Literatura para tempos sombrios: Bolsonaro, Bernhard e Luciano de Samósata.

[Por Laura Cohen]

Foi bem chocante acordar hoje e ver que o Bolsonaro tinha citado positivamente o golpe de 1964 e elogiado o torturador da Dilma na noite de ontem, quando votavam o processo de impeachment. Além de ser um ato repleto de sadismo, me lembrei imediatamente por reflexo do livro do Thomas Bernhard que estou lendo – Origem, uma obra que conta cinco textos autobiográficos do autor. Num deles, ele narra o fim da segunda guerra mundial, de quando estava abrigado em um colégio interno dirigido por um diretor nazista chamado Grünkranz. Acabada a guerra, Grünkranz e sua mulher desaparecem (fica a dúvida se eles são presos ou mortos) e Bernhard descreve a situação deplorável em que a Áustria foi deixada depois da guerra, chegando a dizer que a fome, a misérias e as condições do pós-guerra foram ainda piores do que as condições anteriores. Para mostrar a vocês como é mais ou menos o espírito desta parte do livro, ele começa dizendo do desejo constante de se matar quando vivia no internato durante a guerra, tendo muitos colegas jovens – pré-adolescentes – que haviam tido a ventura de se atirarem de uma janela. Ele escreve: “Tudo o que se relaciona com o ser humano é sempre grotesco, mas a guerra, as suas circunstâncias e situações são o que há de mais grotesco”.

Ao ouvir o que disse Bolsonaro e pensar em todas as coisas que este processo representa, me lembrei de uma parte ainda mais pesada da narrativa de Bernhard sobre o fim da guerra. Peço licença para citá-la aqui quase integralmente: “No interior do internato, eu não pudera constatar nenhuma mudança visível, mas o chamado salão, no qual havíamos sido educados para o nacional-socialismo, tinha sido transformado em capela: no lugar do púlpito no qual, antes do fim da guerra, o Grünkranz se postava para nos ensinar pangermanicamente, havia agora o altar, e onde estivera pendurado o retrato de Hitler, dali pendia uma grande cruz; por fim, o piano, que a cargo de Grünkranz, nos acompanhava nos hinos nacional-socialistas, como Die Fahne hoch e Es zittern die morschen Knochen, havia sido substituído por um harmônio. O salão nem sequer havia sido repintado por inteiro, era evidente que faltara dinheiro para tanto, pois onde agora estava a cruz chamava a atenção na superfície cinza da parede a mancha branca a demarcar a área recoberta durante anos pelo retrato de Hitler. (…) De fato, os sinais exteriores do nacional-socialismo em Salzburgo haviam sido apagados por completo, como se aquele período pavoroso nunca tivesse existido”.

É legal como o trecho dá uma visão que eu nunca tinha acessado anteriormente, porque sempre vi o fim da guerra de um único ponto de vista, vendido para mim através de narrativas históricas e ficcionais, o fim da guerra como uma alegria, uma extinção completa do totalitarismo, algo que jamais deveria acontecer novamente. O livro de Bernhard não é um livro de história, mas é literatura de memórias publicada como literatura – há aqui o peso das vivências narradas ora com precisão, ora com imprecisão, junto da análise do homem que passou por tudo isso ainda menino.

Aqui no Brasil temos também as nossas tragédias, gerações antes da minha passaram por um período horrível na história, coisa que não precisei enfrentar. Durante o fim de semana, ouvi meus pais e pais de amigos falando do medo que sentiram em 1964 – meu avô, que passou ele mesmo por algumas guerras, estocava comida em casa, minha mãe, em 1989 e 1990, logo depois que eu nasci, recebeu a notícia da guerra do golfo e também começou a estocar comida em casa porque teve medo. Há um documento de 1952, disponível no arquivo público mineiro, falando que o meu avô, um estrangeiro residente em Montes Claros, era um cidadão conceituadíssimo e não apresentava uma ameaça. Temos a história geral, mas temos estas narrativas pessoais, e eu vejo como um grande privilégio a oportunidade de ouvir essas histórias anedóticas e sinceras.

