Flotando en la deriva*

[Flávia Péret]

(para vos, paloma)

Há quase 10 anos, escrevi um artigo sobre os livros da escritora Paloma Vidal. Foi um texto difícil, demorei muito tempo para começar e tive bastante dificuldade em me enquadrar no gênero “crítica literária acadêmica”, que era o que esperavam de mim naquele contexto. Na época, eu lembro que escrevi um texto no meu blog onde brincava com a possibilidade de escrever de outro modo, de forma mais livre e a liberdade estava diretamente ligada ao meu afeto por dois livros que Paloma tinha escrito: Mais ao Sul (2008) e Algum Lugar (2009).

Hoje, 10 anos depois, leio novamente um livro da Paloma que também me atinge como uma tempestade elétrica (rajada de trovão ela me joga no chão, letrux – picada no coração, Tsvetàeva), porque os livros assim como as pessoas causam em mim esse efeito do desejo, da euforia, uma espécie de fogo. O livro é Ensaio de Voo, publicado pela editora Quelônio.

Ensaio de Voo é um livro curto, não tem nenhum parágrafo e as frases começam todas com letra minúscula: é um bloco de texto impresso na cor azul sobre um papel também azul, áspero. Esse papel – o nome oficial é AG – possui algumas manchas como se fossem acúmulos de matéria orgânica ou algum erro de fabricação. Embora eu mesma me lembre pouco disso, papel já foi planta e alguns papéis trazem essa memória. É justamente essa característica tosca, áspera, rugosa do AG (é o mesmo papel que era usado antigamente para embrulhar carne) que faz com que o texto impresso sobre a superfície do papel crie uma espécie de micro-relevo.  Este texto é então um território que eu posso ocupar e percorrer tanto com meus olhos enquanto leio, mas, também, com as pontas dos dedos, sentindo o relevo cavado no corpo da página pela tinta e pelas letras tipográficas.

Ensaio de Voo é uma história de múltiplos sentidos. É, sobretudo, uma história aberta. Primeiro porque é uma experimentação de escrever um texto usando o bloco de notas do celular durante o tempo que dura uma viagem de avião entre Buenos Aires e São Paulo. O texto executa (ou simula) essa experiência: um texto em movimento contínuo. A personagem “principal”, ou melhor, a narradora, está escrevendo um texto (gênero não definido) no celular, enquanto espera o avião, enquanto voa, enquanto lê, tudo ao mesmo tempo agora. O texto opera essa simultaneidade entre escrita e leitura, entre escrita e pensamento.

Pessoas que escrevem conhecem muito bem essa sensação que acontece quando lemos um texto e imediatamente queremos também começar a escrever, a leitura produzindo em quem lê um desejo intenso (e extenso) de escrita. Este texto que escrevo é uma tentativa de fazer durar em mim o efeito de ler aquelas palavras e Ensaio de Voo é um livro que tematiza justamente a força desse efeito: uma escrita por contágio, por continuidade, por rebote. É um livro sobre como somos afetadas pelos textos, pelos livros, pelas leituras, pelos lugares de leitura.

Enquanto espera o avião, a narradora-personagem-principal-paloma lê dois livros que comprou em Buenos Aires. Histórias que se espelham e abordam experiências comuns que disparam nela o desejo de, também, escrever.

estou no avião. leio o começo de dois livros que falam de duas moças que fizeram as malas, atravessaram o oceano e foram morar na europa. penso que quero escrever algo que tenha a ver com elas, que faltam duas horas para o meu avião chegar em são paulo (…). quero escrever. preciso, depois de ler esses dois começos, falar de uma viagem, uma viagem de ida sem volta no horizonte.

A mulher que lê os livros e que escreve no celular tem uma irmã, cinco anos mais nova, que há um ano também se mudou de país. Enquanto viaja, lê e pensa na irmã, ela escreve sobre a experiência dessas quatro mulheres e seus deslocamentos geográficos, afetivos, existenciais por paisagens tão diferentes.

elas fizeram suas malas, pegaram um avião, chegaram numa cidade estrangeira e alugaram um quarto.

