Três poemas de Caio Meira

[Foto: Luciana Lopes]

O estratégias narrativas vai receber no sábado, 1º de julho de 2017 o poeta Caio Meira, nosso primeiro convidado de fora de Belo Horizonte. Caio propõe uma masterclass de poesia, uma prática em que serão postos em análise e edição os poemas dos participantes, com o objetivo construir possibilidades de desenvolvimento de uma escrita poética individual. Para saber mais ou se inscrever na prática, clique aqui.

um abraço

quando nos encontramos e nos abraçamos por apenas
alguns segundos, quando coloquei minha cabeça ao lado
da sua e o seu tronco por poucos instantes se colou
ao meu tronco, com minha mão pousada nas suas
costas, sobre sua pele, sobre sua coluna
vertebral, nisso que se define normalmente como um abraço
de cumprimento, de duas pessoas que não se veem há
algum tempo e por algum tempo se abraçam
para celebrar a alegria do encontro, do reconhecimento
do rosto, do corpo, da vida mútua, esse abraço
comemora, numa pequena intimidade, um encontro, ainda que
de modo furtivo, um pequeno lapso de tempo, dois
ou três segundos, pouca coisa mais ou menos do que
isso, esse abraço que envolve meu tronco no seu tronco, de
onde brota o seu corpo, de onde nascem os seus membros
e por onde circulam fluidos e voltagens elétricas em
rajadas ínfimas regulando o tônus que dá integridade ao
seu corpo, que faz com que seu corpo esteja de pé,
na minha frente, comandando seus braços a se entrelaçarem
nos meus nessa configuração que caracteriza o abraço, esse e
qualquer outro, nesse abraço em que nossos corpos se tocaram
e que por parcos segundos senti sob a minha mão
suas costas, sua espinha dorsal e suas costelas sob meus dedos,
em que senti ou intuí que seu coração batia ali dentro
comandando a maquinaria do seu corpo, impulsionando
sua vida, pensamentos, sonhos, memórias, a prosseguir
no dia, no tempo, sob a minha mão espalmada em
suas costas, sob a pressão delicada (ou dedicada) dos
meus dedos, o arcabouço que protege sua vida,
a vida que circula em seu tronco, por míseros instantes
colados ao meu tronco, quando seus seios se
colaram ao meu peito, quando seu coração
se aproximou do meu pelo tempo que costuma
durar o abraço, na duração dos braços e do tronco,
na duração do corpo, da mão espalmada sobre suas costas,
no tempo nem imenso nem ínfimo que perdurou
nesse abraço em que se abraçaram as vidas, os sonhos,
os pensamentos, os sorrisos entrelaçados, como os braços,
como os troncos aproximados, unos quem sabe, durante
um espaço de tempo incomensurável, eu diria, mas
efetivamente sentido pelo corpo e transmitido pelos meios
elétricos e químicos ao lugar em que se dá
a geração destas palavras, em que brotam as ideias
que se armazenam e perduram no meu corpo, que se abraçam
à minha vida a partir daquele abraço que pouco
ou quase nada durou em matéria de tempo cronológico,
mas que insiste ainda agora, aqui, quando me invade
a forma do seu tronco colado ao meu naquele dia em que nos
encontramos

(Romance, 2013)

xi.

Algumas vezes foi preciso tirar os sapatos para ficar da
altura da vida. Outras, foi à base de Lexotan
que consegui ir àqueles jantares, sorrir aqueles
sorrisos meio loucos (ninguém saberá o quão
próximos da loucura eles realmente estavam).
Mas descalça, no assoalho frio, é que alcanço a
calma despida que você vê neste momento em
meu rosto. De pé sobre a terra, nua como nunca
estive, agarro-me a esta vida que amanhece,
finalmente, agora.

(Romance, 2013)

Close to the bone

acordo e durmo debaixo da pele, sobre a crosta da terra, com camadas de cidade enterradas

movimento películas e superfícies entre outras películas e superfícies quando saio à rua, ou quando me encosto no parapeito desta janela que se despede da noite

acordo e durmo entre membranas impalpáveis, com enzimas, autor regulações e imponderáveis combustões

metabolizo rostos e teorias em meio à confusão de lembranças despropositadas, entre secreções sebáceas, tubos, alvéolos e histórias acumuladas

por vezes sinto esse torvelinho dentro da barriga, e não sei se é fome ou lembrança de fome, ou se são movimentos espontâneos da voracidade do vazio

nem sei que tipo de limite representa a pele, se me separa da madrugada ou me une a ela

se o frio que sinto nesse vidro me pertence ou sou eu que pertenço ao frio ou ao vidro, ou se o ponto em que tudo se entrelaça surge apenas para desaparecer

sei apenas que sou permeável a esta manhã que desaba seus vermelhos por prédios e morros, por muros e árvores

 

(Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer, 2003)

Caio Meira (1966) nasceu em Goiânia. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1984, onde se graduou em Psicologia (1989) e se doutorou em Literatura/Poética (2003), sempre pela UFRJ. Tem cinco livros de poesia publicados: No oco da mão (UERJ, 1993), Corpo Solo (7Letras, 1998), Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer (Azougue, 2003), Romance (Circuito, 2013) e Para ler no escuro (7Letras, 2016). Está escrevendo seu primeiro romance, Quando chega o nevoeiro, ainda sem data de publicação. [Foto: Luciana Lopes]

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