Análise

[Por Laetitia Jourdan*]

Marcou a sessão para as 18 horas. Eram 18:15h quando a porta se abriu. Um homem calvo, de óculos, com mais de 50 anos apareceu e estendeu a mão. Ele correspondeu ao gesto, meio sem jeito. Entrou. Olhou ao seu redor e lá estava o famoso divã. Ao lado, uma poltrona, virada de frente para um pequeno sofá de 2 lugares, que mais parecia um lugar e meio. Ele não sabia o que fazer, onde sentar e esperava um sinal do homem calvo, que aguardava pacientemente enquanto ele avaliava suas opções. Estava claro para ele que a poltrona não era seu lugar. Se se baseasse nos filmes, desenhos animados e charges, iria para o divã, sem pensar duas vezes. Mas preferiu confiar no seu instinto e sentar-se no sofá. Só então o analista esboçou um sorriso e se dirigiu para poltrona, sentando à sua frente.

– Então, o que te traz aqui?

– O mundo.

– O mundo ? Inteiro ?

– É, o mundo todo, todo mundo.

– Mas o mundo ou as pessoas ?

– E tem diferença, doutor ?

– Não sei. Tem ?

– Pra mim não tem. Aliás, pra mim nada tem diferença.

– Nada?

– Sou um cético. Quando digo que o que me trouxe aqui foi o mundo, é simplesmente porque não acredito nele. Em nada, nem em ninguém. Nada me dá prazer, nada me causa desprazer. Nada faz diferença.

– Mas se você veio até aqui é porque algo te incomoda.

– Tudo me incomoda. A falta de incômodo, inclusive, me incomoda. Porque eu não me importo com nada, mas eu sofro. Sofro por não sofrer. Sofro por achar que nada vale à pena. Sofro porque vejo que o mundo ao meu redor está esperando que eu sinta algo, que eu me envolva, que eu me importe. Mas eu não acho que faz diferença nenhuma eu me importar ou não.

– E porque você veio, então?

– Vim porque minha indiferença tem se tornado quase patológica, a ponto de eu não me importar se alguém morrer. Se eu morrer. Se não dependesse de mim, eu já tava morto. Se eu não precisasse agir pra suicidar, já era. Mas nem me matar vale à pena. Prefiro deixar a natureza e o acaso agirem.

– Então, você pensa em se matar?

– Não. Quer dizer, penso. Penso em morrer, não em me matar. Que é pra eu poder deixar de fingir que me importo.

– Mas você não se importa com nada?

– Não.

– Fale um pouco da sua vida. Sua profissão, sua família…

– Eu sou concursado, trabalho numa repartição pública. Tô lá há uns 15 anos.

– E você gosta?

– Ô doutor, acho que o senhor não entendeu. Eu não gosto de nada. Nem desgosto. Eu até reclamo às vezes, mas é mais porque é isso que os outros esperam, né ? Que a gente reclame de vez em quando do trabalho. Então eu reclamo, enquanto tomo uma cerveja.

– E você tem amigos com quem você conversa e toma cerveja ?

– Tenho colegas de bar. Fica mais fácil fingir que é normal quando se tem uma turma de bar. Você vai lá e bate ponto. É que nem trabalho, sempre as mesmas pessoas, sempre o mesmo lugar, sempre o mesmo horário. A conversa é aquela baboseira de sempre: as notícias do jornal do dia. Assim todo mundo finge se interessar e sai de lá com a sensação de dever cumprido: ‘hoje eu me diverti’, ‘hoje eu socializei’, ‘pronto, posso fingir que a vida vale à pena e que não estou sozinho nesse buraco de mundo’.

– Então pra você essas coisas são deveres a serem cumpridos?

– E não é assim com tudo ? Ter um trabalho, uma família, amigos, beber cerveja, ter filhos, se divertir, chorar quando alguém morre, rir quando é aniversário… tudo isso são deveres a serem cumpridos. Cada um com seu manual de boas maneiras de se fazer. Eu, particularmente, tô cagando pro que acontece, mas o mundo ao meu redor não me deixa não estar nem aí.

– Como o mundo não te deixa ser indiferente?

– Por exemplo, agora, com essa situação do país. Só se fala nisso. E sempre, com ânimos super exaltados. Todo mundo querendo matar todo mundo. Eu quero mais é que todo mundo se exploda mesmo, porque pra mim tanto faz: república, democracia, monarquia, parlamentarismo… Se o presidente é a Dilma, o Temer ou Fidel. Mas pras pessoas não funciona assim. É como se tudo fosse muito importante, o tempo todo. Eu realmente acredito que se eu acordar amanhã e a gente estiver numa ditadura evangélica, virado um Estado Islâmico ou um bloco comunista, dá na mesma.

– Você não acredita que isso influencia na sua vida?

– Não o suficiente pra eu me importar.

– Você não teria problemas em parar de beber ou nas mulheres andarem de burca, ou de não poder mais escolher a marca dos seus produtos ?

– Sim, claro que seria mais chato por um lado, mas eu não acho que o fato de eu me importar muda alguma coisa. Então pra quê ? E na verdade, eu acho que a maioria das pessoas pensa como eu, só que, assim como eu, elas fingem que não são indiferentes. A maior parte finge melhor que eu, claro. Eu me contento em dizer que as coisas são interessantes.

– Entendo… E no âmbito familiar? Você tem esposa, namorada, familiares próximos?

– Tem uma mulher… Não sei se posso chamar de namorada. A gente sai às vezes. É uma colega de bar com benefícios, como meus colegas de bar diriam. No mais, nunca tive nenhum relacionamento muito sério. Minha mãe e meu pai ainda estão vivos. Os dois vieram dessas famílias tradicionais mineiras. Ela é dona de casa. Ele é aposentado. Era juiz. Mas quando novo, foi datilógrafo do exército, durante a ditadura militar.

* Laetitia V. Jourdan é antropóloga, bacharel em ciências sociais pela UFMG e mestre em antropologia aplicada ao desenvolvimento sustentável na Universidade de Provence. Franco-brasileira, na procura de tentar se encontrar no mundo e se conhecer melhor, descobriu seu desejo pela escrita. Hoje, faz experimentos no atelier Estratégias Narrativas em busca de um estilo, de uma história, de uma maior compreensão de si e dos outros.

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