Nós e o zero: Resta um, de Isabela Noronha.

[Por Laura Cohen]

Comprei o Resta um, o romance de estréia de Isabela Noronha, meio que por acaso, acho que porque vi alguém elogiar muito o livro, ou porque ando muito interessada no que as mulheres brasileiras vivas e jovens andam escrevendo. O livro, em resumo, trata da história de Lúcia, uma matemática professora da USP cuja filha de doze anos, Amélia, desaparece; e em capítulos alternados a esta história, há a narrativa de dona Esmê, uma senhora que cultiva um pomar no quintal de sua casa. Adoro livros que têm narrativas paralelas e adoro escrever assim, apesar de achar muito difícil criar duas vozes diferentes. Mas neste tipo de narrativa, a gente fica esperando para ver se as duas histórias vão se tocar, se não vão se tocar (não vou dar spoiler, ok?) e a leitura que a gente pode fazer destes dois episódios diferentes.

As duas narrativas são contadas em primeira pessoa. Os capítulos narrados por Lúcia são intitulados com dias, enunciados por datas numéricas, e vão do presente ao passado: no primeiro capítulo, estamos em 06/02/2011, sete anos depois do desaparecimento de Amélia, e no segundo capítulo estamos em 26/09/2004, o dia de desaparecimento de Amélia. Os anos percorridos por ela variam entre 1991 e 2011, não em ordem cronológica. Lúcia tem uma narrativa racional, pautada por cálculos e números, e vai expondo vagarosamente sua equação: ela encara o desaparecimento de Amélia como um problema matemático que precisa de solução. Aos poucos, ela vai deixando tudo de lado e cria uma obsessão para tentar solucionar este problema: abandona o emprego na usp, se divorcia, deixa a casa rica onde mora para viver em um apartamento mínimo, cria um site para encontrar a filha, cai em trotes, enfim, toda uma jornada – extremamente solitária – em busca da filha desaparecida. Era um tema suculento para escritores, que estava aí para ser desenvolvido e Isabela Noronha o abocanhou com precisão.

Ultimamente o ponto de vista das mães tem sido exposto com mais sinceridade e menos idealização, e acho uma alegria que isso finalmente venha parar na literatura. Mães modernas são forçadas a uma maternidade ideal e perfeita, e sabemos que a realidade é bem diferente do que os olhares julgadores pedem quando um menino de dois anos e meio dá uma birra no supermercado. Sobrecarregadas de trabalho, de saco cheio de estigmas e obrigações impossíveis, às vezes abandonadas pelo pai da criança, mães têm questionado esse lugar da mulher ser obrigada a ser mãe, e ainda por cima, ser uma mãe ideal.

Lúcia, antes de perder Amélia, é dona de uma maternidade possível: gosta mais do trabalho e da carreira universitária do que praticar a maternidade como o olhar do outro, absorvido pelo seu olhar, mandaria, sente que a sua filha e o seu marido atrapalham continuamente o seu trabalho. Em determinado momento, ela descreve como um “prazer infantil” poder se sentar diante do computador para trabalhar por horas quando a filha vai para uma festa no fim de semana. No início do segundo capítulo, Lúcia observa sua filha falando ao telefone com uma amiga e ela só pensa em trabalhar no escritório que o marido organizou em casa, para que ela “não precisasse ir à universidade nos fins de semana”. Lúcia desejava o trabalho, ser mãe é uma coisa que acabou acontecendo e o amor não foi instantâneo:

“Não posso dizer que adorei a ideia de ter um filho quando José pediu. Ele já tinha tudo o que queria: a própria empresa, estabilidade, um futuro promissor. Eu não. Eu precisava de mais. Tinha ideias para ao menos duas linhas de pesquisa, planejava subir de dez para catorze o número de artigos que publicava por semestre, ia fazer o pós-doutorado, talvez no Impa, no Rio, onde o professor Américo tinha contatos, talvez numa universidade americana. Queria ter meu trabalho reconhecido no mundo.

