Você não precisa escrever um romance

[Laura Cohen]

Para Taís Bravo (texto filho de uma ótima conversa que tivemos)

 

1. Um amigo poeta conta uma história engraçada: certa vez, ele e outro amigo que também é poeta, foram parados por um jornalista sondando pessoas na rua. Terminada a conversa, o jornalista perguntou a eles as profissões de cada um. O meu amigo respondeu “psicólogo” (que era, na verdade, a sua formação, mas ele nunca chegou a exercer o ofício), e o outro respondeu: “escritor”. Imagino que, com a partida do jornalista, os dois se viram confrontados com aquelas declarações a respeito dos próprios ofícios. Então o amigo do meu amigo disse: “eu só consegui me autodenominar escritor depois que eu publiquei o meu primeiro romance”.

2. Não sei se isso é verdade, mas ouvi falar que, certa vez, Jorge Luis Borges sentia-se profundamente frustrado por jamais ter escrito um romance, apenas contos. A capacidade de síntese de Borges é assustadora e exemplar: ele consegue enfiar o infinito em uma frase, e criar listas de infinitos no espaço de um conto. Se você quer ler um conto e ter a sensação, ao final, que acabou de ler um romance devastador, leia o conto A biblioteca de Babel, que é talvez o meu conto preferido da vida. E se quiser um excelente texto teórico de apenas duas páginas, leia do mesmo autor Kafka e seus precursores.

3. Se não estou gostando de um livro – principalmente romances – abandono. Mas há alguns livros dos quais não gosto e acabo lendo por teimosia. Foi o meu caso com O irmão alemão do Chico Buarque. É um livro que começa bem, depois se perde, se enrola, passa do ponto (na minha opinião). Tem quem goste, mas fiquei me perguntando: será que isso era para ser um conto que não sofreu cortes e foi publicado como romance? Será que alguém edita o Chico Buarque? Na edição da companhia das letras, a margem d’O irmão alemão é exageradamente larga, não sei se isso é bem para o conforto do leitor, ou se é para o livro parecer mais grosso… Amantes do Chico autor: perdoem-me a sinceridade, mas são questões sinceras que se passam pela minha cabeça e que quero compartilhar com vocês. Achei um livro forçado, sem muito propósito depois das 30 ou 50 primeiras páginas, mas excelente nessas primeiras páginas. Então, qual o sentido das páginas seguintes?

4. Essa semana, acabei abandonando a leitura de um livro que tinha sérios problemas de enredo: tinha uma parte interessante e uma parte desinteressante. O problema é que o livro gasta páginas e páginas super repetitivas nessa parte desinteressante e esquece da parte interessante, que fica em segundo plano. Claro que as personagens podem e devem sofrer de dor de cotovelo, mas há de ser uma dor de cotovelo verossímil, e como na vida, mesmo que dure demais, algo tem que brotar dali… (Vide o excelente Dias de abandono da Elena Ferrante). Penso que o romance poderia ser um conto, uma novelinha, algo com setenta páginas menos, focando menos no término, que me pareceu inverossímil. Aí sim seria perfeito.

5.Em mais de uma entrevista, Beatriz Bracher afirma que considera o conto uma arte mais complicada do que o romance e eu concordo plenamente com ela. No romance cabe o excesso, o erro, o palavratório inútil, enquanto o conto precisa conter-se apenas à parte que lhe é cabida, a palavra no lugar errado é facilmente percebida. É como a poesia funciona: conto tem que ter palavras certas no lugar certo. O romance não tem essa obrigação. Romance é pura sedução da linguagem.

