Arqueologia, poema: sobre Perímetro Urbano, de Binho Barreto

[Por Laura Cohen]

Como vocês sabem, amanhã às 19h na tosqueria é o lançamento do livro Perímetro Urbano do Binho Barreto. Tive todo o prazer de preparar os textos e escrever o posfácio do livro, que com permissão do próprio Binho e da editora, vai aí abaixo, para dar um gostinho:

Quando estávamos fazendo a preparação dos textos deste livro, marquei uma reunião com o Binho no café Kahlúa. Cheguei e ele já estava lá, debruçado sobre o caderninho, desenhando em plena concentração. Fui cumprimentá-lo e ele disse, meio apressado, meio fissurado: Espera um minutinho, tenho só que terminar isso aqui. Estava copiando para o caderninho um desenho feito às pressas em um pedaço de papel branco com as bordas rasgadas. Rapidamente, terminou o serviço e levantou os olhos do caderno, todo feliz, e me mostrou o que tinha feito.

Era o desenho de um caminhão de guincho levando outro caminhão de guincho. Achei graça, mas não entendi. Então ele me contou uma cena que ele havia presenciado no dia anterior: passando na rua, encontrou um homem bem preocupado, às voltas com o pneu furado de um caminhão de guincho. O Binho disse, então, que tinha pensado em tirar uma foto, mas ficou com medo de deixar o sujeito chateado, daí resolveu fazer o desenho. Fez às pressas, provavelmente em um papel qualquer que tinha à mão, para não perder a ideia imaginada, a solução ideal para o problema: o guincho guincha o guincho.

Conto essa pequena anedota a respeito do Binho por dois motivos. Primeiramente porque aquele gesto apressado de anotar uma ideia para não perdê-la é, na verdade, um lugar comum do escritor que eu vivencio com frequência, mas que eu jamais tinha visto acontecer com alguém que desenha – de alguma forma, o guincho guincha o guincho é uma narrativa. Em segundo lugar: acho que o episódio resume muito bem vários elementos do processo e da poética dele em Perímetro urbano: a rua, o cotidiano, o acidente, o acaso, a fotografia, o humor, a ternura, o respeito, a urgência, o desenho.

A ideia de fazer um livro sobre os seus trabalhos habitou a cabeça de Binho por muito tempo. Em janeiro do ano passado ele me mandou um e-mail falando que estava tentando um edital para fazer um livro no qual autores de Belo Horizonte (Renato Negrão, Flávia Péret, eu e uns tantos outros) escreveriam sobre os seus desenhos e grafites. Fico pensando: que bom que essa ideia deu errado – meses depois, o Binho estava fazendo uma oficina de escrita com a Flávia Péret e logo ele mesmo estava escrevendo as próprias histórias. Escreveu, escreveu, releu, editou, reescreveu os textos (e as imagens!) que deram origem a este livro.

Há um verbo grego que acabo associando a esse processo: gráphein, que pode ter os significados tanto com relação a escrever quanto a desenhar. Escrever, de alguma forma, é também desenhar letras, fazendo-se expressar por meio de um código. A própria fotografia, mais uma linguagem contida na narrativa, é uma forma de gráphein, em que se usa a luz (phôs, photós, luz, graphé, escrita, desenho). Escrevendo, desenhando, fotografando, pintando, Binho mostra que domina esses códigos de diversas formas, capaz de atuar na concisão e na complexidade da palavra e do risco. Passeando da pequena crônica de um caso engraçado, ele segue em direção à tragédia da vida; da biografia, faz um exercício de imaginação; do acontecimento corriqueiro, ele vai ao poema complexo; do lápis instantâneo sobre o papel, ele chega à demorada tinta na parede.

A relação palavra-imagem foi pensada com cautela, tanto que todo o livro foi escrito não usando o Word como programa de edição de textos, mas diretamente no Indesign, um programa de diagramação, em que Binho pensava cada página, combinando textos e imagens, testando, trocando, reorganizando até ter o livro como ele queria – um zine amadurecido. A palavra e a imagem não dividem apenas as páginas, mas assim como as palavras carregam suas imagens, as imagens carregam suas palavras: um risco na parede, uma letra ora evidente, ora apagada, no registro narrativo da cidade. A fotografia também pode ser guiada pela escrita, como vemos na página 62: “cidade é no topo do prédio/ cidade é aqui embaixo”, as frases provocam um deslocamento diferenciado do olhar sobre a imagem, levando a uma nova leitura.

Contar as histórias em torno de Belo Horizonte é algo generoso – enquanto a cidade ainda carrega o bairro e o espírito interiorano em muitos espaços, esta é uma cidade que cresce e brilha às vezes violentamente. Um microcosmo de delicadezas misturado ao macrocosmo selvagem de forma heterogênea: neste movimento, a memória parece engolir a si mesma, a não ser que se apresente uma resistência, e é na resistência que Binho cava cuidadosamente sua arqueologia em direção ao centro da memória aos pedaços. Assim, Binho realiza um trabalho ao mesmo tempo arqueológico e poético – remetendo a situações acontecidas em sua carreira nos últimos 20 anos, resgatando imagens e histórias, a narrar memórias meio perdidas, para quem viveu aquilo e a quem não viveu e quer saber também.

Não é apenas um livro sobre grafite, mas um livro que integra todo o fazer do grafite a suas atividades suporte, da ideia para o desenho à destruição do muro. A narrativa de Binho leva o grafite a lugares diferentes do lugar comum: o lugar do risco, o lugar da delicadeza, o lugar do fazer autoral, o lugar do fazer partilhado, o lugar periférico, o lugar central, chegando aqui, o lugar de cristalização, conservação e poética do livro. O grafite, assim como a narrativa oral, é efêmero, mas não se deixa de desenhar na lona do abacaxi porque a fiscalização vai arrancar. Como o vendedor de abacaxis resiste com seu caminhão na rua, Binho resiste no desenho.

Laura Cohen é escritora e criadora do projeto Estratégias narrativas. Formada e mestranda na faculdade de Letras da UFMG, publicou os romances História da água (2012) e Ainda (2014), e o livreto de poemas Ferro (2016). É uma das coordenadoras do selo literário Leme, editando vários livros de prosa e poesia. 

 

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