Este é um blog sobre literatura, eu mesma sou uma pessoa que vive de literatura, e gosto de pensar que vivo pela literatura e para a literatura. Gosto de pensar na ficção e nas narrativas como o meu ativismo, e que um livro que conta histórias inventadas e bem narradas pode ter até mais força do que a própria narrativa histórica. A Natalia Mingotti, professora daqui do ateliê, gosta de dizer que a gente tem que esperar menos da literatura. Concordo com ela – a gente que é escritor às vezes tem a arrogância de achar que a literatura vai salvar o mundo. Mas o que a literatura pode fazer é provocar mudanças intensas e profundas na forma de pensar, ver e ouvir, trazer um alívio, e o mais importante de tudo: trazer compreensão e empatia. O mundo onde habita a face da violência que cita um torturador como um herói e uma tragédia como uma vitória está deficiente de narrativas variadas. O mundo que ovaciona as coisas que disse Bolsonaro está deficiente de pontos de vista. O mundo que eu testemunho e que me faz lembrar de Bernhard falando do fim da guerra, este é um mundo que não consegue ouvir a história de uma mãe estocando comida em casa depois de ver seu próprio pai, décadas antes, estocando comida em casa.

Quando falo que a escrita é um bem cósmico, eu estou falando que a capacidade de produzir narrativas e ler narrativas compreendendo-as como o ponto de vista do outro é um bem social e pessoal para todos nós. Uma coisa que percebo aqui no ateliê é que as pessoas têm tido necessidade de escrever sobre o que ninguém fala. Como somos uma maioria de mulheres, acabo vendo que os temas são da alçada da vida de uma mulher que não podia falar e agora fala: o direito do aborto, o luto de uma mãe que aborta um bebê que desejou muito ter, a falta de empatia dos homens, a violência doméstica, as pequenas violências diárias, o silenciamento, o assédio. Sim, em face de um homem violento que louva como herói um torturador de uma mulher, precisamos falar sobre todas essas coisas. Em face de uma frase de efeito que diz “esse impeachment é meu” e de falas de gente levando o “meu” para uma votação (meu filho, meu neto, minha família, meu pai, meu deus) – em face do “meu” não há o “nós”. Não há todas as histórias que deveriam estar aqui.

Por fim, gostaria de citar um texto do Luciano que amo. Ele se chama Das narrativas verdadeiras*, mas consiste em um monte de mentiras fantasiosas sobre viagens fantásticas. Em um dado momento, para falar sobre os homens que habitam a lua, ele narra: “Acerca dos olhos que têm, por sua vez, hesito em falar, temendo que alguém julgue que eu minto, por causa do que há de incrível na história. Contudo, também falarei disso: têm olhos removíveis e aquele que o deseja, retirando-os de si, guarda-os até que tenha a necessidade de ver. Assim, quando os encaixa, é capaz de enxergar. Muitos, tendo perdido os seus, podem ver utilizando os de outros. Há até os que têm muitos de reserva, os ricos”. O nosso professor de grego, Jacyntho Lins Brandão, fala que literatura é isso: ver com o olho do outro. E quanto mais você tem acesso a outros olhos, mais rico você é.

*Das narrativas verdadeiras. Tradução: Lúcia Sano. In: Biografia literária – Luciano de Samósata. Org. Jacyntho Lins Brandão. Belo Horizonte: ed. UFMG, 2015.

Laura Cohen é escritora e coordenadora do projeto Estratégias Narrativas. Formada em letras pela UFMG, é mestranda na mesma universidade, na área de literaturas clássicas e medievais. Publicou os romances História da Água(Impressões de Minas, 2012) e Ainda (Impressões de Minas/Leme, 2014). Foi vencedora do segundo prêmio de literatura Universidade Fumec, em 2011, e em sua edição de 2009, obteve o terceiro lugar, publicando nas duas edições da coletânea Da Palavra à Literatura – Narrativas Contemporâneas. Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas e possui também trabalhos e pesquisa informais na área de artes plásticas.

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