Canção sem palavras – um trecho

No sábado dia 16/12/2017 será lançado o romance Canção sem palavras, de Laura Cohen Rabelo, na livraria & editora Scriptum (Rua Fernandes Tourinho, 99). Aqui vai um trechinho logo do início do livro, aos curiosos:

 

  1. UNHAS CORTADAS

Desce do táxi em frente ao pequeno prédio forrado da mesma pedra que reveste toda Jerusalém carregando a mochila que agora pesa dezesseis quilos e o violão, há um portãozinho pintado de verde escuro e um interfone. Aperta até o fundo o botão do apartamento da tia, e quando a tia atende dizendo alguma palavra nublada em hebraico, ela responde que é a Maria Teresa, então o portãozinho se abre com um ruído alto e desagradável às cinco da manhã, perturbando a calma da rua deserta, provavelmente irritando muitos vizinhos naquele país de gente irritada, e ela entra tentando fazer o mínimo de ruído possível, encostando até fechar o portãozinho verde com um estrondo mais discreto.

Entrando num corredor estreito – e toda Jerusalém parece ser feita de corredores estreitos –, sobe lances de escada bastante apertados em direção ao segundo andar. Tem que colocar o estojo do violão em frente ao corpo para que ele não se choque contra as paredes. Tia Deborah abre uma porta lá em cima e aparece no corredor, ainda de roupão, com os cachos dos cabelos tingidos de hena vermelha ainda em caos, segurando uma xícara, um pouco surpresa, com os olhos sempre meio esbugalhados por trás dos óculos de grau, mas feliz como uma boa tia ao receber a sobrinha que não vê há dois anos.

— Matê, tão cedo? Você veio de onde? – Tia Deborah pergunta enquanto lhe dá um abraço caloroso.

— De Tibérias.

— Tibérias? O programa terminou em Tibérias?

— Ia terminar em Tel Aviv.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, eu só consegui permissão para sair do grupo antes.

— E por que isso?

Tia Deborah entra na sala, e Maria Teresa, diante daquela pergunta, agora para sob o umbral da porta, pousando o estojo duro do violão sobre o piso e tentando se livrar da mochila pesada. Abandonar o programa foi uma decisão tão súbita que ela não tinha tido tempo de compor uma boa desculpa:

— Ah, enchi o saco.

Tia Deborah dá uma risadinha:

— Encheu o saco? Mas você não tava gostando? Vem cá, tem chá aqui. Você ainda gosta de chá, não gosta?

Logo percebe que não precisa mais dizer qualquer coisa. A tia serve a ela um pão caseiro, o queijo de cabra que a sua outra tia Leah produz numa fazenda ao sul e uma generosa caneca de chá preto com um pouquinho de leite, como também faziam no Brasil. Oferece-se para descascar para ela uma laranja e que coma uma banana, sempre se desculpando por não ter muito a dar, afinal ela chegou de surpresa, enquanto Maria Teresa responde que aquilo tudo era um luxo, e que ela estava muito feliz por finalmente estar ali.

A tia Deborah mora sozinha naquele apartamento mínimo de um quarto só, que parece ter móveis demais. Os filhos da tia já são crescidos como a própria Maria Teresa é crescida, inclusive já serviram no exército e agora fazem faculdade ou trabalham longe, ela não sabe, na verdade nem gosta muito deles ou das lembranças que tem deles, dois rapazes altos, bonitos e bastante mimados, meio irresponsáveis, birrentos, incapazes de lavar o copo em que bebem água. Talvez adultos, agora, estejam mudados, mas ela se agarra àquela lembrança para se sentir superior aos dois e tão digna do amor da tia quanto eles.

Enquanto Maria Teresa toma o chá e come, e em seguida lava a louça que sujou, tia Deborah se veste para trabalhar. Então, a tia a conduz por mais um lance estreito de escadas para o apartamento de cima, a casa vazia do tio Jacques, onde ela sabe que vai se hospedar pelos próximos dias. A disposição dos cômodos do apartamento do tio Jacques é espelhada ao apartamento da tia Deborah, por ficar do lado direito do corredor, e não do lado esquerdo. Quando ela mesma gira a chave que recebeu da mão da tia na fechadura, sente um prazer em entrar vagarosamente naquele lugar tão escurecido pelas cortinas fechadas. Se estivessem abertas, talvez não fizesse muita diferença, o dia ainda não nasceu completamente, lá fora não há sol entre as nuvens da noite longa e nublada do inverno.

