Eu, leitora e humana: sobre Beatriz Bracher

[Nicole A. Marcello]

Lembro que minha primeira sensação com a escrita de Beatriz Bracher foi de estranhamento, um estranhamento com a forma que ela trata e manipula a linguagem. Ao mesmo tempo, havia um desconcerto. Sentia que aquele texto fazia algo comigo, algo que eu não conseguia explicar direito. De repente, eu descobria outros modos de contar e olhar as coisas do mundo. Foi um caminho sem volta. Empolgada, saí de Meu Amor direto para Anatomia do Paraíso, e só parei quando terminei de ler o restante de seus livros.

Eu poderia tentar descrever tudo o que me arrebatou a ponto de ler a obra inteira de Bracher e desenvolver um projeto de doutorado sobre ela. Mas, quando parei para refletir, percebi que o mais importante nesse processo era que seus romances e contos funcionaram como espelhos para mim, seus reflexos auxiliando na compreensão de mim mesma, como leitora e pessoa. Ler Bracher me lembrava de que sou mulher. Me lembrava de que nasci, cresci e vivo (por opção e com muito amor) no Brasil. Me lembrava de que não me preocupo com quem os personagens vão “terminar”, ou se seus comportamentos e atitudes estão certos ou errados. Me lembrava de que eu gosto de ir ao âmago dos personagens, compreender cada ação, de enxergar no texto algo de visceral, para além de juízos e moralismos. Me lembrava das minhas buscas por compreender melhor a forja que moldou nossa sociedade, com suas belezas e feiuras, cheia de dificuldades e contradições. Me lembrava do assombro que me invadia quando eu sentia que ser gente e ter um espaço pode ser desafiador, exigir dureza e agressividade, a ponto de às vezes deixar aquela sensação de que a existência e a natureza são intrinsecamente cruéis.

Mas, para além disso tudo, ler Bracher escancarou minha maior questão, que tem norteado minhas pesquisas, meus pensamentos e meditações. A relação do ser humano com seu corpo.

Penso, logo existo.

Sério? Só que não? Talvez? Definitivamente?

Não sei.

E meu corpo? E a minha cara? Se eu acordasse uma manhã dessas loira, alta e de olhos azuis, será que eu ainda seria eu? Será que eu me reconheceria? E meus sentimentos e impulsos, são todos obras da minha mente ou do meu corpo?

Não sei.

Há vários momentos na obra de Bracher em que a potência do corpo vem à tona, assim como a relação conflituosa do ser humano com ele. Mas, se me pedissem para escolher, escolheria sem dúvida nenhuma um trecho sutil do romance Antonio, que à primeira vista nada entrega, mas que me marcou demais.

Isabel, uma professora universitária paulistana na casa dos sessenta anos, precisa escrever seu memorial para conseguir uma promoção na instituição onde leciona. Acontece que seu filho mais novo, Teodoro, sofre de um transtorno psíquico que o faz passar o dia na rua, catando todo tipo de lixo e trazendo para o apartamento da mãe, onde ele mora com seu filho pré-adolescente, Benjamin. Num arranjo fortuito, Benjamin sai em viagem de férias com a família da tia, e Teodoro é acolhido temporariamente pelo amigo de adolescência, Raul. Isabel aproveita então algumas semanas de isolamento em seu apartamento, que ela considera necessárias para compor seu memorial. Depois de passar dias e dias comendo mal, bebendo vodca direto do gargalo e escrevendo loucamente, como que num transe, seu corpo e a casa avisam que alcançaram um estado crítico. A privada entope e Isabel começa a sentir falta de sexo, como ela mesma percebe:

quem me tirou de mim e de meu prazer insano e me jogou de volta ao fluxo razoável entre vida e obra, e a um prazer mais puro, sincero e elevado, foram minhas partes baixas. Evacuação e sexo. Uma privada entupida e desejo de homem.

Só que, na contingência de chamar o encanador, ela se dá conta de que nem a casa nem ela estão em condições de receber visita de qualquer espécie:

para isso era necessário dar uma ordem no apartamento e em mim mesma, pois não se recebe uma pessoa na sua casa, mesmo um encanador, dessa maneira.”

Isabel então passa o dia numa faxina intensa, na casa e nela mesma. Limpa e lava tudo, se desfaz de todo o lixo acumulado por Teo, toma um banho revigorante, com direito a corte de unhas, esfoliação, hidratação e perfume no corpo. Só então liga para o encanador, que acaba fazendo o serviço “completo”. Já uma senhora de meia idade, Isabel revela o ocorrido com um tanto de recato:

E assim, depois de tudo feito e do cafezinho, aconteceu. Perdão, mas, nossa senhora, foi muito bom. Ele foi bom e gentil, cobrou caro e eu paguei feliz, foi embora. Dormi horas e horas seguidas, dormi o sono do justo que eu voltaria a ser, tinha certeza. Acordei faminta, com a ideia de que poderia começar tudo de novo, começar do começo e da maneira certa.”

A personagem percebe que a existência não é algo pela metade, sua história de vida jamais poderia se resumir apenas a um memorial de vida profissional e acadêmica, tanto quanto sua escrita não fluiria enquanto todo o resto estivesse atravancado. E segue então o trecho final, que, ainda que singelo, é meu preferido, onde a integração entre corpo e alma aparece esplendidamente expandida:

Agora seria diferente. Eu e a casa estávamos limpas. Filho, mãe, trabalho, casa e corpo tudo é uma coisa só. Separamos o tempo em horas, a casa em quartos, o dia em obrigações, o que é uma abstração, na realidade tudo é um só, se um está doente, todos estão doentes, somos sempre o todo e isso não impede ninguém de ir em frente, trabalhar, amar e cuidar. Se Teodoro e você precisavam de mim, não adiantava empurrar para os outros e achar que assim abria caminho para o meu trabalho, as coisas não funcionam dessa maneira. Resolvi ligar para Raul, saber como andavam as coisas.”

Beatriz Bracher tem muitos outros trechos, no próprio Antonio, em que a relação do ser humano com seu corpo aparece de forma muito mais crua, violenta e radical. Mas mesmo assim, esse relato da personagem Isabel é para mim um dos mais marcantes, uma espécie de recado da literatura de que o choque não é a única ferramenta de impacto. Um escrever sutil, sobre assuntos aparentemente leves e/ou envolventes, também traz consigo um grande potencial de transformar e impressionar o leitor, de suscitar reflexões profundas sobre temas candentes.

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Nicole A. Marcello graduada em Piano pela UFRJ, é Mestre em Literatura Brasileira pela FALE/UFMG. Sob o pseudônimo de Bel Schreiber, mantém o blog “Vertendo Vida pela Pena de Tinta”, onde publica uma parte de sua produção escrita. É também a idealizadora, organizadora e mediadora do “Toda Prosa”, coletivo de leitura sediado e mantido pelo “Odara, café e ofícios”. É paulista de nascença, carioca de coração, autoexilada (com muito prazer) em Belo Horizonte.

One Comment on “Eu, leitora e humana: sobre Beatriz Bracher”

  1. Que texto gostoso de ler e que ótima referência para ter. Não conhecia a Beatriz Bracher, mas já quero ler. 🙂

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