Ó, musa!

Por Laura Cohen

Sinto muito aos que falam que “a musa está morta”, mas para mim não há afirmação mais rude e triste. A máxima implica em passar por cima de todas as coisas que nós, humanos, seres de grandíssimo saber, somos completamente incapazes de explicar.

A musa está na coisa mais íntima e mais óbvia que posso compartilhar com o mundo: eu tenho uma necessidade de escrever que, se desrespeitada, pode me deixar doente. Eu sinto a grande e massacrante necessidade de escrever desde quando fui alfabetizada. Desde então existe a grande e também massacrante pergunta: as pessoas escrevem por qual motivo?

Depois de um tempo pensando no assunto e dando ateliês de escrita para pessoas com questões tão parecidas com as minhas, fiquei pensando que talvez eu devesse inverter a pergunta: por qual motivo as pessoas não escrevem? Porque é quase sempre a mesma coisa – quero escrever, mas não consigo. Não tenho inspiração. A inspiração é, por sua vez, uma palavra passiva, e que me deixa muito irritada: uma desculpa para não forçar o canto das musas, uma desculpa para a nossa total incapacidade de ouvir as coisas que elas querem dizer. A musa é uma coisa ativa – é preciso estabelecer com elas um diálogo, é preciso invocá-las, é preciso trabalhar em direção a elas.

Conheci as musas doze anos depois de ser alfabetizada, quando estava na faculdade e li aqueles dois versos de Hesíodo que fazem os helenistas sustentarem as suas bolsas de pesquisa: “sabemos muita mentira dizer semelhante aos fatos/ e sabemos, se queremos, verdades enunciar”.[1] Lá estava: queria eu, um projeto de escritora, todo o saber das musas que implica a fazer o mentiroso semelhante ao verdadeiro.

Ainda acho bonita essa ideia de chamarmos de deus todas aquelas coisas que não conseguimos explicar. E encontrei um conforto na ideia de que existam musas, vozes transparentes que parecem habitar o mundo externo, mas que no fundo sabemos que elas estão logo ali na nossa cabeça. Aos poucos, com um tempo de ateliê de escrita, fui vendo que cada indivíduo tem o seu tipo de criação – a sua espécie de musa. Sim, a musa pode ser uma brincadeira, mas é uma forma fácil e doce de explicar um processo.

As minhas queridas que frequentam o ateliê andam criando umas expressões sensacionais para as musas: a musa da necessidade (a que me faz escrever), a musa da disciplina (que nós cantamos para poder escrever todos os dias sem falta nem que seja uma palavrinha só) e a musa da chibata (que as alunas dizem ser eu, quando chegam ao ateliê com os cadernos vazios). Desde quando criei este espaço, o Estratégias Narrativas, a fim de partilhar processos e musas, eu queria escrever sobre o que tem sido falar da escrita, viver a escrita, acompanhar a escrita. Com este hino às musas múltiplas, quero então começar uma coluna que devo publicar aqui semanalmente. E que a musa da disciplina me ajude…

 

[1] Teogonia, v. 27-28. Trad. André Malta. Tirada do livro: Homero Múltiplo: ensaios sobre a épica grega. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012.

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