Carta a Zack

[Por Laetitia Jourdan*]

Prezado Zack Magiezi,

Há pouco tempo descobri quem você era. Me surpreendi com sua idade – as pseudo-celebridades da internet costumam ser mais jovens – e também com a sua fama. Começamos com o pé esquerdo. Quem nos apresentou não vai muito com a sua cara (ou melhor, com a sua poesia). Então confesso que já fui cheia de preconceitos te ler. Comecei por duas entrevistas que quebraram um pouco essa imagem que eu tinha feito de um Zack cheio de si, com grande necessidade de se mostrar profundo e intenso. Você pareceu simpático, sem grandes aspirações a poeta. Depois das entrevistas, passei para os poemas. Esse seu negócio de tirar fotos de poesias datilografadas segue bem essa onda modernete vintage que anda em alta. Boa sacada publicitária.

Logo me deparei com uns trocadilhos que me fizeram rir, como “é pra frente que se ama”. Desculpe se a intenção era outra, eu simplesmente achei engraçado. Depois achei poemas que pareciam cantadas baratas. Fiquei imaginando o cara chegando na balada e falando comigo: “O sol é um impostor que copiou o seu sorriso”. Também ri. É tipo aquela do anjo, sabe? Que caiu do céu? Alguém cai nisso? Acho que elas são na verdade piadas travestidas de cantadas. Ou seria o contrário? Não vem ao caso. Achei também uns versos que se pareciam mais com aquelas frases de sites que te enviam toda manhã um pensamento motivacional, conhece? Tipo quando você diz: “coloco as tristezas nas prateleiras mais altas para dificultar o acesso e facilitar o esquecimento”. Se você trocasse o verbo por um imperativo, ficava perfeito. Você leva jeito pra dar conselhos nesses sites. Sério.

Seguindo minha pesquisa achei coisas bonitas, que me fizeram sentir poesia no ar, curti o “perdi tempo, fiquei infinito”, mas talvez eu tenha gostado por ser uma consolação ao tempo que eu estava ali te lendo (sem ofensas). Achei também um tanto de “notas para ela”. Curti o título, algumas são bem interessantes. Acho que você tenta mostrar um pouco dessa mulher moderna, né? Que é independente, forte, segura, mas cheia de sentimentos. Vi que o público feminino te ama de paixão e que elas se identificam muito com essas “notas”. Fazer o quê se o Chico Buarque tá em baixa nos últimos tempos, né?

Legal você estar conseguindo conquistar um público tão grande, com um estilo literário tão pouco popular nos dias de hoje. Mas depois de te conhecer, tenho que confessar, não rolou química. Eu até tentei gostar de você, mas não deu. No fundo, acho que o problema não é você, sou eu. Você tava ali, na sua casinha, escrevendo seus pensamentos, devaneios, delírios e postando nas redes sociais, como quem não quer nada. Que culpa você tem se a Grazzi Massafera tweetou um post seu e viralizou o negócio de tal forma que agora seus poemas são citados, recitados, tweetados e retweetados por todas as blogueiras e youtubers de plantão, como se você tivesse conseguido captar as profundezas da alma humana? Qual é o problema se sua poesia é simples, direta, com uma linguagem super acessível, permitindo apenas uma interpretação? Que culpa você tem se os outros te levaram a sério demais, te chamaram de poeta, quando na verdade, você tá mais pra redator publicitário que deu certo?

Eu sei, muita gente vai achar que é inveja, que na verdade eu queria estar no seu lugar. Muitas vão falar que eu mereço um beijinho no ombro e bye bye. E talvez elas estejam certas. Talvez essa minha tristeza seja na verdade recalque de alguém que ao te ler, percebe que no mundo não há mais lugar para as profundezas da poesia e que pra vender que nem água, tem que ser algo fácil e rápido. E será que por isso isso é ruim? Poesia fast-food, foi assim que a Folha de São Paulo definiu seu estilo. E eles não poderiam ter escolhido termo melhor, você concorda? E mesmo o mais gourmet dos gourmets peca de vez em quando num Mc Donald’s da vida.

Pois então. Sou metida o suficiente pra me achar um pouquinho gourmet da literatura. Ou seja, o problema sou realmente eu. Tive certeza disso quando li um texto que falava que suas poesias têm um tom de Leminski. Fui relembrar os versos desse exemplar poeta marginal. Confesso que escutei ecos da sua escrita ali. Poemas curtos, palavras simples, ideias claras. Ou não, como diria Caetano. Acho que algumas coisas que li em sua página poderiam sim, ter sido escritas por Paulo, mas tive dificuldade de imaginar o contrário. Foi um exercício que fiz, reconhecendo o pouco que conheço sobre a sua poesia e a dele, já que não sou íntima da obra de nenhum dos dois. Mas me fez refletir. Durante esse exercício me pareceu que os seus versos, se fossem citados como sendo da autoria de Leminski, talvez me soassem melhor. Veio o incômodo. Preconceito por você ser uma pseudo-celebridade da internet e não um célebre poeta nacional? Talvez. Depois fiquei pensando nas entrevistas que li. Em algum lugar estava escrito “não leio muito o gênero (poesia) prefiro contos”. De repente me surgiu a resposta: na literatura gourmet, não adianta escrever versos para ser poeta. Não adianta publicar livros para ser escritor. Gourmets não querem só matar a fome. Mas o incômodo bateu de novo. Porque eu odeio ser gourmet. Eu curto sentar no trailer de cachorro-quente e não no food-truck de salsichas à la sauce tomate acompanhadas de pão. Então é isso. Estou te escrevendo porque sua escrita me incomoda e me fez colocar várias questões. Sei que isso, para um escritor, é coisa boa e que você não vai ficar ofendido com minhas divagações.

Desejo sucesso sincero

L. Jourdan

* Laetitia V. Jourdan é antropóloga, bacharel em ciências sociais pela UFMG e mestre em antropologia aplicada ao desenvolvimento sustentável na Universidade de Provence. Franco-brasileira, na procura de tentar se encontrar no mundo e se conhecer melhor, descobriu seu desejo pela escrita. Hoje, faz experimentos no atelier Estratégias Narrativas em busca de um estilo, de uma história, de uma maior compreensão de si e dos outros.

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