Sim ou sim – sobre a exposição “Vitrine_algodão”, de Tatiana Blass.

[Laura Cohen]

No meu trabalho de fim de curso da FALE, acabei escrevendo sobre alguns trabalhos da artista Tatiana Blass. Para a exposição que está na galeria Celma Albuquerque, a artista acabou me convidando para escrever um texto, afirmando que gostava de convidar escritor para falar do trabalho dela. Escrevi esse texto depois de uma conversa com a Tatiana em seu ateliê, e depois que foi concluído, sinto que vou, daqui a algum tempo (pois sou uma escritora lenta) transformá-lo em um conto maior, uma narrativa. Publico aqui o texto para fazer o convite da visita com a artista amanhã, quarta-feira, 28 de março na galeria, às 17h30 (Rua Antonio de Albuquerque, 885)

SIM OU SIM

A primeira palavra que escrevo no caderno vermelho: ausência.

A segunda palavra que escrevo no caderno vermelho: fantasma.

Depois: a vontade de contar histórias que não são necessariamente verdadeiras. A própria noção de contar histórias exclui a ideia da verdade. Há isso nas imagens, uma necessidade de explicar, como se estivéssemos diante de figuras de outros tempos. É a narrativa de uma língua que não conhecemos, uma língua que jamais conheceremos, para a qual não conseguimos correspondência ou tradução em documentos passados. Está em um registro diferente. Assim como a música sem palavras (que alcança uma narrativa que ocupa de outra forma) vivem as imagens, história sem a necessidade de explicação, mas que ainda assim restam e falam.

Eu tinha cerca de treze anos quando me hospedei em uma casa de fazenda do século XVIII, o lugar mais antigo onde dormi. O chão de grandes tábuas de madeira rangia, elevado. Havia algo por baixo, um cômodo oculto que não chegamos a visitar. De manhã, quando o sol nascia sobre a casa, a luminosidade escapava para dentro da cena entre as telhas, entre frestas nas janelas de madeira pintada de azul e também através do piso, penetrando o espaço desconhecido que brilhava entre as gretas.

“Um paradoxo é uma situação impossível segundo a lógica com a qual nos acostumamos” – a formulação anterior é quase redundante. Somos, no entanto, capazes de cometer paradoxos com verossimilhança assombrosa, comprovando que tudo se povoa do inexplicável. Por exemplo: onde há o algodão, posso encontrar o outro lado facilmente, onde há vitrine, está a opacidade. Nem ficando nas pontas dos pés podemos enxergar através do vidro a coisa que estaria. Seria preciso pedir explicações ou conformar-se. A narrativa fica impregnada nas tramas e entra em saturação. Pode-se raspar o mito para que exista uma história que não está mais lá, mas que ainda é resto e camada sem brilho. Errar, refazer: o grito se torna silêncio, a mulher agredida desaparece, transformada em cadeira, a surdez anterior torna-se escuta, o sujeito torna-se espaço e nós duvidamos.

O teatro, o presenciamos na maioria das vezes sem participação. Assistimos. Não fazemos parte, não decoramos a fala, não sabemos a língua, não lemos o texto antes. Os personagens estão em aberto, mas ainda assim a trama nos é acessível.

Não mexa nos objetos em exposição na vitrine, solicite um atendente.

Desenhar compondo camadas por medo da palavra. Errar muito. Raspar a história e contar de outra forma. Às vezes o mito não aceita as camadas que desejamos dar a ele. Para dizer a verdade é preciso, sim, raspar. É sim ou sim.

Laura Cohen Rabelo publicou os romances História da Água (Impressões de Minas, 2012) e Ainda (Leme, 2014), o livreto de poemas Ferro (Leme, 2016) e agora lança o romance Canção sem palavras (Scriptum, 2017). Mestre em estudos literários pela Faculdade de Letras da UFMG, é idealizadora e coordenadora do projeto Estratégias Narrativas, onde ministra cursos e ateliês de produção literária. Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas.

 

 

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