Uma crise na escrita – ou “literatura e suor têm tudo a ver”

Laura Cohen

[Escrevi este texto para sair em uma antologia de textos da Oi Kabum! que está no prelo e resolvi colocá-lo aqui por um motivo muito especial:

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Aguardo vocês! ]

 

São 7:59 da manhã de uma terça-feira e eu estou toda suada porque acabei de correr cinco quilômetros antes de me sentar para trabalhar. Devia ter enviado esse texto para a Oi Kabum! ontem, para sair em uma antologia que ajudei a preparar (ou ajudei os escritores a prepararem), então, escorrendo suor no limite do prazo e pensando em como começar a escrever, me lembro de um acontecimento do ano passado.

Eu tinha ido ao lançamento do livro de um amigo, Carlos de Brito e Mello, mas mais conhecido como Trovão. Era um sábado de manhã e eu estava toda suada porque tinha acabado de sair da academia – e quando fui cumprimentá-lo, avisei que estava inabraçável. Ele me abraçou da mesma forma e assinou o meu livro. Alguns meses depois, quem estava lançando livro era eu, num bar lotado em uma quinta-feira de noite. O Trovão chegou todo suado (acho que também tinha acabado de malhar) com o livro para ser assinado e disse: “vim retribuir o suor” e ainda completou: “acho que literatura e suor têm tudo a ver”.

Não que eu seja partidária da ideia tão gasta do “escrever é 1% inspiração e 99% transpiração”, nem naquele dito extremamente desrespeitoso: “a musa está morta”. Acho que há algo além. Acredito mais em uma relação tríplice que o professor Jacyntho Lins Brandão coloca em seu livro Antiga Musa[1]: o contexto de surgimento de um texto depende de três instâncias – a musa, o poeta e o público. Isso é uma ideia que vem da antiguidade, dos poemas gregos mais antigos que conhecemos.

Penso que hoje a musa está além de uma das nove deusas invocáveis que sussurram ao nosso ouvido – a musa pode ser composta de ideias que descem ao papel como se tivéssemos sido possuídos por algum ente externo, mas a musa também pode ser todas as influências que carregamos, uma cena vista, uma música, palavras que combinam, um acontecimento real, um caso que alguém nos contou cuja escrita é irresistível. O autor, nós já sabemos – o ser que sua para colocar no papel um discurso maluco de forma adequada. E o público? O tão esquecido público vai do invisível editor que te ajuda a preparar o texto, ao seu amigo que te sugere soluções, a sua mãe que chora ao te ver escrevendo uma coisa tão linda, o cricrítico do jornal, a uma pessoa que diz que se identificou muito com sua história e seus personagens.

É nessa relação entre o poeta, as minhas musas e aqueles que recebem o meu texto que habita a crise. A palavra crise vem do grego krísis, e pode significar de fazer uma seleção, uma escolha, encontrar uma solução, enfrentar uma luta, o poder de discernimento, até um processo jurídico. Na origem, a palavra crise não tem esse significado apocalíptico que os jornais gritam hoje – por isso gosto de voltar ao nascimento de algumas palavras, porque as palavras sempre têm alguma coisa a nos ensinar. Preparando coletivamente alguns textos dessa antologia com alguns/algumas escritores/escritoras do Rio de Janeiro, de Salvador e de Belo Horizonte tentei fazer com que eles entendessem esse aspecto da crise: essa relação tão desequilibrada que tenho com a minha musa, que fala de uma maneira aleatória, às vezes precisa ser mediada pela figura do editor.

Os textos chegaram aqui um tanto grosseiros, às vezes vindos diretamente da musa e sem uma leitura. Às vezes vinham de forma genial, mas mais comumente o núcleo genial estava carregado de lugares comuns, gralhas, rimas involuntárias, cacoetes, soluços, tropeços, correções descabidas do word, poemas lotados de letras maiúsculas desnecessárias e irrefletidas. Alguns não haviam lido o texto em voz alta – haviam escrito, postado em um blog, no máximo mostrado a um professor-editor – e à medida que iam sofrendo a crítica (lembrando que crítica é uma palavra também derivada da crise!), o escritor conseguia decidir o seu desejo na escrita.

Além de desejo, certamente existe uma necessidade tão fisiológica quanto o suor do corpo – uma das primeiras perguntas que fiz a esses escritores e escritoras, tão aptos a ouvir o cantar da musa, foi se eles sentiam necessidade de escrever. Quase todos levantaram a mão. No começo, timidamente, depois levantando a bandeira da escrita. E a edição foi acontecendo de forma coletiva – aos poucos, eu, contratada para preparar aqueles textos para publicação, fui me retirando e deixando que os escritores conversassem entre si e tomassem a autonomia da decisão da crise, cortando e colando o texto até que ele ficasse de dar frio na barriga. O que estou querendo dizer é isso: não basta o suor. A gente tem é que suar junto.

 

[1] BRANDÃO, Jacyntho Lins. Antiga Musa: arqueologia da ficção. Belo Horizonte: Relicário, 2015.

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