Entrevista: Laetitia Jourdan, autora de Fissuras

[Foto: Bianca de Sá/Papelícula]

Laetitia Jourdan, para mim, é uma autora de pensamento político e multidisciplinar, conseguindo construir textos simultaneamente com peso e humor. Já escrevi sobre o trabalho dela aqui, mas no fim do processo de edição, impressão e lançamento do seu primeiro livro, Fissuras (Leme/impressões de minas, 2019), quis ter uma conversa mais profunda com ela. Temos aqui palavras de uma sabedoria impressionante sobre os modos-de-fazer da escrita, sem máscaras.Nascida em Lyon, Laetitia cresceu e vive em Belo Horizonte. É antropóloga e editora da à Revista Literária, além de ministrar cursos de escrita criativa aqui nas Estratégias Narrativas.

Boa leitura e vejo vocês no lançamento, que é amanhã, sábado, 29/06, na Feira Textura!

Laura Cohen: Como foi o processo de escrita dos textos do livro Fissuras?

Laetitia Jourdan: Em 2015 voltei para Belo Horizonte depois de cinco anos fora. Foi um período muito rico em experiências e eu cheguei aqui com a necessidade de extravasar tudo isso. A escrita se mostrou um caminho. Apesar de nunca ter sido alguém que escreve muito, eu sempre tive certa intimidade com as palavras. Era do tipo que o professor de Português escolhia para monitora da turma. Mas era muito raro eu escrever qualquer coisa que não fosse por demanda externa. Foi uma amiga que falou que a irmã dela estava fazendo parte de um ateliê de escrita e eu fui atrás. Toda semana um encontro, toda semana um texto. Nos primeiros meses eu mais sofria por não conseguir escrever do que pelo que escrevia. Os textos, quando saíam, eram cada hora de um tipo. Durante um período escrevi crônicas, mas na maior parte das vezes eram textos muito densos – o que não significa que eram bons. Falo que cheguei ali com síndrome de Clarice. Eu ligava o processo de escrita a algo muito profundo, como se eu tivesse que revelar uma compreensão da alma humana. E tudo isso, através de um ovo. Era tudo muito pretensioso e frustrante. Foi a partir de um exercício de construção de personagem que minha relação com a escrita mudou. Eu comecei a me divertir e isso foi uma descoberta. Escrever poderia ser fonte de prazer e eu tinha me esquecido disso.

Depois de um tempo levei três pequenos textos para o ateliê, todos com algum ponto em comum. Você disse que aquilo estava com cara de um projeto para livro e a Luciana Abdo, amiga e parceira que, na época, era colega no ateliê, disse que aqueles textos eram como “fissuras”. Fiquei com isso na cabeça. Esse é um livro que nasceu do título e eu agradeço muito a Lu por ter me dado esse fio condutor. A partir daí eu só conseguia pensar em escrever coisas que me remetessem a esse tema. Pesquisei significados, referências nas artes plásticas e meu olhar se voltou para um mundo fissurado. Mas foi um processo longo. Depois da primeira versão da maior parte dos textos, deixei eles de molho. Fiz outros cursos de escrita, também dei cursos, escrevi outras coisas em outros estilos. Até que resolvi retomar o projeto e fiz uma orientação com o Marcelino Freire. Foi muito importante ter uma leitura externa, de uma pessoa que eu não conhecia e que eu admiro enquanto escritor. A partir disso foi outra revisão dos textos, com um olhar mais poético, tentando sair dos lugares comuns. Lembro de tentar seguir uma fala do Marcelino: “seria lindo se a escrita fosse menos na cabeça e mais na virilha, na axila”. A partir dessa fala foram incontáveis os verbos olhar, observar, lembrar, pensar que eu cortei. Confesso que tive mais dificuldade em inserir a virilha e a axila, mas de um certo modo, tentei. Depois veio mais um período de molho dos textos, a sua leitura e daí o processo de publicação. Até na hora de diagramar eu mexi. É um processo eterno se não nos colocamos um limite e desapegamos.

Laura: Você é antropóloga por formação. Acredita que algo desse ofício-antropologia acabou migrando para sua escrita ficcional?

