O mito do escritor sem auxílio

A baguncinha da edição

[Laura Cohen]

Quando estive em Caruaru/PE pelo Arte da Palavra no ano passado, uma das alunas me disse mais ou menos isso no primeiro dia: “acho tão bonito uma pessoa que senta e escreve um texto do começo ao fim, e sai tudo lindo. Queria aprender isso”. Brinquei com ela: “é, eu também queria”. Era novamente o mito do Escritor Inspirado que escreve o texto de cabo a rabo, sem crises, sem questionamentos, sem pausas, sem reescritas mil e principalmente: sem ajuda. Existe aqui uma cilada romântica, porque acho que a escrita é uma arte do refazer – talvez como o teatro e a música, com seus múltiplos ensaios antes de uma apresentação, a parte que fica invisível ao espectador.

Se escrever é um ato solitário, penso que editar é um ato do coletivo. Há aquela regra da Irmã Corita Kent “não tente criar e analisar ao mesmo tempo. São processos diferentes”. Começando a oficina em Caruaru, percebi que os textos dos alunos era tão legais que eu precisava apenas auxiliá-los a cortar e editar os trabalhos uns dos outros. Reconstruí a oficina e fui dando toques; no fim, espertíssimos, eles estavam dando opiniões de forma livre e carinhosa a respeito dos textos alheios, editando, e uns meses depois alguns deles até lançaram um livro. Claro que uns mais tímidos, outros mais delicados, outros mais atirados. Para cada escritor, seu editor.

Também já tive alunos que achavam que pedir ajuda para editar o texto era “trapacear”. Como se o que saísse espontaneamente de si era o que valia, e depois de editado, o texto não era mais tão seu. É um pensamento difícil porque, sim, quando mais a gente escreve, mais a gente aprende sobre a escrita – mas esse tipo de pensamento de que pedir ajuda é trapacear, isso coloca o foco sobre o autor e tira o foco do texto, que é o único que tem que se sair bem nessa história. Na verdade, sabemos até mesmo que a noção de autoria flutua muito ao longo do tempo, e que o senso comum do nosso tempo ainda se foca no autor-gênio. De novo trago a comparação: se no teatro temos a figura da direção, isso não tira o mérito do trabalho de uma boa atuação. A mesma coisa se dá com uma boa edição. Aliás, pela minha experiência, as melhores edições que fiz foi quando o diálogo com o autor se deu de forma interessante para as duas partes.

Fayga Ostrower  escreve em seu livro Criatividade e processos de criação: “Pensar na inspiração como instante aleatório que venha a desencadear um processo criativo é uma noção romântica. Não há como a inspiração ocorrer desvinculada de uma elaboração já em curso, de um engajamento constante e total, embora talvez não consciente”. Assim como a inspiração é uma elaboração em curso, também é a edição de um texto. O meu, passa por muitas mãos e muitos olhos antes de ser publicado. Trocamos textos impressos, e, num pacto de sinceridade, rabiscamos as páginas uns dos outros, mandamos áudios gigantescos com insights sobre textos próprios e alheios. Enviamos parágrafos difíceis por e-mail, pedindo soluções. Cortamos lugares-comuns, conferimos tempos verbais, ajudamos na criação de personagens, a arrematar narrativas, a conectar enredos e a mudar a ordem dos versos de um poema. São estes os momentos mais bonitos da escrita, comparável à quando a gente está escrevendo e, de repente, toda uma narrativa faz sentido, um verso sai facilmente, uma imagem surge como mágica, apesar de, em silêncio, já estar ali sendo gestada há um tempo. Enquanto isso, a edição se gera no barulho bom da troca.

Quando voltei do Arte da Palavra, depois de dar seis oficinas pelo Brasil, de norte a sul, resolvi repensar os processos de edição e disso nasceu essa pequena oficina-piloto Cortar, reescrever, editar, que fala desses três momentos da escrita que são mais felizes e funcionais, para mim, quando coletivos. Se você quiser saber mais sobre a oficina, eis o link.

Laura Cohen é escritora e editora. Formada em letras e mestre Estudos Literários pela UFMG, publicou os romances História da Água (Impressões de Minas, 2012) e Ainda (Leme, 2014) e Canção sem palavras (Scriptum, 2017) e as plaquetes de poesia Ferro (Leme, 2016) e Escrever é uma maneira de se pensar para fora (Leme, 2018).  Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas. (foto: Bianca de Sá)

One Comment on “O mito do escritor sem auxílio”

  1. Adorei o texto. Pois é, quantas vezes leio um livro pronto, impresso e penso. Puxa, esse autor/essa autora é ótimo (a) . Que perfeito ficaria se tivesse havido um editor/editora. É uma fase absolutamente necessária , que não retira nada do autor, ao contrário. Fase que muito livro “editado”, infelizmente não contou com ela.

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