6.Adolescente, escrevi alguns contos, um inclusive foi premiado. Depois, comecei a escrever romances e fiquei nove anos sem escrever contos. Não era porque eu não queria, eu só não me sentia mais capaz. Entrei em um embate com o gênero conto a ponto de não conseguir sequer ler livros de contos e perdi muito com isso, mas acho que enquanto eu passava por esse hiato, eu estava aprendendo alguma coisa com dureza. Escrevi sobre meu problema com o conto aqui, e tive o azar de ler livros de contos que eram simplesmente compilações, ou que eram muito mal organizados. Mas foi numa aula da Angélica Freitas que recebi o Grande Clique, enquanto ela cortava os poemas feitos pelos alunos, diminuindo-os ao essencial e apenas isso, aumentando força e impacto da produção de cada um. O conto está, tantas vezes, mais próximo do poema do que do romance porque o conto, assim como o poema, é mais feliz quando é resumido apenas ao essencial (atenção: às vezes algo pode parecer não-essencial, mas é!). A partir dessa aula da Angélica, comecei alguns contos, e ontem cheguei a escrever um que tem a sintética marca milagrosa de apenas 4 páginas. Para mim, a concisão é uma vitória adquirida com muito esforço.

7. Mas o bom da arte é que ela quebra regras. Por exemplo, os poemas da Danielle Magalhães, que comentei aqui semana passada, têm língua solta e peso de romance. E por mais que eles funcionem contra a concisão, a própria falta de concisão dos poemas dela é ainda concisa. Ainda sobrando, nada sobra, nada está fora do lugar e o excesso tem seu efeito estético.

8. Escrevo isso tudo para insistir que ser profundamente sintético pode ser uma grande qualidade e não um defeito. Muitos escritores acham que só serão escritores de verdade quando escreverem um romance, quando conseguirem vencer esse grande-desafio para eles, que para mim é mais fácil do que um conto. Demoro para fazer o conto, para entender que a minha imaginação não pode ir tão longe, envolvendo personagens, criando biografias completas, caindo na tentação do infinito de todas as palavras do mundo. Não: o conto é aquele universo perfeito, simples, completo, em poucas páginas, pouco tempo. Ao mesmo tempo, acho que todos, até mesmo os mais sintéticos, são plenamente capazes de fazer um romance, e escrever um romance é uma experiência deliciosa. Por exemplo, há duas semanas escrevi sobre o romance do Tiago Ferro, que acredito ser um romance de síntese.

9. Para dar uma conclusão aqui, nessa experiência de professora-editora, acho que o que a gente precisa fazer é ouvir o que a história tem de interessante e entender qual é a verdadeira extensão de uma narrativa, em quantas palavras ela existe melhor. Às vezes é melhor deixar o texto decidir, e não nós, com nossa vaidade de escritores. É preciso entender que não existe uma hierarquia entre o melhor gênero e o pior gênero, como se isso fizesse alguma diferença para quem escreve. Achando que a gente tem-que fazer alguma coisa por questões que estão além da experiência de escrita em si, podemos matar um excelente conto e fazer nascer um romance medíocre.

Laura Cohen Rabelo publicou os romances História da Água (Impressões de Minas, 2012) e Ainda (Leme, 2014), o livreto de poemas Ferro (Leme, 2016) e o romance Canção sem palavras (Scriptum, 2017). Mestre em estudos literários pela Faculdade de Letras da UFMG, é idealizadora e coordenadora do projeto Estratégias Narrativas, onde ministra cursos e ateliês de produção literária. Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas.

2 Comments on “Você não precisa escrever um romance”

  1. é um exercício bonito, esse… delicado (e não menos incisivo por isso). sopesar a quantidade de palavras. aprender a ouvir o texto, com quanto ele se conta (ou romantiza).
    é muito bom e importante ter a clareza de que as coisas podem ser outras, ter outras formas, e não ser menos ou mais por isso, apenas outras, possivelmente mais justas (qual a melhor fôrma para isso que quero assar?).
    eu mesma não sei bem dar nome e dizer o que é isso que escrevo, mas escrevo, vou vendo. a falta da fôrma pode ser boa também, enquanto ainda não preciso levar nada ao forno.

  2. Pensei na Clarice Lispector: por que gostei tão mais de “Laços de família”, o livro de contos, e nem tanto de “A Hora da Estrela”? Talvez porque o melhor da escrita dela, na MINHA opinião, é o que fica subentendido.

    Esse texto é um abraço para pessoas como eu que têm várias ideias e se bloqueiam por não vê-las tão complexas para um romance. Talvez elas rendam bons contos.

    Obrigada!

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