Anotações e apropriações sobre a emergência da escrita.  

[Um poema de Caio Meira, presente no livro Romance]

Por Laura Cohen

Passei os últimos meses anotando – mental e fisicamente – algumas coisas que as pessoas dizem sobre a necessidade de escrever. Estas são as primeiras sete coisas que recebi do mundo. Futuramente, pretendo multiplicar esta lista, talvez para outro post, talvez para outras coisas, contando com a ajuda de vocês.

  1. Uma porcentagem da população mundial escreve. Não sei por que essas pessoas escrevem, mas elas escrevem. Antes que alguém inventasse a escrita, a narrativa ocorria através da boca por outros códigos,cantos, canções.
  1. Na introdução do seu livro Música para camaleões, Truman Capote explica como a escrita começou para ele e o que ela se tornou em seguida:

“Minha vida – a artística, pelo menos – poderia ser registrada num gráfico preciso, como a evolução de uma febre: os picos e os pontos mais baixos, os ciclos claramente definidos.

Comecei a escrever aos oito anos – a partir do nada, sem qualquer exemplo que me inspirasse. Jamais tinha conhecido alguém que escrevesse; a bem da verdade, conhecia poucas pessoas que liam. Mesmo assim, as quatro únicas coisas que me interessavam eram: ler livros, ir ao cinema, sapatear e desenhar. Então, um belo dia, comecei a escrever, sem saber que me acorrentara para o resto da vida a um amo nobre, mas impiedoso. Deus, quando nos dá um talento, também nos entrega um chicote, a ser usado especialmente na autoflagelação”. *

  1. Ano passado fiz meu mapa astral pela primeira vez (acreditando ou não você em astrologia, aconselho o mapa astral como experiência criativa). A coisa mais reconfortante que aconteceu nesse processo foi ouvir da querida astróloga Nathália Duarte, assim que entrei na sala dela: “olha aqui, não é à toa você é escritora: você tem mercúrio, saturno e netuno na casa 3”. Ela obviamente teve que me explicar que a casa 3 é a casa de gêmeos, a casa das palavras, dos pensamentos e dos estudos, e ter três planetas tão diferentes poderia explicar os meus impulsos criativos na escrita, que sempre me incomodaram. Nunca consegui explicar isso com análise, com algum evento da vida, então fiquei feliz com a justifica astrológica e me firmo nela por segurança. Minha relação com a escrita tem um aspecto de necessidade: não escrevo por simplesmente desejar, mas por precisar. Já tentei parar de escrever várias vezes, sem conseguir. Quando tento, sinto que toco a loucura. O pensamento da escrita não tem folga, até quando não pego o lápis e deposito palavras sobre a página, estou escrevendo na minha cabeça, criando silenciosamente. A escrita para mim é um modo de ir, sem ela, perco a base, perco a disciplina, perco a alegria, adoeço.
  1. Em uma entrevista dada a Rodrigo Souza Leão, presente no livro Romance, o escritor Caio Meira responde à pergunta “o que faz alguém ser poeta?”. Recorto algumas partes da resposta: “Ao contrário do que possa parecer, não se trata de algo que o poeta tenha a mais. O poeta não é nem mais culto, nem mais inteligente, nem mais sábio que os demais homens. Para mim, ao contrário, a poesia vem de uma fissura, de uma rachadura, de algo que ele não tem e que não terá jamais. (…) Escolher a poesia, ou ser escolhido por ela, implica abraçar um funcionamento distinto, poder-se-ia dizer anormal, no sentido daquilo que foge à norma. O poeta é aquele que busca não funcionar de acordo com modelos preestabelecidos. Ele inventa um funcionamento próprio, que invariavelmente parece aos demais bizarro, heterodoxo. Quem convive com a poesia, quem existe em função da poesia, percebe e cultiva essa rachadura, tirando dela as experiências que estão na base da escrita. (…) Todas as coisas do mundo passam a ter funções e valores diferentes e se mostram de maneira distinta para quem rachou e conseguiu manter-se suficientemente inteiro para não soçobrar na loucura”.**
  1. Entretanto, não gosto de pensar na escrita como uma terapia. Para alguns, pode até ser, cada um constrói sua relação com a escrita livremente. Mas o impulso da palavra é outra coisa, tem muito mais a ver com o corpo. É uma necessidade fisiológica, tão essencial como se alimentar e dormir. Talvez o processo do corpo que mais tenha a ver com a escrita seja a menstruação: o meu corpo ovula e menstrua sem que eu precise fazer esforços, o esforço dele é silencioso e independe da minha vontade. O que eu tenho que fazer é dar conta da menstruação, recebê-la da melhor forma.
  1. Há uns dias, a Pollyanna Vecchio, uma pessoa que escreve, ex-aluna de um dos cursos do ateliê e minha amiga de face, escreveu uma postagem perguntando se também acontecia com a gente de acordar de madrugada com uma ideia urgente na cabeça. Um mutirão de outras pessoas que escrevem (inclusive eu) foram comentar sobre isso, de quando a escrita atravessa, se estabelece, exige. Pollyanna, que é mãe de dois, fez uma bela comparação: é um filho que vem de dentro da gente, incomodando, querendo nascer.
  1. Ainda na entrevista citada acima, Caio Meira comenta o verso final do poema Versículos gemelares (gênesis), presente no seu livro Corpo solo e que ilustra este post:

“O sétimo dia bíblico foi o dia do descanso, do repouso depois da criação. Mas creio tratar-se de um equívoco. Quem pode criar verdadeiramente alguma coisa e depois sossegar, isto é, sair do âmbito e das consequências do que foi criado, estar, mesmo que por um breve período, livre do açodamento próprio à criação? Contos e histórias fantásticas estão repletos de exemplos de quando a criatura se volta contra o seu criador, que pensava poder descansar depois de criar, estar impune ao ato de criar. Quem cria abole no mesmo ato o seu sétimo dia. É possível a um pai deixar de ser pai, mesmo que por um instante, mesmo que sua criatura pereça? Paternidade significa esse engajamento perene, eterno, que não se desfaz com o tempo. Como dizem, amor de mãe (e de pai) não tem limites, não se esgota. Para o poeta, não há sétimo dia. O poeta não tira férias, não se isenta. Alguns poetas acordam sobressaltados à noite com frases ou palavras marcando a sua presença. Outros andam quilômetros em busca de soluções, ou mesmo sob a égide de um nascimento repentino. Mesmo Rilke, ao ficar mais de uma década sem escrever poesia, não repousava: algo de maior estava sendo produzido nele, sendo gestado silenciosamente sob a aparência de um descanso. As ‘Elegias duinenses’, dez anos depois de iniciadas e logo interrompidas, foram concluídas em poucos dias. E em seguida vieram os ‘Sonetos a Orfeu’. Durante todo esse período de aparente inatividade, não havia qualquer repouso. Dez anos foi o tempo necessário para gerá-los. Do ponto de vista poético, não há sétimo dia, não a como não ser instigado, aguilhoado, pelas tentações da criação e da criatura. Nesse sentido, o tempo não nasce do sétimo dia, mas do próprio ato criador, já que não há tempo possível antes da criação.”

 

* Música para Camaleões. Truman Capote. Cia. das Letras, 2006.

**Romance (e poesia anterior: 1993-2003). Caio Meira. Editora Circuito, 2013.

foto: Bianca de Sá

foto: Bianca de Sá

 

Laura Cohen é escritora e criadora do projeto Estratégias narrativas. Formada e mestranda na faculdade de Letras da UFMG, publicou os romances História da água (2012) e Ainda (2014), e o livreto de poemas Ferro (2016). É uma das coordenadoras do selo literário Leme, editando vários livros de prosa e poesia. 

 

2 Comments on “Anotações e apropriações sobre a emergência da escrita.  ”

  1. Sobre o impulso da escrita e meu processo:

    porque às vezes nascem prematuros
    ou saem em fragmentos
    sem encaixe
    nem cimento

    porque às vezes chegam ansiosos
    e se espraiam
    inundados
    em fúria

    e outras vezes surgem tímidos
    se escondem em partes
    obscuras
    de mim

    mas sobretudo porque precisam de repouso
    herdam minha lassidão
    no corpo
    de tinta

    é que sempre deixo meus textos descansarem

  2. Laura, querida

    Também tenho o costume de anotar essas frases, uma das minhas favoritas e com a qual mais me identifico é da Susan Sontag (a identificação é pesada..rsrsrsr):

    “Meu problema neurótico não é primeiramente comigo mesma (…) mas com outras pessoas. Portanto, escrever sempre funciona comigo, até me tira das depressões. Porque é escrevendo que eu mais experimento minha autonomia, minha força minha falta de necessidade de outras pessoas “. Diários, volume II, página 270, Susan Sontag

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