Atelier aberto – o palácio às 4h da manhã com Eduardo Jorge

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Na quinta-feira Eduardo Jorge nos escreveu:

“Assustado, vi aos pés da minha cama uma enorme aranha marrom e peluda. O fio ao qual ela estava pendurada terminava na teia esticada logo acima do travesseiro. “Não, não!”, exclamei, “não poderei suportar a noite toda uma ameaça como esta em cima da minha cabeça, mate-a, mate-a”, e disse isso com toda a repugnância que eu sentia diante da ideia de eu mesmo mata-la, tanto no sonho quanto desperto”.
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Bem, esse foi um sonho escrito por Giacometti. No entanto, ele acorda e está em um outro sonho. A aranha continua, persiste, mas com uma cor diferente, agora ela é amarela.
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Esse vai ser o texto de Giacometti, “O sonho, o sphinx e a morte de T.”, publicado na revista Labyrinte, em dezembro de 1946, que vai ser ponto de partida para uma conversa no Atelier de estratégias narrativas, organizado pela Laura Cohen, no Ateliê Arte Nova, em Belo Horizonte.
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Fico feliz com o convite, sobretudo, tratando-se de Giacometti (1901-1966), que sempre que pode atrapalha minha pesquisa de uma forma encantadora pela força, pela delicadeza, pela crueza de seu trabalho-vida. Sim, Alberto entrou sem pedir licença. Creio que isso vai render depois da conversa, claro, quando estivermos tomando um “verre” no próprio Atelier. Merci, Laura.

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E foi bem assim:

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Colorido degradê de café e chás

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O caderno da Júlia Panadés

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O caderno do Guilherme Hargreaves

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Mesa de atelier

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Mesa de atelier

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Capa do caderno do Gui: NADA TERMINA

caldo

E um caldo de ervilhas do Fabrício Augusto com o “verre” no fim. Até o próximo encontro!

Lemos:

O Sonho, o sphinx, e a morte de T. – Alberto Giacometti.

Poeira – Georges Bataille

Lição de Geologia – Nuno Ramos.

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Eduardo também me mandou essa resenha que ele escreveu para o Estado de Minas:

A realeza secreta de Giacometti.


Alberto Giacometti (1901-1966) é um artista que nasceu na Suíça italiana, cuja produção ainda ressoa como um enigma, embora ele tenha um espaço indiscutível na história da arte do século XX. O enigma em torno de sua obra não se sustenta apenas pelas fases ou pelo estilo que garante a assinatura do artista. Na sua obra existe um compromisso, uma espécie de ética na solidão, que conjuga sonambulismo, mecanismos psíquicos, bem como uma fisiologia que desloca a concepção de figura humana, cara a uma determinada tradição das Belas Artes. Frente a esta última questão, é indiscutível que a presença de outras formas de representação deslocadas da produção europeia, como o estatuário  etrusco, a arte egípcia e a proliferação de máscaras asiáticas e africanas tenham afetado Giacometti. No entanto, a fonte não deve ser apenas uma sombra na obra do artista.

As fontes muitas vezes se armam como uma rede ramificada, perdendo, inclusive, a característica de um papel central. Um exemplo bem próximo a esta questão é algo inerente ao cotidiano de Giacometti: a obra também é uma tentativa frustrada enquanto realização, como se houvesse um lapso, um intervalo entre a escultura e a escultura. É com atrito e tensão que Giacometti ensaia uma aproximação dos objetos. Tensão esta que se encontra em esculturas como Ponte à l’œil (Ponta ao olho), de 1932, ou ainda Le nez (O nariz), de 1947. Ambas estão presentes na coleção do Centro Georges Pompidou.

Em 1963, poucos anos antes de sua morte, ao responder a uma questão sobre a impossibilidade de dominar a escultura, o artista disse que a cada noite ficava diante do modelo, tentando refazê-lo aproximadamente como o via. “Mas, meu Deus, como é difícil”, completa Giacometti, “houve um tempo em que eu tinha a impressão que as coisas eram mais estáveis. Hoje, pelo contrário, elas me parecem mais maravilhosas e imperceptíveis.” Após essa descoberta assustadora, Giacometti percebe os objetos separados por grandes espaços vazios. Isso acontece de tal modo que, se o artista visse um guardanapo sobre uma cadeira, ele tinha a sensação de que, se ele tirasse a cadeira, o guardanapo continuaria suspenso no ar, como escreve Yves Bonnefoy, em uma monografia de referência dedicada ao artista, Alberto Giacometti – Biographie d’une œuvre.

