Happy hour

[Por Laetitia V. Jourdan*]

Era um homem vazio. Alto, grisalho, de pele morena, com óculos que lhe davam um ar intelectual, despistando a sua verdadeira natureza: a indiferença. Porque o fundamento da intelectualidade é o pensar e, para tanto, é necessário se interessar, ficar curioso, querer saber. Ele não queria saber de nada. Quando lhe perguntavam o que achava sobre determinado tema, levantava os ombros, virava a cabeça alguns graus para a esquerda, alçava as sobrancelhas e, esboçando um biquinho entre o descaso e o aborrecimento, respondia: é, interessante. A final da Copa do Brasil, o estado islâmico, o ganhador do Oscar ou a nova namorada do Carlos. “É, interessante”. Importante salientar que, apesar da indiferença evidente, Rômulo dava diversas entonações a essa frase, buscando alcançar a reação esperada por seus interlocutores de acordo com cada caso. Se o assunto era sério, o “é, interessante” ganhava um tom mais grave, com uma voz quase gutural. Se, por outro lado, o caso fosse leve, como a eleição da Miss Minas Gerais, sua frase era risonha, meio debochada. No entanto, o efeito era invariavelmente o mesmo: parecia que ia ser iniciada uma longa reflexão sobre a temática em questão, em seus aspectos mais diversos, mas sempre acabava ali, nas reticências.

Com seus 40 anos, Rômulo tinha um emprego qualquer, em uma repartição pública qualquer. Nunca falou em que consistia o seu trabalho. Também, naquela mesa de bar, ninguém nunca ousou cair em tamanha intimidade. Não com ele, pelo menos. Falava-se de tudo, desde que este tudo estivesse nos jornais, nas revistas ou na TV naquela semana. Rômulo namorava Lídia, que já fazia parte da turma há mais tempo. Na verdade, se conheceram ali, naqueles happy hours de quarta-feira no Bar do Joca. Ela, apesar da intimidade legitimada pelo status de namorada, não parecia saber muito mais sobre ele do que nós, companheiros de bar às quartas. Na verdade, a relação dos dois parecia se resumir ao sexo pós-happy hour e a alguns encontros esporádicos aos finais de semana, um cinema, um teatro, com o sexo pós-programa. Além, claro, de alguns diálogos via whatsapp, sempre em tom monossilábico da parte dele. Mas Lídia sentia uma atração por essa indiferença que, também para ela, era um mistério.

Confesso que no início, todos nós achávamos que Rômulo escondia, por trás daquele ar sério (porém amigável) de homem de poucas palavras, uma inteligência fora do comum, um trabalho incrivelmente fascinante ou ao menos uma segunda vida deixada para trás, da qual não se fala, mas que deixa marcas. Mas com o tempo nossas expectativas foram sendo abandonadas. Aos poucos, aquele homem meio magro, de meia idade e de classe média se mostrou ser apenas mais um homem em busca de companhia para seu final do dia no meio da semana. Não ria compulsivamente, nem se alterava com discussões políticas. Não ficava irritado ao ser motivo de chacota, nem parecia feliz ao nos ver. Bebia devagar e sempre, sem demonstrar qualquer alteração em seu estado cognitivo. Ninguém sabia exatamente o que fazia Rômulo vir ao bar do Joca às quartas-feira. Nada parecia realmente agradá-lo, nem o contrário.

Um dia Rômulo não apareceu no happy hour e Lídia acabou indo embora mais cedo. Foi aí que alguma corajosa colocou em pauta a questão que devia habitar a cabeça de todos nós (ou ao menos, de todas nós): como seria transar com Rômulo? Os homens, em um primeiro momento, se recusaram a discutir o assunto, afinal eles não queriam ter o desprazer de imaginar o dito cujo na cama. Mas as garrafas de cerveja e as hipóteses eram tantas que a conversa nesse dia durou até depois das doze badaladas. Alguns achavam que ele deveria compensar toda sua indiferença na cama, tendo uma performance muito acima da média. Além disso, segundo certas opiniões, o tamanho de seu sapato e de seu antebraço já denunciavam sua “enorme indiferença”. Isso também justificaria o fato de Lídia se sujeitar a essa relação sem pé nem cabeça. Outros já defendiam que a relação sexual é uma extensão de nossos hábitos e práticas cotidianas e, portanto, indiferente na vida, indiferente na cama. Além do quê, de nada adiantaria sua “enorme indiferença” se ele fosse indiferente a ela. Nesse contexto, a boa e velha frase foi repetida diversas vezes: “tamanho não é documento”, sobretudo pela ala masculina da mesa, o que me fez questionar a média peniana dos meus colegas de bar.

O assunto naquela noite acabou sem que chegássemos a uma conclusão. Mas o tema continuou na minha cabeça, mesmo que adormecido e apenas reavivado às quartas, no fim do expediente, ao ver Rômulo. Analisei seu ante-braço, o tamanho de seus sapatos, até procurei identificar uma protuberância entre suas pernas. Às vezes, durante as conversas, me pegava encarando-o e imaginando como seria o sexo com ele. Não que eu o desejasse, longe disso. Eu só precisava saber. Eis que numa quarta-feira qualquer eu fui a primeira da turma a chegar ao bar do Joca, seguida por Lídia. Fiquei sem graça com aquela situação, como se eu tivesse traído uma amiga com seu namorado. Mas o destino quis que nós duas nos encontrássemos, lado a lado, sozinhas, numa mesa de bar, em busca de um assunto qualquer enquanto esperávamos o resto do pessoal. Eu não podia deixar passar a oportunidade. Aquela pergunta permeava meu imaginário há semanas. Perguntei. Ela me olhou assustada com aquela intimidade repentina, com aquela pergunta solta, sem contexto ou justificativa. Realmente teria sido mais educado introduzir um assunto de caráter sexual antes de perguntar como era o sexo com Rômulo, mas o medo de mais alguém chegar e de perder a minha chance de elucidar a dúvida era grande, eu não podia arriscar. Apesar do susto, Lídia parecia disposta a responder, desde que eu dissesse o porquê da questão. Dei uma desculpa qualquer, como sendo uma enquete pessoal que eu estava fazendo com amigas, tentando relacionar o caráter social dos homens com suas performances entre quatro paredes. Ela fingiu acreditar e, desviando o olhar para o chão, respondeu: ah… é interessante. E foi bem aí que avistei Antônio entrando e nos procurando com o olhar. Acenei.

 

* Laetitia V. Jourdan é antropóloga, bacharel em ciências sociais pela UFMG e mestre em antropologia aplicada ao desenvolvimento sustentável na Universidade de Provence. Franco-brasileira, na procura de tentar se encontrar no mundo e se conhecer melhor, descobriu seu desejo pela escrita. Hoje, faz experimentos no atelier Estratégias Narrativas em busca de um estilo, de uma história, de uma maior compreensão de si e dos outros.

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