O desenho em perigo – sobre a exposição “Eu não quero nunca mais seu endereço” de Ana Paula Garcia

[Fotos do post: Carolina Guimarães]

Laura Cohen Rabelo

Seria impossível para mim falar do trabalho da Ana Paula Garcia de forma distante: a conheci quando éramos adolescentes, ambas escrevíamos e desenhávamos, e frequentamos o mesmo ateliê de desenho por seis anos e ainda estudamos na mesma universidade – ela na Escola de Belas Artes, eu na Faculdade de Letras, sempre trocando práticas e referências processuais. Acompanho o que ela desenha desde quando tínhamos catorze ou quinze anos, e ela leu e comentou os meus primeiros contos e as minhas primeiras tentativas de romance, sendo uma pessoa que construiu comigo meus modos de fazer. É desse lugar que falo, desse percurso conjunto, em que uma tornou-se escritora e a outra artista plástica criando um espaço entre palavra e imagem.

No dia 06 de maio de 2018 a Ana abriu a exposição “Eu não quero nunca mais o seu endereço” no Estúdio Guaco, constituída desenhos, vídeos e experimentações gráficas e espaciais. O trabalho dela, até então, tinha me passado uma ideia de suavidade e método, e de alguma forma eu me surpreendi como, na verdade, essa exposição é o contrário do moderado, mas um conjunto de decisões absolutas, sem meio termo, assumindo como temas o acidente, a tentativa, o inviável e a violência complexa entre o sim e o não. A sensação que tive era a mesma de olhar para o leite transbordando na panela e atingindo as chamas do fogão: apesar de ser uma cena desastrosa, não deixa de ser lindo ver a espuma tão branca subindo.

De fato, é uma exposição de gestos de tentativa, explorando possibilidade e impossibilidade. Na primeira sala, temos dois vídeos: “tentativa de um desenho – (parte 1)” e “tentativa de um desenho – (parte 2)”. No primeiro, a imagem foca no chão e os pés da artista sobre ele, que deixa cair e pega do chão continuamente um lápis até que ele se quebre. No segundo vídeo, a artista aponta, até destruir um lápis semelhante ao do primeiro, deixando apenas os restos de madeira e grafite sobre uma mesa. Apesar dos gestos extremos, são vídeos, no entanto, limpos, compostos em tons claros.

No chão da sala temos “tentativa de um desenho – (parte 3)” no chão de entrada da exposição, encontramos vários lápis de argila branca queimada: são lápis impossíveis, lápis que não desenham, anulados. E, além de tudo, no chão e de argila, são objetos frágeis que correm o perigo de levar uma pisada acidental de um passante desatento por estarem quase em um ponto cego de quem entra.

Na parede ao lado dos vídeos temos “onze propostas”: algumas dezenas de desenhos feitos pela artista e o Grupo de estudos em montagem (Daniela Maura, Letícia Proença, Lygia Peçanha, Marina Tasca e Natália Rezende). Os desenhos me lembraram, na verdade, os primeiros exercícios de desenho que costumávamos fazer quando começamos a estudar no mesmo ateliê: riscos perpendiculares e paralelos, estudos de profundidade e mancha, uma folha escrita com a palavra cotidiano ocupando cada vez menos o fundo branco, um texto manuscrito, tudo em grafite.

A exposição também se constitui de dois desenhos em paredes, feitos coletivamente. Uma “Cheio vazio/vazio cheio”, é difícil de ser entendida da entrada da galeria, mas indo aos fundos da casa e olhando de determinado ângulo, acontece o encaixe de uma barra de metal da varanda e as folhas de uma planta em um vaso suspenso. O outro desenho, “a paisagem das horas”, marca em grafite a luz e a sombra do sol sobre os fios de eletricidade da rua e a concertina sobre o muro: fios elétricos, concertina, elementos perigosos da cidade, de barreira e risco.

A paisagem é um elemento frequente no trabalho e na pesquisa da artista. Também está presente em “Céu terra”, em que vários exemplares um livro feito por ela se dispõe em aberto na canaleta da parede. Os visitantes da exposição podem tocar os livros, mudar suas posições e assim alterar a paisagem contínua que eles formam. Na experiência de mexer nessas publicações, há também um não saber do desenho: se é permitido tocar – coisa rara em galerias de arte – nós somos levados a participar, folhear, reformular o desenho da paisagem na parede, mesmo sem saber como se faz aquilo.

A princípio, o nome da exposição me deixou curiosa e parecia algo novo para mim. Agora, enquanto escrevo, percebo as palavras “não” e “nunca mais” do título, negativos categóricos. No “endereço”, entendo a questão do espaço. “Eu”, esse sujeito que se enuncia também no verbo “quero”. Uma narrativa oculta acontece nessas tentativas de desenho, paisagem, preenchimento e esvaziamento – algo se rompe no fluxo. Um espaço impossível é criado, e através do desejo que nega, parte-se para outro espaço. Saí daquela casa pensando que, de fato, toda vez que se faz alguma coisa, é uma tentativa. É a primeira vez.

Dia 17 de maio às 14h está agendada conversa com a artista em torno do tema: “Exercícios de tradução: a ação sobre a matéria e o pensamento gráfico”, a partir das 18h acontecerá o lançamento do livro de artista “Céu Terra” integrante da exposição.

A exposição Eu não quero nunca mais seu endereço pode ser visitada mediante agendamento até 17 de maio pelo instagram @estudioguaco e www. facebook/estudioguaco. A classificação é livre e a entrada é gratuita.

Laura Cohen Rabelo publicou os romances História da Água (Impressões de Minas, 2012) e Ainda (Leme, 2014), o livreto de poemas Ferro (Leme, 2016) e agora lança o romance Canção sem palavras (Scriptum, 2017). Mestre em estudos literários pela Faculdade de Letras da UFMG, é idealizadora e coordenadora do projeto Estratégias Narrativas, onde ministra cursos e ateliês de produção literária. Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas.

 

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