Há 13 anos, realizei exatamente a mesma aventura. Talvez por isso, me identifique tanto e há tanto tempo com as personagens que Paloma Vidal inventa. Partir é um verbo que tem muitos sentidos em sua literatura. Ensaio de Voo é uma narrativa sobre a experiência de se pensar (ensaiar, testar) movimentos de fuga, de ir e não voltar mais, movimento de escapar em direção a alguma coisa que ninguém sabe o que é, porque o desconhecido é exatamente aquilo que não conhecemos. Essa frase é muito óbvia e embora meu impulso seja apagá-la eu não vou fazer isso porque eu preciso muito das frases óbvias para entender certas coisas. No livro, a narradora reflete sobre todas as mudanças que fez ao longo da vida, sobre os lugares onde já viveu, sobre a diferença radical entre mudança e viagem e tenta imaginar o que pensou a irmã quando decidiu vender suas coisas, fazer as malas e partir.

Partir é um movimento de deslocamento (ir, sair), mas é também uma ação de divisão, de separação.  Nos livros de Paloma Vidal, parte-se de uma cidade, de um país, mas parte-se também de uma memória, de um trauma ou de um casamento: separar-se é partir-se ao meio. Sem mais ponto fixo, abandonadas a nós mesmas, um pouco divididas, mas também inteiras, continuamos movendo-nos em direção à liberdade, essa palavra tão fascinante quanto assustadora. Pensando com Paloma, acho que a liberdade é uma aventura.

outra coisa, que tem a ver com a palavra “aventura”. me vem essa palavra “aventura”. também não sei se é ela que cabe aqui. em todo caso, o que a frase me disse, quando fechei o livro, e o que ela me diz agora não é o mesmo.ela me disse algo então algo relacionado a estar sozinha com o seu desejo e saber se é capaz de ser fiel a ele.a ideia do desamparo tinha a ver com um desejo que pode acabar frustrado.mas agora ao reler a frase e copiá-la me vem algo completamente diferente, afastado de mim, que tem a ver com uma liberdade imensa, uma liberdade que eu desconheço, da qual me afastei (…)

(escrevi até aqui)

*Pós-escrito: este texto foi escrito escutando a música História do Fogo (Otto), entre os aeroportos de confins (BH) e congonhas (SP), em junho de 2018, a mulher que escreveu esse texto não existe mais. o texto fica como registro dessa que fui, naqueles dias confusos de junho, minhas confusões agora são outras porque as pessoas assim como as confusões são sempre diferentes de si mesmas, sempre flotando en la deriva, como escreveu o músico argentino, Andrés Calamaro, na canção Paloma (https://www.youtube.com/watch?v=z8TpojRq6VQ).

Flávia Péret é escritora e professora de literatura. É mestre em Estudos Literários pela UFMG, estudou Literatura Latino-americana na Universidade de Buenos Aires (UBA) e é mestranda em Educação na UFMG, com uma pesquisa sobre escrita e formas políticas de resistência. Participou do programa Rumos de Literatura, na categoria Crítica Literária (2010/2011), promovido pelo Itaú Cultural e foi vencedora do Prêmio Folha Memória – Programa de Orientação de Pesquisa em História do Jornalismo Brasileiro, organizado pelo jornal Folha de São Paulo (2010). Publicou os livros História da Imprensa Gay no Brasil (Publifolha, 2011), 10 Poemas de Amor e de Susto(Edição independente, 2013), A outra noite (Edição independente, 2015) e Uma mulher (Edição independente+Guayabo, 2017). Seu próximo livro, Os patos, está no prelo e sairá pelo Selo Leme em colaboração com o Estúdio Guayabo. Desde 2009, atua como arte-educadora no campo da palavra e suas interseções com a imagem. (foto: Bianca de Sá)

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