Eu também sou o pato: sobre Os patos, de Flávia Péret

[Laura Cohen]

Quando nos conhecemos, Flávia Péret me enviou um texto para que eu o preparasse. “É um diário”, ela disse, na época com uma barriga bastante grávida de Joaquim, que hoje tem quatro anos de idade. Quando eu li pela primeira vez (ah, tão distante do formato final!), surpresa e empolgada com a escrita poderosa da autora, respondi a ela: “é um romance, curto, mas um romance”.

Acho vantajoso ler Os patos como um romance porque trata-se de uma narrativa ficcional (que tem certa aparência de realidade, vou falar disso já) e em prosa, com certo número de páginas que permitem que nos envolvamos no universo representado por alguma duração de tempo. Um romance, para mim, é antes de tudo um objeto de arte, opondo-se a outras formas de escrita – jornalística, científica, histórica, (auto)biográfica – passando a ter funções que cabem apenas à arte. Dizer Romance nesse caso implica principalmente um modo de ler específico, orientado para a fruição, para o espelho, para a descoberta, para o mergulho, para o infinito.

Relendo agora, penso também nesse livro também como uma espécie de manifesto ficcional, íntimo e simultaneamente coletivo pelo poder de identificação que pode gerar nos seus leitores. Trata-se de um diário de uma mulher a quem se prescreve a escrita como cura (como cura, mesmo? Fica a pergunta) de uma série de problemas de saúde. É aí que Os patos adquire uma coisa de pathos, esse trocadilho tão proveitoso, um dos tantos jogos de palavras ocultos no livro. Essa escrita não é desorientada, mas tem um escopo específico: o médico pede a essa mulher que escreva a história de seu corpo e tudo que vem com esse corpo: o prazer, o orgasmo, a disposição e a indisposição, a doença, e principalmente a vergonha.

A vergonha do corpo se liga à vergonha da escrita: “quando eu escrever, conseguirei renunciar à vergonha?”, ela pergunta logo no começo, uma das tantas perguntas aparentemente banais que ela formula. Eu, uma mulher, uma escritora, não tive como não me identificar com essa personagem, conheço muito bem a vergonha do corpo, conheço muito bem a vergonha da escrita. Assim como não podemos nos desvencilhar do nosso corpo como ele é, não podemos nos livrar da nossa escrita como ela é – apesar de podermos fazer ajustes nas duas coisas, claro, mas muitas vezes esses ajustes podem ser dolorosos, perigosos e deformantes.

Nisso, brota a sentença mais icônica do livro: “não escrevi nada hoje” – escrita, ela ganha uma dimensão paradoxal: escreve-se ao escrever que não se escreveu nada. É inaugurado um jogo do não-escrever-escrever que permite que conheçamos essa personagem tanto pelo que ela fornece quanto pelo que ela cala. Mistérios rondam o corpo: “acordei de madrugada com uma coceira forte na perna. Pensei que fosse picada de pernilongo, mas não era”, ela diz, deixando em suspenso as causas. As camadas dessa mulher são sobrepostas lentamente, suas neuroses, suas alegrias, seus traumas, seus problemas, revelando histórias de infância e de adolescência.

Ler o diário dos outros, em teoria, é inadequado – teoricamente, um diário é algo íntimo que uma pessoa escreve apenas para si mesma. A exceção à regra é a quantidade deliciosa de diários que temos publicados, tão disponíveis e cobiçados. Existe um prazer específico nisso, um prazer semelhante a espiar pela fechadura da porta de alguém. A edição do livro aceitou e incorporou certos erros e atos falhos da escrita, não eliminando o que em teoria estava “errado”, mas jogando com a verossimilhança do diário, como se ele fosse pertencente a uma mulher real e viva, escrito por ela, e não por uma personagem ficcional. Podemos nos deixar seduzir pelo risco de confundirmos a autora Flávia Péret com sua personagem, a pergunta indiscreta: quanto de Flávia há lá? Gosto de perverter a pergunta para mim mesma: quanto de mim há aqui, nesse livro? Tanto. Eu também sou o pato.

Os patos, livro de Flávia Péret, está sendo costurado manualmente enquanto eu escrevo isso aqui, o toque final de um projeto gráfico maravilhoso feito pelo Estúdio Guayabo, que tem toda a minha admiração. Paradoxalmente eu afirmo: Os patos, mesmo antes de ser lançado, é um dos meus livros de cabeceira, um dos meus livros do coração, um dos meus livros preferidos. Sei frases e ideias dele de cor (“O texto é da cabeça para o corpo ou do corpo para a cabeça?”, formulação que abre o livro, “nunca me deram o direito de desanimar”, uma questão também da minha infância), e levo-as para a minha análise. Porque às vezes não consigo escrever, como a personagem do livro. Porque também tenho coceiras misteriosas.

Para mim, Os patos é quando a literatura se mistura tanto à vida que não sabemos quando uma coisa começa e a outra termina. Como acabo de ler nos Anos de formação – os diários de Emílio Renzi do Ricardo Piglia: “o trabalho, a literatura – infelizmente – não está descolada da realidade. Não pode ser uma ‘cura’, nem um corte, nem uma realidade paralela”.

Deixo o convite para o lançamento de Os patos de Flávia Péret, no sábado próximo, dia 22 de setembro, na Feira Textura no Agosto Butiquim, de 11h às 16h.

Laura Cohen Rabelo publicou os romances História da Água (Impressões de Minas, 2012) e Ainda (Leme, 2014), o livreto de poemas Ferro (Leme, 2016) e o romance Canção sem palavras (Scriptum, 2017). Mestre em estudos literários pela Faculdade de Letras da UFMG, é idealizadora e coordenadora do projeto Estratégias Narrativas, onde ministra cursos e ateliês de produção literária. Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas.

One Comment on “Eu também sou o pato: sobre Os patos, de Flávia Péret”

  1. Laura, que linda análise!!! Incrível! Tanta sensibilidade, carinho, generosidade! Quero ler o livro da Flávia e aprender um pouco de vocês. Beijo grande. Love you.

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