Entrevista com a escritora Tatiana Bicalho

Amanhã, 09/06, Tatiana Bicalho lança o seu primeiro livro, Notícias populares através do Selo Leme na Feira Textura, que acontece à partir das 11h horas no Agosto Butiquim (Rua Esmeralda, 298). Fizemos aqui algumas perguntas a ela:

1. Como se iniciou a sua relação com a escrita?

 minha relação com a escrita começa com os cadernos de perguntas e respostas que fazia no começo da adolescência. eram perguntas corriqueiras: qual a sua cor favorita? que ator você mais gosta? para uma adolescente tímida, a construção desses cadernos era a maneira mais eficaz de estreitar laços e descobrir segredos, mesmo que não fossem. passei pela fase das agendas, incontáveis páginas com descrições minuciosas sobre algum lampejo amoroso, recortes da revista capricho com o ator do momento e infindáveis textos em códigos que o mais dos desavisados era capaz de decifrar.

a escrita, sempre esteve presente. percebo isso agora, escrevendo a resposta para essa pergunta. revisito antigas partituras de piano, repleta de tensões assinaladas com uma bic vermelha pela professora, ao lado alguma palavra ou frase escrita por mim ou algum desenho tedioso que fazia no canto da folha, do saber ouvir e interpretar, de contar nota por nota. das inúmeras histórias contadas através de imagens e documentos, do saber lusitano adquirido através dos secretos cadernos culinários, do saber do atelier de escrita, do saber poético que passei a apreciar com gosto na pista do poema.

2.Como é o seu trabalho com a escrita agora? O que você anda escrevendo? 

 é sempre é um work in progress (risos). só consigo escrever depois que elaboro um projeto de escrita. e tenho muitos. e cada um tem o seu tempo. e quando eles me chamam, eu atendo. no momento estou às voltas com um deles. originalmente ele foi pensando de uma maneira, agora tomou uma outra forma, pode ser que mude, pode ser que não, está em aberto é ele que me conduz. é um romance alegórico

3.Como foi o processo de idealização e escrita do livro “Notícias populares”?

 o livro nasceu no ateliê na pista do poema com a eliza caetano e a laura cohen. lia esporadicamente alguns autores e escrever poesia era algo até então distante. foi o primeiro contato de verdade com a poesia. lembro que fiquei uma, duas, três aulas sem saber o que escrever; ficava flutuando entre a prosa e o poema. até que um dia recebi pelo whatsapp uma manchete do jornal meia hora com a seguinte frase: jhon lenon sequestra ônibus e passageiros gritam help. foi o start e ali nasceu o notícias populares.

 eu só lia as manchetes dos jornais, ou chamadas em sites de notícias e fofocas. nunca lia a materia completa. em alguns jornais, eu fazia um recorte as machetes e recriava outras. se você me perguntar o que aconteceu com o jhon lenon da manchete, eu não saberei te responder. espero que ele tenha montado uma banda cover dos beatles e está esteja viajando em turnê pelo brasil no ônibus que ele sequestrou.

 4.Como as suas leituras se combinam (ou descombinam!) com a sua escrita?

 a minha escrita de uma certa forma é mutante. entendi um pouco mais os caminhos emulando os autores que mais gosto. com o notícias populares foi assim, mergulhei no universo do jornalismo sensacionalista, absorvia tudo, do mais ordinário ao fantástico.

comecei com o “o imitador de vozes” do thomas bernhard; assim como um monge copista, transcrevia tal qual o texto. a emulação neste caso é um exercício de investigação da palavra e o começo de uma história a ser contada.

5. Você vê a poesia como um lugar próprio para o humor e o cotidiano? Como esses dois elementos funcionam como gatilhos de escrita para você?

nós sempre estamos a serviço de alguma causa, os poetas estão e sempre estiveram a serviço de uma causa. o cotidiano é uma causa, uma experiência baseada no real. o humor faz parte do real. um simples anúncio em um restaurante pode servir de gatilho para a construção de um poema.

o notícias populares foi feito através de manchetes baseadas no real; o jornal nada mais é do que o diário da vida cotidiana.

ron padgett, um poeta americano que gosto muito diz que poemas são jogos de palavras que dá um prazer eterno.

7.Escrever, para você, é uma necessidade?

 não acho que seja uma necessidade e sim uma escolha.

 

 

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