Laetitia: Acredito que a Antropologia é um olhar sobre o mundo e que, portanto, permeia tudo o que eu faço. Entrei na faculdade de Ciências Sociais sem nem saber do que se tratava, meu negócio na época era a Sociologia – ou pelo menos era o que eu achava. Foi apenas no quinto período que eu me apaixonei completamente pela disciplina. A Antropologia me ensinou que não existe o melhor ou o pior, o certo ou o errado, existe apenas o diferente. E o diferente é algo incrível e de uma beleza intrínseca. Ele sempre vai te ensinar alguma coisa e você nunca vai poder passar alheio a ele. Ao voltar para Belo Horizonte eu, menina criada na zona sul, acabei vindo morar no bairro Floresta e descobrindo uma nova cidade, tendo como quintal o Centro. As ruas que hoje passo com tanta naturalidade eram, para a Laetitia de antes, lugares a serem evitados a todo custo. E essa nova cidade acabou se tornando minha musa. O foco saiu de mim e foi para tudo aquilo que eu estava descobrindo. Mas a Antropologia também ensina que olhar para o outro é também olhar para si mesma.

Outra questão que rondou minha escrita foi a insegurança do lugar de onde eu falo. E mais uma vez acho que o fato de ter a formação em Ciências Sociais ajudou. O texto O Relato, por exemplo, foi um grande desafio. Eu tinha decidido que queria escrever sobre o tema do abuso sexual, mas as tentativas eram todas frustradas. O tema é muito delicado e eu não sabia como abordá-lo. Em uma pesquisa na internet encontrei uma notícia da Super Interessante que publicou centenas de relatos de abusos enviados por leitoras. Comecei a ler durante horas aquelas histórias tão tristes, tão violentas e percebi que realmente eu nunca iria me sentir à vontade para criar uma narrativa sobre o tema. E foi então que resolvi fazer uma composição de frases retiradas desses relatos. Percebi ali que eu não consigo escrever sobre qualquer assunto. Eu sou uma mulher branca, classe média, que cresceu na zona sul e estudou em escolas particulares. Me vejo como uma grande privilegiada por ter tido uma vida muito boa, apesar de certas dificuldades. Minha escrita é fruto disso também. Então, meu olhar – e minha escuta – sobre o outro e sobre o mundo, sempre vão ser marcados por esse percurso. E está tudo bem. Não é melhor, nem pior, é apenas um olhar e, por mais que eu tente ampliá-lo, vou ter sempre minhas limitações. Perceber isso me ajudou a ter coragem para seguir com o projeto do Fissuras.

Laura: A vida, as vivências, o cotidiano e acontecimentos políticos: como isso entrou no conteúdo do livro?

Tenho dificuldade de responder essa pergunta, porque para mim essas questões são o próprio livro. Grande parte dos textos foram escritos em 2016, ano extremamente tenso no contexto político, com o impeachement da Dilma e todo um golpe que, para mim, parecia inimaginável um ano antes, quando eu resolvi voltar para o Brasil. Um dos textos, inclusive, fala de uma agressão a manifestantes, em que eu estava presente, mas a narradora é uma laranja. Assim, Fissuras traz alguns temas incômodos, como o suicídio e o aborto, mas não necessariamente de forma pesada. Um dos textos é dedicado a Bento Rodrigues e foi escrito algum tempo depois do rompimento da barragem de Mariana, quando eu fiz uma consultoria para ações na região. Acho que o último texto do livro, Manual de Instruções, representa bem a forma como o contexto me inspira. Ele também foi o último texto a ser escrito, em 2018, já no contexto de campanhas eleitorais. Inicialmente era para ser apenas um exercício – escrever um dicionário de fissuras – mas ao longo do processo ele se tornou uma representação de tudo o que eu estava sentindo na época. Estávamos em um jogo guiado por um sádico onde as regras já não eram aquelas que eu conhecia e acreditava. Então, acho que o livro é uma representação da minha vivência e do meu cotidiano que, infelizmente, durante esses últimos anos, foi marcado por um contexto político desolador. Acho que isso fica claro com o desconforto que os textos trazem. Fissuras não é um livro fácil, gostoso de se ler. Ele é incômodo, como a realidade em que eu estou inserida.

Laura:  Fissuras é um livro materialmente lindo. Você pode nos explicar um pouco da concepção do projeto gráfico?

