teoria versus prática

[Monica trabalhando – imagem tirada do filme Particle Fever (2013)]

Laura Cohen

Outro dia vi um documentário muito legal (tem no netflix) chamado Particle fever, que é sobre os primeiros funcionamentos de um grande acelerador de partículas construído na Europa. O que mais me interessou no filme foi uma divisão daquela área da Física que não existe na Letras: há os físicos teóricos e os físicos experimentalistas. O primeiro grupo, o dos teóricos, é representado por aqueles físicos que ficam em suas salas, diante de quadros negros, executando cálculos e tentando resolver problemas dificílimos, e o segundo grupo, o dos experimentalistas, cuidam da parte prática: máquinas, construções, dados, experimentos. No filme, os dois processos – o teórico e o experimental – apesar de um ficar às vezes gozando da cara do outro – são processos complementares. Especificamente, me identifiquei muito com uma personagem do documentário, uma física experimentalista chamada Monica Dunford, não apenas por ela ser uma mulher numa área tradicionalmente dominada por homens, mas pela alegria dela em colocar uma roupa de trabalho, calçar botas e por um capacete, e ir se arrastar no chão, realizando reparos nas máquinas. De uma forma figurada, é assim que eu me sinto no meu trabalho.

Estou lendo as aulas de literatura que Cortázar deu em Berkeley em 1980[i], logo no segundo parágrafo da transcrição, há uma frase que está ecoando na minha mente até agora, e não pude deixar de relacionar isso ao filme dos físicos:

“É bom que vocês saibam que estou improvisando estes cursos muito pouco antes de que vocês cheguem aqui; não sou sistemático, não sou nem crítico nem teórico, de modo que, à medida que os problemas vão aparecendo no trabalho, busco soluções”.

Por certo, se um professor admitisse isso em sala de aula sem ser absolutamente genial nas suas improvisações, os alunos o taxariam de pronto como um picareta. Mas a frase abriu uma pequena iluminação na minha cabeça – o meu processo particular ideal pode ser bem ilustrado pelo que Cortázar faz: os problemas surgem, busco soluções, e busco soluções com o que tenho por perto.

Acho que não foi um triunfo, para mim, entrar na faculdade de Letras como escritora e sair como escritora – muita gente que escreve antes de entrar lá acaba desistindo de escrever ao longo do curso, tornando-se outra coisa. Eu continuei sendo uma escritora (e melhor, eu me tornei uma autora, publiquei meu primeiro livro quando estava no oitavo período do curso) porque escrever é uma necessidade e não uma escolha. Mas digo que não foi um percurso fácil, apesar de ter sido poderosamente iluminador.

Quase abandonei o curso algumas vezes, inclusive: eu gostava muito de literatura, mas sempre achei as matérias de literatura demasiadamente teóricas: você lê um autor e precisa compreender o pensamento desse autor, e lê teóricos que teorizaram sobre o escrever e tenta compreender os conceitos e pensamentos desses teóricos. Não estou aqui cuspindo na Teoria da Literatura, mas estou tentando entender porque sempre me senti distante dela, tendo inclusive pequenas crises de ansiedade diante destes estudos. Talvez seja até a minha dificuldade com a filosofia: a maioria das coisas está muito longe das minhas necessidades e dos meus desejos. Outra coisa que sempre me causa desconforto é o fato do curso de Letras estar em um não-lugar entre a ciência e a arte, e acabo achando o desconforto muito positivo. No fundo, acho que sempre escolho a arte em detrimento da ciência. Daí, gosto de pensar no meu processo como o processo de uma experimentalista.

As leituras da Teoria que mais me tocavam e empolgavam eram as leituras que tinham certa utilidade para mim no que eu estava fazendo, textos que explicavam ou mostravam um processo que eu poderia incorporar: por exemplo, numa matéria maravilhosa dada pelo professor Luis Alberto Brandão sobre Bakhtin e Dostoiévski (gostava de apelidá-la de “Bakhtin e Dostoiévski sem dor e sem cortes”), tentei praticar a polifonia descrita pelo Bakhtin nos meus textos de ficção. Se eu consegui incorporar essa polifonia tanto faz, a verdade é que eu achei uma solução para um problema do meu texto através do que me deu a Teoria – busquei uma solução com as coisas que estavam em minhas mãos.

