Uma mulher, uma rosa

[Por L. Jourdan*]

Para Andréia e Venuse

Quando minha amiga de infância montou casa, em minha primeira visita levei uma roseira, dessas pequenas, de vaso. Isso tem uns 7 anos. Semana passada ela me escreve falando que uma nova flor estava nascendo. Quando os pais dela vieram me visitar no meu novo apartamento, o acaso fez com que eles também me trouxessem a mesma flor. Senti que aquilo não era coincidência e que, apensar do meu dedo meio podre pra jardinagem, aquela rosa tinha o dever cívico de sobreviver.

Não passou muito tempo e as plantas de casa foram infestadas por cochonilhas, incluindo a roseira. Durante mais de dois meses limpei semanalmente folha por folha, tomando cuidado com os espinhos, e depois borrifava a mistura de água com fumo. A cada semana parecia que a praga sumia, mas era só eu bobear para os primeiros pontinhos brancos aparecerem. Um galho inteiro secou. Achei que estava prestes a perder minha roseira. Mas uma semana depois da morte do galho, uma folhagem nova começou a nascer e um botão apareceu na ponta. Há meses não havia nem sinal de uma nova flor. Me emocionei. Aos poucos o botão foi abrindo, embelezando toda casa.

Quando achei que a guerra havia acabado, eis que surgem mosquitinhos microscópicos que ficam na terra do vaso da roseira. Uma nova batalha está prestes a ser iniciada. A beleza da rosa me dá forças para começar tudo de novo. Replantar, adubar, limpar as folhas, espetar os dedos, borrifar produtos naturais… Eu sei que a roseira é forte, que suas raízes são profundas e que no final, todas essas pragas só vão servir para fortalecê-la. Ela e eu. Às vezes acho que ela ainda está se adaptando à sua nova vida na nova casa. Às vezes acho que sua aparente fragilidade faz com que esses organismos oportunistas pensem que podem se aproveitar. Aos poucos, com paciência e persistência, eles vão entender que a rosa não está sozinha, que somos muitas, e que é melhor nos deixar crescer e desabrochar, porque não vamos desistir.

Hoje, 8 de março, caminho pela cidade vendo várias mulheres com rosas nas mãos. Lixeiros e guardas de trânsito distribuem a flor no sinal. Uma senhora no ponto de ônibus me diz que ganhou o lindo botão de um coronel, chefe do Círculo Militar, onde é voluntária. No mesmo ponto uma mãe briga com o filho de 5 anos, que ao urinar na árvore espirra xixi na sua mão. Penso que esse menino será parte dos homens que acham que podem urinar em qualquer lugar, homens que eu xingo mentalmente todas as vezes que passo pelo túnel do metrô da Estação ou embaixo de um viaduto. Pego o ônibus de volta para casa com as mãos vazias e certa tristeza.

Se você, diferente de mim, ganhou uma rosa no dia das mulheres, faça dela uma roseira: http://sossolteiros.bol.uol.com.br/como-plantar-uma-muda-de-rosas-com-batatas/

p.s.: A técnica não foi testada pela autora.

* Laetitia V. Jourdan é antropóloga, bacharel em ciências sociais pela UFMG e mestre em antropologia aplicada ao desenvolvimento sustentável na Universidade de Provence. Franco-brasileira, na procura de tentar se encontrar no mundo e se conhecer melhor, descobriu seu desejo pela escrita. Hoje, faz experimentos no atelier Estratégias Narrativas em busca de um estilo, de uma história, de uma maior compreensão de si e dos outros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *