritoras favoritas, Teresa Veiga.

cachorro e osso

Alberto Martins – A história dos ossos.

Este livrinho lindo é composto de dois contos: o primeiro, o cão no sótão, fala da loucura (uma loucura misturada à escrita) de um irmão narrada por outro irmão. O segundo, A história dos ossos, sobre um filho exumando os ossos de um pai. É maravilhoso como aqui há um encontro total de gêneros: o texto dramatúrgico, o texto poético, o ensaio.

ROMANCES BIOGRÁFICOS (?)

cabuloso

A invenção da solidão – Paul Auster

Quando você digita CABULOSO no google aparece a foto desse livro. Brincadeiras à parte, temos aqui dois ensaios literários do Paul Auster, que parecem formar um romance – não sou muito fã dele, mas esse livro eu adorei demais. Escritos logo após a morte de seu pai, um homem de natureza difícil e misteriosa, Auster começa uma investigação a respeito de sua família. Começando com a grande casa que o pai ocupava, até chegar em uma história misteriosa e surpreendente a respeito de sua avó. O formato do livro é super interessante: parágrafos narrativas e reflexivos, às vezes longos, mas na maior parte do tempo curtos. Saca só: “Não há nada mais terrível, aprendi então, do que ter que encarar os objetos de um morto. Coisas são inertes: só têm sentido em função da vida que faz uso delas. Quando a vida termina, as coisas mudam, embora permaneçam iguais. Estão ali e no entanto não são mais: fantasmas tangíveis, condenados a sobreviver em um mundo ao qual já não pertencem. O que pode se pensar, por exemplo, de um armário cheio de roupas silenciosamente à espera de serem usadas de novo por um homem que não virá mais abrir a porta?”.

vicissitudes da ciência

Peste e cólera – Patrick Deville.

Lá vai mais uma dessas leituras para a pandemia: a biografia lindamente romanceada do Alexandre Yersin, a primeira pessoa a descrever o bacilo da peste. Deville chama esse tipo de romance de “sem-ficção”, e acho que é bem por aí, apesar de, em terceira pessoa, haver muita coisa que parece mais imaginada do que propriamente acontecida. É um livro doce, emocionante, que coloca Yersin um pouco como herói. Mas é um pesquisador sui generis: médico, se recusava a cobrar dos pacientes que não podiam pagar, mudava de assunto nas pesquisas e de interesse rapidamente, às vezes sem concluir muitas coisas, passou boa parte da vida no Vietnã. Inclusive, é um livro que dá vontade de viajar, e conhecer precisamente o Vietnã, descrito como o paraíso na terra. Um bom livro para nós, que esperamos uma vacina e um remédio para o covid-19: a gente precisa ser bem paciente em relação à ciência, e dar aos pesquisadores aquilo que eles precisam. Olha que lindo: “Geralmente, fala-se da história das ciências como de uma grande avenida que levaria direto da ignorância à verdade, mas isso é falso. É antes um emaranhado de vias sem saída em que o pensamento se perde e se entrava. Uma compilação de fracassos muitas vezes risíveis”.

ROMANCES

dança do cossaco

Tarás Bulba – Nikolai Gógol

Eu estava com saudade de ler literatura russa, e para escapar do meu Dostoiévski costumeiro, peguei um Gógol meio sem saber do que se tratava esse livro. Dois filhos voltam do colégio interno e o pai, o Tarás que dá nome ao romance (um homem grande, gordo, bruto), resolve levar os meninos para viver com os cossaco e, assim, aprender a guerra. É um livro meio cômico, meio trágico, às vezes divertido, às vezes repugnante, e com certeza uma das narrativas mais violentas que eu já li sobre conflitos de costumes, tradições e desejos.

viajar, ler livros e ter crises de ansiedade

Vertigem – W. G. Sebald

Sempre quis ler o Sebald, mas só agora tive coragem de pegar um. Não sei por que, mas sempre achei que seria uma leitura difícil e maçante, mas na real é fluida, divertida, belíssima. É difícil explicar o que é esse livro, porque ele se perde entre o ensaio, o relato de viagem, o romance, e para deixar o caldo mais grosso, o livro é cheio de imagens que não são meras ilustrações do narrado, mas que também são texto. No fundo, acho que é uma narrativa sobre o tempo e, como diz o próprio título, sua vertigem. Olha só: “Quanto mais imagens coleciono do passado, eu disse, mais improvável me parece que o passado tenha de fato ocorrido dessa maneira, pois nada nele podia ser chamado de normal: a maior parte dele era ridícula e, quando não ridícula, aterradora”.

quer desgraçamento?

O homem sem doença – Arnon Grunberg

Olha, não sei se eu devia ter lido esse livro na quarentena, mas li e amei. Desgraçou minha cabeça total. Trata-se de um romance kafkiano tanto no tema quanto na secura da linguagem. É a história de Sam, um jovem arquiteto suíço filho de uma mãe suíça e um pai indiano, que vai ao Iraque fazer um projeto de uma casa de ópera. Sam tem uma namorada e uma irmã que tem uma doença degenerativa, que aos poucos vai matá-la, por isso ele é o homem sem doença… Se você se interessou, não procure saber mais que isso: não ligo para spoilers de uma maneira geral, mas um spoiler atrapalha um pouco a leitura desse livro, e a orelha do livro já é uma metralhadora de spoilers (porra, Rádio Londres!!!). Uma narrativa que expõe questões do totalitarismo e da democracia. Ah, e é uma leitura tão viciante que fui dormir às 2h da manhã um dia porque não conseguia parar de ler.

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