Algumas vezes pensei em largar o curso, e acho que só não abandonei a Letras por causa do grego antigo: o grego, apesar de poder ser enxergado como uma grande inutilidade por muitas universidades do mundo, exige que você trabalhe de uma forma bastante prática. Para aprender a língua é quase um trabalho físico – exercícios, traduções, vocabulários. É um trabalho que, para a minha alegria, gera um resultado quase imediato, se comparado aos outros processos de leitura e escrita: você se propõe a traduzir um pedaço de um texto e ao fim de algumas horas, mesmo com dificuldades e dúvidas remanescentes, lá está a tradução, um objeto palpável do seu trabalho no papel.

Por um tempo, fui seduzida por Homero, mas acabei desistindo dele (um estudo teórico demais) para fazer uma coisa ainda mais prática – a tradução. No momento, estou trabalhando na tradução e no comentário de um texto grego conhecido como Romance de Alexandre, ainda não publicado em português. Aliás, me revolta muito como, na área de clássicas, temos poucas traduções novas – acho que a situação tem mudado nos últimos tempos, mas seguimos precisando de traduções, há textos que permanecem no escuro, há traduções antigas demais precisando de uma renovada, mas isso é assunto para outro texto – e talvez um manifesto.

A falta de sistema sugerida por Cortázar é por si só um sistema mais baseado na prática do que na teoria, mais focado no fazer imediato do que no pensamento. E o meu sistema acaba sendo mais ou menos assim, mais prático do que teórico: sempre que surge uma ideia eu anoto, escrevo coisas para mim, tento escrever livremente sem a voz da crítica (dói menos!) para depois fazer cortes e ajustes. Se estou lendo um livro, tento incorporar nos meus escritos as coisas desse livro que me agradaram – não é roubo! É aprendizado. Continuo pensando que a coisa mais valiosa para um pesquisador ou escritor é descobrir o melhor modo de fazer, e como os modos de fazer são flexíveis, estamos sempre em busca do novo modus operandi que serve para um trabalho em questão, seja ele teórico ou prático.

[i] CORTÁZAR, Júlio. Aulas de Literatura. Tradução Fabiana Camargo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

One Comment on “teoria versus prática”

  1. Laurinha,
    o seu texto é muito bonito. A sua escrita nos remete à sua fala e esses traços de oralidade são ecos que atravessam os fios de todas as frases tornando a leitura muito agradável. O tom confessional também chama atenção de quem lê… Achei ótimo.

    Sobre a questão “teoria versus prática”, essa dicotomia sempre presente na reflexão sobre poíesis (poesia/ feitura), acredito que nossas opiniões e abordagens sejam um pouco diversas. Eu tendo a reconhecer em todo discurso que se diz “prático” um pressuposto teórico (do qual tal discurso muitas vezes não se dá conta). Da mesma forma, todo discurso “teórico” é inescapavelmente “prático”, uma vez que – se não o fosse – deixaria de ser discurso. Pode parecer que o que digo é mero malabarismo linguístico, mas tento enxergar o que há de ativo em todo ato contemplativo (e vice-versa). Daí gostar de textos que se mostram conscientes da impossibilidade de operação (ou seja, de realização de uma obra) no interior de um sistema dicotômico simples: até aqui é a teoria, dali pra frente começa a prática. Nesse sentido, para continuarmos na Argentina, Borges, para expandirmos para a América, Paz, e para o mundo, Derrida…

    Se a princípio a teoria parece apenas enformar o objeto, é certo que ela também constitui o sujeito (que por sua vez vem a constituir o objeto, que finalmente se converte em teoria). Contemplar é agir e todo agir exige alguma forma de contemplar (mesmo que de olhos fechados)… ;D

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