Tolerar o caos

[Laura Cohen]

Gosto muito dos artistas e escritores que formulam um conjunto de regras pessoais para trabalhar. As regras nos salvam do caos da criação, o lugar tão repleto de possibilidades que nós nem sabemos por onde começar. Frequentemente digito o termo “rules” no Brain Pickings e fico me confortando com as regras que os autores escreveram para si mesmos. Achei hoje as regras de um artista plástico estadunidense chamado Richard Diebenkorn  – e depois dei uma boa olhada no lindo trabalho dele no google imagens. A regra que mais me chamou a atenção foi a de número nove: tolere o caos. Exatamente um assunto que eu queria tratar aqui.

Criar é uma coisa desorganizada por excelência. As ideias não surgem nem da forma que a gente quer, nem quando a gente quer – você arrumou seu escritório para escrever, se sentou na frente do computador ou do caderno e as palavras simplesmente não chegaram… O branco chega a doer. Pouca gente tem essa dádiva maravilhosa de simplesmente conseguir sentar e escrever o capítulo um, o dois, o três até o fim, em linha reta, quase como se soubesse a história de cor. Mas isso não é para todos nós.

Acho que a criação se dá nessa difícil arte de escrever nos intervalos, bem quando a ideia vem, e tolerar o caos das ideias anotadas – muitas vezes a pilha de notas não faz sentido. Cada escritor tem um jeito de fazer isso. Minha escrita, no caso, tem vários momentos. Eu primeiramente anoto tudo quanto é cena que vem na cabeça, simplesmente aceitando o fato de que eu não sei que história é essa que eu estou contando, tentando não ter um ataque de ansiedade e sentir algum prazer no momento da escrita. É bom trabalhar com alegria, quando dá. Em seguida, eu vou tentando organizar o que eu fiz. Boa parte do que eu faço é juntar duas ideias que antes não pareciam ter nada a ver, mas que com algumas alterações podem compor, juntas, um romance. Dou nome para os capítulos, divido em partes, separo nas minhas notas com folhinhas coloridas cada um dos capítulos escritos, escolho os narradores. Posso dar alguns exemplos dessa tentativa de organização.

Quando fiz o História da água, meu primeiro livro, percebi que ele tinha quatro narradores: um em terceira pessoa, três em primeira pessoa: cada um dos três irmãos de uma família, do mais velho para o mais novo, Lucian, Eira e Anya. Cada um desses irmãos teria sete capítulos alternados, e o primeiro e o último capítulos do livro são narrados em terceira pessoa, ou seja: cap. 1 narrativa em terceira pessoa, 2. Lucian, 3. Eira, 4. Anya, 5. Lucian, 6. Eira… Até que o capítulo 23 era de novo a narrativa em terceira pessoa. Eliminei os números e dei quatro nomes aos capítulos, um nome de capítulo para cada narrador – acho que para ficar um pouco menos difícil para o meu leitor. Complicado, né? Pois é, eu tinha todo um esquema matemático para explicar isso, mas não sei se eu sou capaz de explicar para vocês o que eu fazia. O negócio é que funcionou.

O Ainda por sua vez é um romance pequeno, que consiste em um monte de contos que resolvi transformar em uma história só. A primeira coisa que eu pensei foi na cena final do livro, uma cena chocante e fantástica (não vou dar spoiler). Daí fui construindo tudo até que percebi que um conto em forma de carta sobre uma mulher que havia visto o infinito e a loucura dentro de um homem insano cabia perfeitamente nesse contexto. Solução? Tornei a mulher a irmã da personagem principal, e a carta que ela escrevia era voltada para a personagem principal.

O livro que escrevi em Israel (que ainda não saiu e sobre o qual não posso falar muito) escrevi praticamente dentro de um ônibus ou em intervalos da viagem. Tudo de intenso que me acontecia, ia para o livro: histórias ouvidas, pessoas, paisagens, acontecimentos, sonhos. Dividi o livro em quatro capítulos, cada capítulo tinha uma cor de tira colorida e para digitar, foi só seguir a ordem da cor nos capítulos. Os cadernos ficaram todos coloridos. Eu escrevia a nota marcada, tirava a tira adesiva, mas os cadernos acabaram assim:

1

E agora, como estou escrevendo um livro enorme sobre uma família grande, tive que fazer árvore genealógica e a lista das idades dos personagens ao longo dos doze anos em que acontece a narrativa:

arvore

Meus cadernos têm páginas assim:

2

E assim:

3

E assim também:

4

[que diabos é “o medo vem dos olhos”?]

E que se alguma coisa veio no meio de um caderno todo escrito e rabiscado, com coisas cortadas, sem espaço pra escrever, a coisa é encher de post-it:

post it

O que eu queria dizer com esse post é que, como as ideias vêm e a gente precisa aprender a ir lidando com a selvageria da escrita – a musa é um discurso que ainda não foi domado. O nosso primeiro trabalho é tolerar a maneira caótica como vem. Lapidar fica por último.

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