Laetitia: Esse processo foi muito incrível para mim. No final de 2017 eu e Luciana Abdo decidimos fazer a à revista literária. Era um projeto ousado, já que ela vinha do Direito e eu das Ciências Sociais, mas estávamos muito decididas. Coincidência ou não, meses antes do processo de edição se iniciar, abriu um curso no Senai para aprender softwares gráficos (Photoshop, Illustrator e InDesign). Eu nunca tinha conseguido usar nem o Paint Brush. Me inscrevi. Em três semanas terminei o curso e instalei os programas no meu computador. Penei um pouco, mas em abril de 2018 nasceu a primeira Ã. Eu peguei gosto pela imagem. A escrita e o livro ganharam uma nova dimensão para mim. O texto começou a ganhar forma, cor. Na oficina com o Marcelino Freire ele reforçou a importância de não apenas jogar palavras em uma página em branco, mas dispô-las, com cuidado e usar e abusar de recursos visuais para dar vida à narrativa. Comecei a pesquisar sobre livro objeto e foi um universo maravilhoso que se abriu. Decidi que o projeto gráfico do Fissuras seria meu, o que não foi nada fácil. Uma coisa é fazer para o texto alheio, outra coisa é quando é seu filho. Tive que desapegar e, em algum momento, parar de mexer. Foi muito importante o carinho e a parceria do Wallison e da Elza, da Impressões de Minas. Assim como na Ã, eles acreditaram no meu projeto e me apoiaram incondicionamente. Quando eu decidi que queria a capa toda branca, sem impressão, apenas com relevo e uma faca que fizesse a forma da rachadura que tem no teto da cozinha lá de casa, eles falaram: ‘beleza, bora caçar o papel e ver com o cara da faca se dá pra fazer’. E deu. Quando eu disse que queria apenas uma orelha e que ia tirar fotos de última hora para colocar em páginas em papel vegetal, eles não esquentaram a cabeça. Tudo era possível. E eu fiz o livro do jeito exato que eu queria fazer – que, diga-se de passagem, não tem absolutamente nada a ver com a ideia original, que era em papel kraft com uma folha neon por baixo. Então, assim como com os textos, a parte gráfica foi um processo que ficou amadurecendo na minha cabeça ao longo de muito tempo.

Laura: Seus textos publicados aqui são relativamente curtos. Como é a concisão para você? Ela é encarada como uma solução, um problema, ou ambos?

Laetitia: A concisão não é uma escolha para mim, ela é algo que eu não controlo. Já tentei escrever coisas um pouco mais longas, mas sempre acho que estou rodeando o ponto, sem ir ao que realmente interessa. Fiz muitos anos de análise lacaniana e me pergunto se isso me influenciou. Às vezes estou escrevendo e tenho que parar por algum compromisso. Olho para o relógio, fico ansiosa pensando que eu queria vislumbrar o fim daquele texto e eis que o fim vem. Às vezes aparece assim, de uma linha para a outra. Eu achava que eu terminava os textos por falta de paciência ou por ansiedade, mas não. Entre a escrita e a publicação dos contos do Fissuras houve muito tempo e eu nunca mudei um final. Durante um período vi isso como um problema, hoje vejo apenas como uma característica. Talvez um dia eu escreva algo maior, mas não é algo que me cobro.

Laura: O primeiro texto do livro é um poema, mas todos os outros textos são escritos em prosa. O poema, no entanto, conta uma história, enquanto alguns contos têm algo de lirismo. Como você enxerga o gênero literário na composição de Fissuras?

Laetitia: Eu sempre me considerei uma pessoa que escreve prosa, até que vi que talvez isso não fosse tão exato assim. Algumas pessoas – inclusive o Marcelino Freire – me disseram, ao ler meus contos, que eles tinham um toque poético. Marcelino inclusive me indicou alguns livros de poesia para ler. Foi na poesia que eu achei a solução para o primeiro texto do Fissuras, que nasceu como um conto de 3 páginas. Apesar de ter virado poesia, ele tem uma narrativa clara. No Estratégias Narrativas descobri autores que misturam todos os gêneros e foi muito libertador. Acabei usando em algumas prosas recursos gráficos que são caros à poesia, como a utilização da disposição de palavras como recurso textual. Acho que a separação em gêneros é muito útil para a teoria literária, mas que não acrescenta muito para quem escreve. Temos apenas 26 letras no nosso alfabeto, o melhor a fazer é misturá-las de todas as formas possíveis e encontrar, cada um, sua forma de se escrever no mundo.

Laura: O que foi mais fácil em escrever Fissuras? E o mais difícil?

Laetitia: O mais fácil acho que foi escrever as primeiras versões dos textos. O mais difícil foi reescrever. Eu sempre idealizei esse processo e achava que uma vez que um texto ia para o papel, o trabalho tinha sido feito. Aos poucos fui aprendendo o que é o processo de escritor. Deixar na gaveta, retomar, guardar de novo, dar para alguém ler, retomar, guardar… Eu não imaginava que teria paciência para reler ou revisar meus textos. Achava que com o tempo, quando eu voltasse a eles, ia querer jogar tudo fora. Mas me surpreendi. Esse trabalho foi um aprendizado. Nenhum texto é por princípio bom ou ruim, ele deve ser trabalhado, repensado e reestruturado. Essa talvez seja a verdadeira arte de escrever – a reescrita.

Aguardamos vocês no lançamento! É na Feira Textura, sábado, 29/06, 11h, Agosto Butiquim, Rua Esmeralda, 298, bairro Prado, Belo Horizonte/MG.

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