Escrever é importante, escrever é importante, escrever é importante (ou: mantra para 2016).

Laura Cohen

Tive algumas dificuldades com a escrita no ano de 2015 e gostaria de falar delas. Acho que os meus principais erros foram: 1) ler menos do que eu gostaria; 2) ficar muito tempo sem escrever por escolha própria (e masoquismo); 3) não aceitar que a escrita, para mim, é uma necessidade e não uma escolha; 4) esquecer que a escrita de ficção pode sim ajudar meu trabalho acadêmico; 5) escrever com pressa.

 

Ainda estou tendo essas dificuldades, mas em dezembro já deitei minha cabecinha tranquila no travesseiro depois de parar na página 106 de um romance novo que estou planejando desde 2013. Acredito que vai ser a maior coisa (em tamanho) que escrevi até hoje, porque estou na página 106 e estou no comecinho da história. Sempre quis escrever um livro grande porque sempre gostei de ler livros grandes, massudos, cheios de páginas como os livrões do Dostoiévski. Só que me dá um pouco de desespero ver esse livro chegando todo involuntário enquanto eu estou fazendo mestrado. Vou ter que arrumar um jeito de dar conta simplesmente porque se eu não escrever, ah, é aí que não vou dar conta.

Este ano: num primeiro momento, depois de ter deixado de escrever regularmente (eu apenas tomava notas meio bestas e sem esforço, além de esboçar um diário de pesquisa do abandonado com muita frequência), eu tive que entregar o meu projeto de pesquisa definitivo do mestrado e escrever uma comunicação para um congresso. Passei de agosto a dezembro achando que eu estava escrevendo muito mal. E depois que eu recuperei o meu estilo que achei que tinha perdido (com um esforço matador), eu fiquei tentando me convencer de que escrever é importante.

Na verdade, eu preciso me convencer racionalmente de que escrever é importante porque escrever é inevitável para mim. Não é algo que eu vou conseguir parar de fazer. Mesmo sendo a coisa que eu mais amo fazer nesse mundo, às vezes eu desejo profundamente que as ideias parem de vir e façam uma pausa, justamente em momentos tensos como o que estou vivendo hoje – qualquer coisa que não é o mestrado na minha cabeça acaba parecendo uma perda de tempo. Entretanto, descobri da pior forma possível que, se eu não mantiver a escrita de ficção como hábito, isso vai acabar prejudicando tudo que eu faço na vida.

Isso aqui tá parecendo um texto de fim de ano – e acho que vai ser o meu último texto do ano aqui no blog. Sempre achei esse negócio de virada de ano uma besteira, mas acabei descobrindo porque a gente gosta tanto de dar tchau para um ano e dar oi para o outro ano: a vida tem certo sentido de narrativa na nossa cabeça, e isso é meio terapêutico. O ano novo podia ser em qualquer momento, mas a expectativa de que um ano ruim (como foi 2015 para muita gente que eu conheço) acabe, dando a perspectiva de uma coisa melhor em 2016 é iluminadora. Fiz umas coisas que eu normalmente não faço: comprei um caderno novo, rosa pink (meus cadernos normalmente são pretos) e arrumei o meu escritório, jogando todas as coisas que foram ruins fora, além de ter confirmado a presença na festa de ano novo de um amigo (e eu detesto reveilão).

Uma das melhores coisas do fim de ano foi que, nessa crise toda, eu descobri o que quero escrever no momento. Li um livro brilhante da Donna Tartt chamado A história secreta, que fala basicamente de um assassinato cometido por estudantes de letras clássicas numa universidade estadunidense (uma graça para mim, estudante de grego antigo). O livro tinha de tudo para ser péssimo, fiquei no maior preconceito errado com a autora, super best-seller. Entretanto, a narrativa me atingiu em cheio: excelentes personagens, enredo viciante, sem moralismos – a vida está ali, um universo quase completo, quase perfeito.

O livro trouxe de volta uma sensação antiga da minha adolescência, a sensação muito boa de chegar da escola e ficar a tarde toda lendo. Eu fiquei pensando na Laura de quinze anos, como ela simplesmente teria adorado ler Donna Tartt. Cheguei a uma conclusão preciosa de que quero escrever meu próximo livro assim como a autora escreve neste livro: um universo inteiro retratado de forma densa e completa, porém narrado com rapidez, personagens cujas personalidades encontram vários tons, pelos quais a gente acaba tendo um envolvimento emocional quase pessoal, certa melancolia, muita precisão, sem julgamentos morais desnecessários, um texto tão aberto para a entrada do leitor que ele acaba sentindo que também é um personagem naquele texto.

Escrevendo um livro novo, acho que estou tentando escrever um texto para aquela Laura de quinze anos, um texto que a Laura de quinze anos gostaria de ler no quarto dela depois da escola, apaixonada por novas histórias, universos diferentes do universo tão chato que ela era obrigada a enfrentar.

 

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