Mas José não quis negociar. E eu cedi, estava cansada de brigas. Além disso, me sentia em dívida: me dedicava tanto à universidade, doze horas por dia entre aulas e pesquisa, que deixava José sozinho em casa, em jantares de família, e em muitas manhãs de domingo, até”

Uma mulher que recusa ou adia a maternidade pode ser lida como egoísta. Entretanto, é maravilhoso como essa mulher parece se bastar e simultaneamente deseja mesmo assim ser mãe e ama muito a filha. Os sentimentos de culpa e o remorso dessa mãe são representados com precisão sufocante: culpada por não estar tão presente para o marido, ela tem uma filha, culpada pela perda da filha, ela deixa tudo de lado para buscá-la. Deseja o que tinha e amava e agora se ausenta. Uma das partes mais chocantes – e também um dos momentos em que a gente não consegue largar o livro – é quando Amélia desaparece e os pais vão até a delegacia prestar queixa. De má vontade, a polícia diz que tem que esperar 24 horas para considerar a menina desaparecida, e com frieza, diz que ela já vai voltar, provavelmente está em algum motel com um namoradinho. A mãe sente que não é isso, que a filha pode estar em perigo e não descansa na busca.

A narrativa passa muito pelo não-dito, que é a chave das soluções para a incompletude, tanto de Lúcia quanto de Dona Esmê. Enquanto a busca de Lúcia é quase um thriller, do tipo de seriado policial que a gente não consegue parar de emendar um episódio no outro, a tensão se desconstrói e reconstrói na narrativa paralela de Dona Esmê, que se fixa mais no cotidiano do cuidado de um jardim e a convivência com um filho. Aos poucos, a narrativa de Dona Esmê vai se tornando mais reveladora e violenta, mas sempre que ela toca em algum ponto nevrálgico da própria história, ela recua e silencia. Tudo fica nas entrelinhas. Assim, alternar o máximo do suspense com algo que ressoa o marasmo de um bairro tranquilo é uma forma brilhante de construir a tensão bilateral deste livro. Outra coisa importante é que a os capítulos de Dona Esmê são narrados não com datas, mas com dias de semana: segunda-feira, terça-feira, domingo… Num tempo cíclico e infinito que pode ser qualquer tempo:

“Em cima da muda da laranjeira, joguei o adubo. Estava tão insegura! Tirei os sapatos e os atirei para a varanda. Quando pisei no chão descalça, não tive dúvida de que tudo daria certo. Fui percorrida de vigor. O cheiro era de ferrugem e óleo e a planta e as partezinhas mortas e fumaça, pensei que a vizinhança inteira sentiria, um presente, eu era uma boa nova vizinha. Senti meus pés afundarem, quase engolidos, virando raiz, a minha raiz naquele solo. A terra estava firme. A muda agora era planta”

Um dos maiores talentos deste livro com certeza é a diferença entre essas duas vozes: uma mais racional, outra poética, mas mantendo o estilo da autora, repleto de beleza, sinceridade e tensão. De tudo isso podemos tirar algumas lições de escrita e desejar que Isabela Noronha escreve muitos livros, tão frescos quanto este. O livro está disponível para leitura na biblioteca do ateliê.

laura-bianca

{Foto: Bianca de Sá}

 

Laura Cohen é escritora e criadora do projeto Estratégias narrativas. Formada e mestranda na faculdade de Letras da UFMG, publicou os romances História da água (2012) e Ainda (2014), e o livreto de poemas Ferro (2016). É uma das coordenadoras do selo literário Leme, editando vários livros de prosa e poesia. 

 

 

 

One Comment on “Nós e o zero: Resta um, de Isabela Noronha.”

  1. Laura, muito boa sua resenha. Bem incisiva.
    Li Resta Um e gostei muito. Viva a nossa literatura contemporânea escrita por mulheres, grandes autoras!

    Sugiro que leia também: Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende e Liturgia Fim, de Marília Arnaud.

    Abraço,
    Terezinha Pereira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *