sou eu

[Por Laetitia Jourdan*]

 

Eu tinha que renovar a carteira de motorista. Aguardava meu número ser chamado para o cadastro.

— 43!

Me dirigi ao caixa, já sabendo que os momentos que se seguiriam fariam eu me arrepender de ser quem sou.

— Nome?

Pronto. Não precisava ir mais longe. O nome, o principal, o cabeçalho do cadastro, já se colocava como um impecilho à compreensão mútua entre mim e meu meio. Sempre lembro dos anos de escola, ao responder chamada:

— Janaína?

— Presente.

— Joana?

— Presente.

— Juliana?

— Presente.

— (…)

Silêncio. Até que eu tomasse a iniciativa de ajudar o professor na difícil tarefa. Daí em diante, seguia-se a chamada. Laura, Luciana, Luisa…

No Detran não seria diferente. Meu nome deveria ser minuciosamente soletrado. Normalmente duas vezes. Às vezes três, e sempre era um alívio ver que enfim estava digitado corretamente na tela do computador.

— Letícia, mas escreve L-A-E-T-I-T-I-A.

— Leticia?

— É.

— L-A o quê?

— E-T-I-T-I-A

— Laeticia?

— Não. LaeTITIA. Que nem titia.

— Nossa ! Que diferente! É Italiano?

— Não, é latim.

— Ah… Legal. Porque seus pais escolheram dificultar tanto seu nome assim?

Essa frase sempre é falada com um sorriso simpático no rosto, de modo a não parecer uma crítica aos meus genitores, que nessa altura são comparados a esses casais que escolhem nomes escalafobéticos para seus filhos.

— É que na França escreve assim, eu nasci lá.

— Nossa! Que chique!

De repente, o que a pouco era visto como um capricho de pessoas metidas a besta vira um luxo de gente bem nascida. Chamar Laetitia é para quem pode, querida, não para quem quer.

— Data de nascimento?

— 05 do 11 de 1983.

— Estado civil?

Nessas horas me pergunto em que o fato de ser solteira, casada, juntada, amigada, amaziada ou desquitada poderia influenciar na minha condição de condutora de um automóvel classe B.

— Solteira.

Tinha vontade de dizer que esse era meu estado civil, religioso, espiritual e físico, caso restasse ainda qualquer dúvidas com relação à minha incapacidade de arrumar um marido já pra lá dos 30.

— Profissão?

— Antropóloga.

— Antropóloga?!?!

Pronto. O fim.

— É, antropóloga.

— Nossa… já sei! Antropólogo é esse povo que mexe com osso, né?

Tudo o que queria fazer era apenas o exame médico para poder voltar a dirigir…

— É, mais ou menos… Isso é mais arqueólogo, mas antropólogo também pode mexer com osso. Mas tem outras coisas.

— Ah é… mexe com essa coisa de índio, né? Eu já vi na televisão.

“Essa coisa de índio”…

— É, é isso.

— Legal. Você é toda diferente, né? Nome diferente, profissão diferente… Deve ser interessante trabalhar com índio. Você já foi pra Amazônia?

Será que vou frustrar muito essa moça que tenta ser simpática no guichê ao dizer que não? Que o mais longe de BH que já estive dentro do Brasil foi no Maranhão e que lá não vi índio nenhum? Talvez eu pudesse falar que em Porto Seguro tem agências de viagem que te levam para fazer um tour por uma tribo… Tribo não, comunidade indígena. Preferi não a desiludir e incorporei as experiências de amigos que, esses sim, são “verdadeiros antropólogos” e já foram para Amazônia. Vai que ela resolve fazer Antropologia ?

— Já sim.

— Nossa! Sério??? Que legal ! E você ficou com os índios?

— É, fiquei.

— Deve ser tão diferente !

— É… bastante…

O número de pessoas esperando atendimento crescia, mas ela não parecia estar nem um pouco interessada. No entanto, meu tom blasé parecia ter dissuadido a continuidade da sabatina sobre índios e a Amazônia.

— Pode aguardar, o médico já já te chama.

Peguei o papel e me sentei de novo na sala de espera, me sentindo um pouco mal por não ter correspondido à empolgação da moça do guichê, e com uma certa nostalgia da época em que perguntavam: ‘Profissão? Estudante”. Ela chamou o número seguinte, que aparentemente deveria ter um nome qualquer, com uma profissão qualquer, já que em menos de 2 minutos já estava sentado ao meu lado novamente.

Depois de alguns minutos, o médico sai da sala de consulta, baixa os olhos para o papel em sua mão e… silêncio. Eu fico tímida e não o ajudo na tarefa. Ele então arrisca:

— Letitia?

— Sou eu.

 

* Laetitia V. Jourdan é antropóloga, bacharel em ciências sociais pela UFMG e mestre em antropologia aplicada ao desenvolvimento sustentável na Universidade de Provence. Franco-brasileira, na procura de tentar se encontrar no mundo e se conhecer melhor, descobriu seu desejo pela escrita. Hoje, faz experimentos no atelier Estratégias Narrativas em busca de um estilo, de uma história, de uma maior compreensão de si e dos outros.

2 Comments on “sou eu”

  1. Lê, Lele, Letícia, não interessa, você escreve demais… Me emocionou e ao mesmo tempo me lembrei do que aconteceu comigo:
    “-qual o nome?
    -Paula Basques
    – Basques no plural?
    Confesso que fiquei um pouco perdida com a pergunta, mas quando me encontrei, prontamente respondi:
    -isso, Basques com S no final…

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