Cinco perguntas: Juliana Ramos

Amanhã, 30/10, Juliana Ramos lança seu primeiro livro de poemas, No coração fosco da cidade (Impressões de Minas/Leme) na Tapera Taperá. Vai ter um bate-papo com a autora, com Flávia Péret, que lança o seu Os patos (Impressões de Minas/Leme), mediado por Paloma Vidal. Hoje ela responde as cinco perguntas sobre a escrita.

  1. Como se iniciou a sua relação com a escrita?

Acho que não exagero em dizer que a minha relação com a escrita começou quase ao mesmo tempo em que me alfabetizei, e atravessou, de modo bem desorganizado, toda a minha vida. Não sei bem de onde veio isso, mas sempre me interessei muito por livros, por revistas, pela palavra escrita. Aprendi a ler sozinha, com uns cinco anos, depois de tanto folhear os gibis que meus pais me davam. A escrita veio junto com isso, eu acho. Quando muito criança (muito mesmo, com uns 6 ou 7 anos) eu assistia desenhos na Cultura e reproduzia as historinhas por escrito. Era um trabalho quase que de transcrição, tenho a impressão de que eu não inventava muita coisa. Acho que essa foi a minha primeira experiência de escrita. Até a minha adolescência eu ainda tinha todas essas historinhas guardadas, mas num desses acessos meio bestas de negar a infância acabei jogando tudo fora. É uma pena. Mas graças à minha mãe algumas coisas bonitas se preservaram. Há uns dois anos ela me deu uma cartinha que eu nem suspeitava que existia, feita em 11 de junho de 1996, em que eu escrevia pra uma editora perguntando se podia visitá-los e se eles queriam publicar minhas histórias. E eu não queria esperar, falava: “mas bem agorinha, com os meus próprios 8 anos”.

 

  1. Como, no momento, funciona o ofício da escrita para você?

Sou uma pessoa que escreve pouco, mas com uma certa regularidade. Tenho uma espécie de diário em que formulo pensamentos, copio trechos de coisas que estou lendo, esboço linhas que depois se transformam (ou não) em poemas. Costumo preencher uns dois cadernos desses por ano. Só que ultimamente, pra falar a verdade, tenho escrito ainda menos. Trabalho sobretudo com texto não literário – reviso, corrijo redações, traduzo livros e artigos acadêmicos. No final do dia estou sempre meio cansada das palavras. Embora muitas vezes tenha vontade de escrever, fisicamente e mesmo psicologicamente nem sempre consigo, porque a escrita, inclusive a do diário, demanda muito de mim. Então prefiro fazer outra coisa, como cozinhar.

Estou falando muito de diário aqui, e sei que diário não é necessariamente literatura. Mas no meu processo de escrita essas coisas estão intrincadas. Não sou uma pessoa muito inventiva, sou do tipo observadora. Os meus poemas, os textos que considero passíveis de publicação são dessa ordem, geralmente nascem de coisas que me atravessam no cotidiano e que irrompem primeiro nos diários. No meio disso tudo, os meus esboços de projetos literários propriamente ditos têm caminhado meio devagar. Tenho duas coisas diferentes em mente, nenhuma delas muito avançadas – uma está vinculada à paisagem do interior de São Paulo, ao rio Paraná, às transformações desenvolvimentistas sofridas por essa região nas últimas décadas; a outra, à minha experiência recente no pé da Serra da Mantiqueira, onde morei por quase dois anos.

Tenho trabalhado, de modo intermitente, sobretudo no segundo projeto. Mas pra mim a lentidão faz parte do processo criativo. Carrego comigo estes versos do Caeiro, dos Poemas Inconjuntos (que inclusive são a epígrafe do meu livro): “Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas / Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra”.

 

  1. Como as suas leituras se concatenam com a sua escrita?

É um pouco difícil pra mim pensar sobre esse ponto. Como falei um pouco acima, aprendi a escrever copiando (naquele caso, os desenhos da tevê). Essa aprendizagem pela cópia durou muito tempo. Até uns 18, 20 anos acho que eu não fazia nada muito autoral. Naquela idade queria escrever como a Clarice Lispector, talvez como muitos outros jovens tímidos que se defrontam, ainda na adolescência, com um universo enorme e até então invisível, com uma possibilidade imensa para além do mundo dos extrovertidos.

Hoje em dia não consigo enxergar muito bem como as minhas leituras atuais se vinculam à minha escrita. Talvez isso só seja mais fácil com um distanciamento temporal, não sei. Mas consigo identificar o que gosto em outros autores e queria alcançar no meu próprio trabalho. Admiro muito a autoironia e o humor de poetas como a Adília Lopes, a Wislawa Szymborska, a Ana Cristina César, ou de um escritor como Cortázar.

  1. O que é difícil na escrita? E o que é fácil?

O que respondi na pergunta anterior tem muito a ver com esta aqui. Na minha vida cotidiana, nas minhas relações pessoais prezo muito a autoironia, o humor, o riso, mas nunca consegui passar isso pro meu texto. Acho que ainda escrevo de um modo muito sério. Agora, por exemplo, estou sendo séria. Pensando no que ainda gostaria de alcançar, acho que essa, hoje, é a minha maior dificuldade.

Na verdade, tudo pra mim é difícil na escrita, o que não quer dizer que seja penoso. A única coisa mais fácil é o desejo, o ímpeto de falar sobre alguma coisa, criar uma imagem, fixar e reinventar um instante. A elaboração, o trabalho em si não acho muito fácil, mas mesmo assim ele contém algum tipo de prazer.

  1. Escrever é, para você, uma necessidade?

Nunca fui uma pessoa da oralidade. Não falo muito bem, tenho o pensamento lento e muito confuso. Então a escrita é a forma que tenho de organizar minha cabeça. Pra falar a verdade, acho que a escrita é o meu pensamento, é a situação em que consigo elaborar coisas que não me saem pela fala, ou que me saem de um jeito meio disparatado.

Porém, como comentei, às vezes acabo passando vários dias seguidos sem escrever (dez, quinze…). Isso não me incomoda, pois sei que meus cadernos estão ali do lado, que posso pegá-los quando sentir vontade e disposição. Não exijo que isso seja um compromisso. Então acho que essa possibilidade da escrita é que é essencial, e não qualquer tipo de obrigação rígida.

 

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