Desengavetando o gato: Ronron, de Elza Silveira

[Laura Cohen]

Ronron é um livro infantil escrito e ilustrado por Elza Silveira, é um livro que demorou muito tempo para sair. A história dele é uma aventura que chega até a ser meio pessoal, já que eu testemunhei todo o processo. Acontece que Elza Silveira é a minha editora – mesmo eu publicando um livro ou outro por outra editora, ela sempre vai ser a minha editora, sempre vai ser quem me aconselha a respeito do que eu vou publicar, e Elza também levou Ronron várias vezes para ser lido e aconselhado no meu ateliê de escrita, do qual ela também participa.

Elza tem uma história muito interessante com a edição: o pai era dono de uma gráfica e, quando ele se aposentou, ela assumiu o trabalho. Formada em Letras, ela quis não só fazer impressões, como o pai dela fazia, mas livros. Foi lá estudar design e, no fim de um curso, fez um livro como trabalho de conclusão, compondo texto e imagem: nasceu o Ronron.

Acontece que Ronron custou a sair. Às vezes um livro precisa de mais tempo, no caso, acho que Elza teve uma dificuldade adicional porque ela acabou sendo editora de si mesma. Quando fui pegar um exemplar, Elza me disse que fez alterações no livro até o último segundo, no momento em que ela o enviou para a impressão. Esse é o risco: nunca paramos de mexer a não ser que tirem o livro da mão da gente.

No início, o projeto gráfico da Elza incluía várias cores, capa dura e a página central feita de papel vegetal. Aos poucos, Elza foi abandonando o projeto primeiro, e em seguida até pensou em abandonar as ilustrações que ela mesma havia feito. Fico feliz que ela tenha desistido dessa ideia: as ilustrações são feitas através dos elementos de uma tipografia, em que Elza Silveira combinou letras e sinais para criar gatos, seus olhos, seus rabos, suas orelhas, e outros bichinhos, moscas, plantinhas, objetos.

De alguma forma, Ronron é a história do trabalho que  a Elza tem feito, tanto no selo Jubarte quanto no nosso selo Leme: tentar fazer coisas mais simples e artesanais, cada vez mais, e ter uma complexidade do cuidado nessa simplicidade. O livro acabou ganhando quatro cores de papel – roxo, azul, laranja e branco – e duas cores na impressão – laranja e roxo. Não parece, mas é menos do que Elza tinha pensado no começo, e no caso, menos foi mais.

Além disso, o livro ganhou dois cortes especiais (o gatinho da capa e a baleia jubarte no verso) e uma costura que deixa sobrar um “rabinho” de linha: é o rabo do gato, ou uma linhazinha para a brincadeira do gatinho?

Ronron é um livro moderno e sofisticado. Mesmo que escrito em versos, ele possui uma pequena narrativa a respeito do cotidiano de um gato. Nesse cuidado, imagem e texto se misturam, numa tentativa de mostrar que texto É imagem. O centro da narrativa é o centro do livro: “Quando os gatinhos/ estão no bem-bom/ ligam uma maquininha/ que solta um tipo de som”. E aí temos as páginas incríveis a seguir com o ronron do gato:

O livro tem uma complexidade narrativa – a começar pela epígrafe do Guimarães Rosa, passando pela referência à tartaruga do Murilo (que tive que perguntar a Elza o que era, porque eu não conhecia a referência) e chegando aos poemas mais inventivos. Mostro a vocês minha parte preferida, que sou louca por listas – um catálogo das coisas encontradas pelo gato:

Quando eu era uma criança e comecei a ler, eu gostava muito de livros difíceis, com coisas que eu não conseguia entender de pronto e que me deixavam pensando por horas, dias, meses, coisas que me faziam reler o livro e encontrar nele sempre alguma coisa nova. Portanto, acredito que Ronron é um desses livros inteligentes, que ainda consegue conversar com a criança tão viva que mora dentro e fora de mim.

Ronron vai ser lançado no próximo sábado, dia 23 de setembro na feira Textura, às 14h, no  Agosto Butiquim, Rua Esmeralda, 298, Prado – Belo Horizonte/MG.

Laura Cohen é escritora e criadora do projeto Estratégias narrativas, onde dá ateliês de escrita e leitura. Mestre em estudos literários na faculdade de Letras da UFMG, publicou os romances História da água (2012) e Ainda (2014), e o livreto de poemas Ferro (2016). É uma das coordenadoras do selo literário Leme, editando vários livros de prosa e poesia. 

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