Em tudo há certo ar de esquecimento recente, como se alguém tivesse acabado de sair e ela acabasse de entrar, ainda procurando pela pessoa que já suspeitava não estar mais ali. Tio Jacques está fazendo mais um pós-doutorado na França ou coisa assim, e só volta em janeiro do ano seguinte, dali a onze meses. Pela primeira vez lhe passa pela cabeça a possibilidade absurda de atravessar aqueles onze meses naquele apartamento. As cortinas grossas estão fechadas com certo desmazelo, como se a última pessoa a cuidar do espaço estivesse com muita pressa. Algumas coisas que pertencem ao tio – que ela não vê há pouco mais de dez anos, última vez que ele esteve no Brasil – provocam nela uma comoção imediata: a xícara listrada virada de boca para baixo sobre o pires combinando na escrivaninha da sala, o computador e o modem desligados da tomada, as estantes generosas de livros, CDs e outros objetos, como um ornitorrinco de pelúcia e um Daruma com os dois olhos pintados (qual desejo do tio tinha se cumprido?), fotos em porta-retratos (com surpresa, vê a si mesma provavelmente aos sete anos numa das fotos, os cabelos cacheados já em caos, o vestidinho branco, a pele bronzeada, a sua mãe jovem segurando na cabeça o chapéu de palha prestes a voar e o tio Jacques, magro e de óculos grossos, todos dentro de um barco no litoral da Bahia durante algum passeio de férias) e, na lateral das estantes generosas, fotos dos rostos de Walter Benjamin, Hannah Arendt, Stravinsky coladas ao lado de rostos célebres desconhecidos para ela, provavelmente escritores, filósofos, intelectuais do século XX que o tio tanto admira. Parece um reflexo adulto do ato adolescente e solitário de colocar pôsteres de bandas de rock na parede.

Tia Deborah diz que não pode demorar porque está para receber um pedido no restaurante, mas mesmo assim mostra com minúcia de instrução o apartamento minúsculo de homem solteiro do tio Jacques. A sala possui – além das estantes e da escrivaninha – um sofá cinza (que é um sofá-cama, segundo o aviso de tia Deborah) coberto com uma colcha indiana de um roxo desbotado, bordada com espelhinhos e continhas coloridas. Há também uma cozinha com uma pequena área acoplada onde se vê um varal retrátil, uma máquina de lavar velha e uma secadora velha (tia Deborah diz que ela às vezes precisa subir e usá-las para lavar alguma coisa extra do restaurante e as roupas dos filhos quando eles estão aí, que Matê não se incomode) e uma mesa dobrável de fórmica que pode ser levada a qualquer canto. O fogão tem apenas duas bocas e é de acendimento automático. O banheiro apertado fica no corredorzinho ao lado do quarto, que tem uma cama de casal coberta por uma colcha de retalhos. Tia Deborah abre os registros, liga algumas tomadas, instrui sobre o aquecedor e mostra a ela onde está a roupa de cama antes de sair apressada, não sem dar um beijo estalado no rosto da sobrinha. A tia não faz qualquer pergunta sobre Arie ou sobre o violão.

Sozinha no silêncio da manhã que se abre, Maria Teresa forra a cama de casal do tio Jacques com lençóis limpos. Sente-se acolhida por aquele universo aquecido que não é seu, mas que envolve seu corpo exausto e esfolado depois de uma viagem difícil e reveladora que parece ter durado tempo demais. Está tão exausta que não tem tempo de sentir mais nada ou de pensar em nada. O sono aproxima todos os homens dos animais, este é enfim o primeiro e delicioso sono sozinha depois de dormir, quando muito, cinco horas por noite no quarto que compartilhava com Hannah. Dorme sem sonhos, ou sem perceber que está sonhando qualquer coisa, dorme macio e pesado, os membros soltos sobre uma cama que agora é sua.

Laura Cohen Rabelo publicou os romances História da Água (Impressões de Minas, 2012) e Ainda (Leme, 2014) e o livreto de poemas Ferro (Leme, 2016). Mestre em estudos literários pela Faculdade de Letras da UFMG, é idealizadora e coordenadora do projeto Estratégias Narrativas, onde ministra cursos e ateliês de produção literária. Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas.

Lançamento do livro “Canção sem palavras” de Laura Cohen Rabelo pela Livraria e Editora Scriptum
Local: Livraria Scriptum – Rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi
Data: 16/12 (sábado)
Horário: 11h30 às 14h30
Entrada Gratuita
Informações: (31) 3223 -1789 / (31) 99951-1789 (whatsapp) emails: editorascriptum@gmail.com/ scriptum@scriptum.com.br

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