Ao lado do livro de Bonnefoy, os “escritos” (Écrits) de Giacometti reúnem seus artigos, notas e entrevistas. Além do mérito de reunir de modo diacrônico todo o material do artista, esta obra apresenta seus projetos, poemas e escritos ficcionais como o célebre “O sonho, o Sphinx e a morte de T”, de 1946. Uma parte importante desse material está compilada em Giacometti (Cosac Naify, 2012), organizado por Véronique Wiesinger, diretora da Fundação Alberto e Annette Giacometti. A tradução dos textos de Alberto Giacometti, Véronique Wiesinger, Damien Bril e Cecilia Braschi ficaram a cargo de Célia Euvaldo, Eloisa Araújo e Maurício Santana Dias. A lógica da organização de Wiesinger apresenta a relação do artista com o pai, o pintor Giovanni Giacometti, sua chegada a Paris e as trocas e debates intensos em seu ateliê até chegar a uma percepção crítica de sua obra, seja a feita pelo próprio artista, seja a de outros pensadores, escritores e críticos.

Se caberia acrescentar um “documento” a esse importante volume recém-editado no Brasil, ele seria a carta de Giacometti a Pierre Matisse, de 1947. Na carta, o artista faz uma espécie de currículo, enumera suas esculturas, expõe suas referências (Tintoreto, Giotto e Cimabue), sobretudo no que diz respeito ao período em que ele viveu na Itália. Também é enviada a Matisse uma série de desenhos, projetos de “objetos sem base e sem valor, a serem jogados fora”. Mesmo diante da ausência da carta, o trabalho de Wiesinger tem o mérito de fornecer novas fontes às leituras a serem feitas de Giacometti.

Nesse sentido, se é que podemos falar de uma lição de Giacometti, cabe ao artista reinscrever suas fontes, reelaborar seus mitos, quase no limite de fornecer falsas pistas e, enfim, reinventar sua vida, sem o medo de inconstâncias e de incertezas. Assim, seja diante de sua relação com o objeto, com sua família ou com procedimentos figurativos de culturas deslocadas do olhar europeu, Giacometti foi um dos artistas que, mesmo duvidando, conseguiu articular esses elementos em uma vida simples, ordinária e solitária, praticamente ascética. “É talvez Giacometti, esse suíço-italiano, que é o mais indiferente a todas as inibições causadas pela massa de representações recebidas por herança”, escreveu o crítico alemão Carl Einstein de modo muito preciso em A arte do século XX.

Por fim, voltamos ao atelier que para Giacometti era também considerado como um lugar de produção de pensamento. O escritor Jean Genet, em O atelier de Giacometti (também editado pela Cosac Naify), desloca o artista de um fundo surrealista dizendo que ele não sonha suas figuras, ela as comprova. Mais que solidão, a solitude do artista, como também escreve Genet, era uma espécie de “realeza secreta”, uma incomunicabilidade profunda que dá a cada coisa uma inalterável singularidade. Enfim, um caso de duas solidões que se reconhecem, a do artista e a do objeto e que acabam expondo um “eros mecânico”, termo de Bonnefoy para definir essa condição “celibatária” que toca diversas obras do artista, como Caresse (Carinho), de 1932, e Palais à quatre heures du matin (Palácio às quatro horas da manhã), do mesmo ano. O contraste de ambas as esculturas mais expõe a diversidade desse eros do que o contradiz. Nesse sentido, talvez o desafio perante suas obras seja o de se preocupar menos com as fases do artista do que afrontar cada escultura, cada desenho, cada pintura com um ato inacabado, que mantém a dúvida e as falhas como se Giacometti ainda refletisse sobre sua tarefa frente as coisas mais maravilhosas e imperceptíveis.

Eduardo Jorge, mestre em Teoria da Literatura, pela Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG. Desenvolve pesquisa de Doutorado (UFMG/École Normale Supérieure, ENS – Paris) sobre literatura e artes visuais.

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Participaram

Eduardo Jorge

Davi Lanna Neves

Fabrício Augusto

Guilherme Hargreaves

Júlia Panadés

Laura Berbert

Letícia Grandinetti

Renato Mendes

Laura Cohen

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