Uma tentativa

[Olivia Gutierrez]

Laura,

Me vi tendo que voltar ao meu diário para lembrar o que mais eu estava pensando no período em que fiz os textos. De repente nem me sinto autorizada mais a falar disso que virou o livro. Que loucura.

 

30.12.2017

O mundo. Como tomar posse do mundo? Como estar no mundo a não ser falando nele, agindo nele?

29.11.2018

Eu não escrevia                      quero dizer

eu não escrevia por escrever.

[Todo mundo alfabetizado escreve dentro de certos frames

dentro daquilo que é preciso fazer.]

Mas isso de repente passou a ser pouco             ou insuficiente           para viver

ou talvez         só         o suficiente

para viver.

 

Na verdade tudo o que já era se tornou parco –

apenas satisfatório

e eu pensei que estava longe de tudo              do mundo

e que era preciso

entrar no mundo.

 

Então um dia eu resolvi que escrever poderia ser uma maneira de

entrar no mundo.

 

Se eu não precisasse escrever, se eu não escrevesse

dentro dos frames da necessidade,

o que eu escreveria?

 

2.2.2018

Como falar de mim (a única coisa que sei) sem falar de mim? Sophie Calle disse: “It’s intimate, but… not.”

29.11.2018

Eu queria falar do livro sem falar nada de mim, mas algo será necessário.

O primeiro poema diz que “agora é janeiro de 2018” e o último anuncia “20 de abril”, e foi neste recorte de vida que o livro foi escrito. Participei de umas oficinas no Estratégias Narrativas, entrei em contato com muita poesia (eu quase não lia poesia), mudei de casa e de lugar na cidade. Conheci muitas pessoas também, ou talvez outras pessoas. Caminhei muito.

Este movimento oscilando entre dentro e fora, do íntimo para o geral, da casa para a rua movimentada nas andanças pela cidade cheia de gente – todo esse movimento faz parte das questões que põem em marcha este livro. A marcha, isto é, o percorrido a pé, é central, porque vejo muita relação da caminhada com a escrita. Na caminhada pela cidade estou no mundo de alguma forma, e o ritmo da caminhada se aproxima mais de como eu penso: é algo mais lento do que com qualquer outro aparato tecnológico, mas o movimento existe sempre. E eu posso me deter, se quiser.

 

2.2.2018

Eu escrevo para [me] entender. Os escritos são para o mundo ou só para mim?

29.11.2018

O poema que abre o livro tinha um verso que foi cortado, e este verso era

(outro lugar para começar este poema)

Ando pensando no recorte para contar a história

deste livro       pensando

a história tem que se sustentar

não tem mais nada a ver comigo

 

O livro é um objeto cuja existência material

no mundo       independe de mim

(e deve, por outro lado, a várias outras pessoas)

Peguei meu diário para lembrar

o que eu estava fazendo e pensando?

enquanto escrevia os textos que se tornaram

 

o livro

é uma tentativa de pensar: o que é escrever? e como escrevo?

e ainda como posso escrever?

Não sei a quem esses exercícios podem interessar.

 

Olivia Gutierrez nasceu em Belo Horizonte, em 1986. É professora, formada em História e em Biblioteconomia pela UFMG. Desde 2015 media o clube de leituras Leia Mulheres BH. Olívia lança hoje seu primeiro livro de poesias, estar onde eu não estou (Crivo Editorial), hoje, 04 de dezembro, às 18:30h na Livraria do Cine Belas Artes Rua Gonçalves Dias, 1581.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *