Sete recortes sobre o corte

[Laura Cohen]

1: A imagem que ilustra o post é uma luminária que imita a tecla delete do computador. Ela foi um presente do Guilherme Hargreaves quando a gente fundou o espaço do Estratégias narrativas em abril do ano passado. O livro do Gui – Diminuto, publicado pelo selo Leme – foi um dos primeiros que eu preparei, e tive o prazer de escrever a orelha dele. Tem um trecho que é assim: “Apesar de ter aparência de mágica, o processo de construção desse livro não foi um simples canto de musa. Na verdade foi um trabalho demorado e difícil. Começou com o Guilherme escrevendo sem parar, chegando a meia centena de haicais, sempre contando nos dedos os metros corretos das sílabas. Depois, ele perceberia que o metro na verdade chegava muitas vezes a atrapalhar o sentido, o ritmo e a sonoridade do poema, decidindo assim abandonar em vários dos haicais a contagem das sílabas. Nessa linha de pensamento, vi vários poemas de dez, quinze ou até mesmo trinta versos serem cortados aos poucos até se transformarem num poema de três versos, com ou sem metro, enxugados ao limite da brevidade até mesmo na pontuação”. Um detalhe é que o Diminuto é um livro tão cortado ao essencial que apenas a ficha catalográfica dele possui letras maiúsculas.

2: Em 2014, nos começos do projeto Estratégias narrativas, o Pablo Lobato nos deu uma aula sobre o corte – e para isso ele citou um poema do Leminski que é assim:

o barro

toma a forma

que você quiser

 

você nem sabe

estar fazendo apenas

o que o barro quer

3: Portanto, cortar não é eliminar. Cortar é moldar. É preciso pensar no corte como o corte de uma roupa (gosto do nome: modelagem) ou o corte do cabelo (gosto da expressão: meu cabelo está sem corte – é crescer demais e perder uma forma que a tesoura tinha dado). A expressão “acertar a grama” significa “cortar a grama”. Cortar é descobrir a forma mais adequada para o texto e o lugar correto de cada palavra. O que soa bem fica dentro, o que destoa fica fora.

4: Dá para reciclar: o trecho cortado de um texto que não o acolhia bem pode até virar outro texto, quem sabe, ou pertencer outro espaço, outro poema, outra narrativa. O que foi cortado de um texto pode encaixar em outro contexto.

5: Gosto também de uma palavra grega: plásma. Plásma é qualquer coisa que foi criada através da modelagem, tudo feito do ato de moldar: estátuas ou ficções. O substantivo vem do verbo plásso, que significa modelar, e daí tem sentidos como “imaginar”, ou “forjar de modo falso”. A palavra é a mesma que deu o nosso termo “plástico”, a qualidade do que é moldável.

6: Algumas ficções antigas às vezes chamadas de plásmata. Por exemplo: o romance antigo que eu estou traduzindo no mestrado é um texto do século segundo que possui oitenta versões em vinte e quatro línguas do momento do seu surgimento até a Idade Média: texto moldado em prosa e em verso de tudo quanto é forma. Ele é conhecido como Romance de Alexandre e consiste em um texto ficcional que narra a vida de Alexandre, o Grande enchendo-a de detalhes esdrúxulos. O personagem real de Alexandre Magno é  narrado como um filho de um adultério. Ele tem um olho de cada cor, inteligência extraordinária e consegue derrotar os inimigos quase sem precisar de fazer guerra, além de conseguir inventar máquinas que vão para o fundo do mar e carruagens voadoras movidas por pássaros gigantes. Gosto de pensar: quais são os recortes maluco que nós, ficcionistas, podemos fazer da história?

7: Mas cortar hoje pede, entretanto, que se arranque arestas, frestas, tudo que não pertence. Antes da maratona de escrita, eu estava arrumando o ateliê e conversando com a Natália Mingotti. Ela falou que quando  dava aulas na Venezuela e sentia que alguém estava escrevendo demais num texto – ou na nossa ótima expressão, “enchendo linguiça” –ela dizia que o texto estava cheia de “paja”. “Paja” é matinho – ervas daninhas. Para dizer isso para o aluno, ela docemente desenhava umas plantinhas nas bordas da página que continham o texto nada capinado. Havia coisa extra crescendo ali e era preciso podar um pouco. Cortar é modelar barro, aparar o cabelo, cuidar do jardim.

 

P.S.: Falando em corte, começa quinta-feira a nossa oficina de colagem com a Fran Silva.

 

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