Amizade, uns espelhos: Homem cão, de André Malta

[Laura Cohen]

Não sei muito bem por onde começa a história do livro Homem cão, que o André Malta vai lançar na próxima quinta-feira, dia 17 de agosto, pelo Selo Leme. É uma história que começa muitas vezes. É um relato afetivo, não pode ser outra coisa. Começa com André escrevendo poemas, antes de nos conhecermos. Mas começa também na entrada de uma sala de conferências em Ouro Preto, em agosto de 2014, quando dei a ele meu primeiro romance. Ali, André me fez uma pergunta ansiosa, formal, mas pouco acadêmica: “você escreve poesia também?”.  Respondi, meio nervosa, dizendo que fazia pouco tempo tinha começado a escrever uns poemas, mas que era uma atividade marginal ao que eu realmente fazia.

Nós dois tivemos nossas primeiras conversas ali em Ouro Preto, entre conferências, bares e subidas e descidas de morros, durante um simpósio sobre Eros e Helena, onde também escrevi muito – poemas, principalmente. Na volta para casa, a primeira pergunta que ele me fez seguiu ecoando com um segredo ao fundo: você escreve poesia também? Solucionei o enigma: é o tipo de pergunta que faz quem também escreve poesia. Cheguei em casa, escrevi a ele um e-mail e perguntei se ele escrevia poemas. Na semana seguinte recebi em casa o primeiro livro de poemas do André, enviado pelo próprio autor, edição caseira, sem ISBN, capa cinza, A hesitação do verso, cinquenta cópias que ele havia feito para distribuir aos amigos no seu aniversário de 40 anos, em 2010. Aí também começa o Homem cão.

André é homerista, traduz Homero, Platão e Esopo, e antes de o conhecer pessoalmente, eu lia muito o que ele escrevia e traduzia como a estudante de grego que gostava de escrever. Gostei de cara: escrita fluida, bonita, bem lapidada, conclusões e pontos de vista que eu também queria explorar nos meus trabalhos, traduções consistentes e bastante literárias. O cuidado com as palavras. Eu adorava, também, as falas dele que tinha ouvido na Letras: simples, claras, jovens, assertivas, audaciosas, precisas. Acho que foi por isso que dei a ele meu primeiro romance em frente à sala de conferências em Ouro Preto, a intuição me fez entender que partilhávamos um amor ao texto muito semelhante, uma existência que não se separa das palavras.

Da troca dos nossos primeiros livros, nasceu uma amizade em que eu enviava um poema, ele enviava outro, eu enviava um texto, ele enviava outro, e íamos editando e enchendo os textos um do outro de pitacos preciosos. A conversa continuou (e continua) quando ele vinha a BH, eu ia a SP e entre caminhos, em um congresso na Argentina.  André me ensinou que a melhor maneira de começar um texto acadêmico é partindo de uma citação, a fim de driblar aquela sensação de que estamos partindo do nada, eu, por outro lado, acho que o influenciei a ser mais narrativo. Diferente de mim, ele não vê a escrita de poemas e ficção como uma atividade central da vida, mas como um fazer mais paralelo – e complementar. É uma conversa à qual sempre voltamos, nela também nasce Homem cão.

Desde quando começamos a trocar poemas e textos, André disse que jamais publicaria poesia com ISBN até que, depois de muita insistência minha, eu o convenci: um livro simples como o meu primeiro libreto de poesias, um livro grampeado, a capa como ele quisesse, tudo como ele quisesse, assim como fazemos no nosso Selo Leme: como o autor quer, como o autor se sente confortável. Ele topou. Salvou os poemas em um arquivo só, li, editei, cortei, colei, mandei muitos áudios de whatsapp, escolhemos uma ordem para o poema, escolhemos a cor do papel da capa (um laranjão) e o miolo. Ele tinha, com os poemas, o mesmo cuidado que tem com os textos acadêmicos: que digam exatamente o que ele quer dizer, de forma que ele teve o sucesso de deixar o livro como ele o desejava.

André também queria porque queria que a capa fosse uma selfie que ele havia tirado com um cachorro, que faria par com um poema que vem apenas na contracapa do livro: 

Essa foi a maior dificuldade que teve a Elza Silveira, a diagramadora-editora-capista-revisora do Selo Leme: a imagem espontânea, feita com celular, ficaria ruim quando impressa por conta da má qualidade. A solução genial que Elza teve foi estourar a imagem, assumir a qualidade baixa e colocá-la horizontalmente no canto direito da capa. Funcionou:

De alguma forma, a imagem estourada no canto e não no centro de uma selfie com um cachorro resume muito do que é, para mim, o livro: quase estranho, heterogêneo, mas doce, onde cabe o que é lugar-comum, o que é piada, em séries de rimas inoportunas e deboches, onde cabe o cotidiano, mas também onde cabe certa crítica grave e desafiadora, onde cabe o resumo da palavra “que” em um simples “q” de internet. Uma boa chave de leitura que encontro para o livro são os retratos e os autorretratos, que intencionam as distorções: um André representa a si mesmo e aos outros de várias formas, sob a faceta do humano, mas também sob o rosto do cão, e nenhum destes é o rosto dele ou o nosso, mas um diálogo com todos os espelhos e pares que a palavra encontra. De alguma forma, posso ver ali o conteúdo de muitas conversas que tivemos, de forma que o livro para mim é indissociável de certo conceito de amizade: afeição recíproca entre dois ou mais seres.

A amizade, essa associação não só minha e dele, mas dele com tantas gentes com quem conversa, vivos, mortos, ficcionais, reais, torna-se espelho de diálogos. Faz-se a amizade, inclusive, entre todos os Andrés, o acadêmico, o poeta, o pai, o filho, amizade às vezes companheira, às vezes questionadora. Aqui temos a amizade de André com a Grécia, sua matéria de estudo, que aparece nos poemas não de forma distante e acadêmica, mas com intimidade. Platão, um Sátiro, Homero e Hermes se misturam a uma São Paulo contemporânea e a paisagens mineiras, uma tradução que se transforma em slam de poesia no poema Tradução tradição (poetry slam) que vocês poderão ler mais abaixo. Lá estão as pessoas com quem ele dialoga: eu mesma estou lá, converso com ele cotidianamente, assim como Jaa Torrano, assim como Aline (que não conheço), assim como seus filhos, seus pais, assim como Augusto de Campos. E assim, do outro lado do papel, às vésperas do lançamento, no espelho da página, há sempre um outro, como lemos no poema Quem: “o q foi feito aqui/ foi feito para/ alguém//só não sei se isso fará de mim/ mais /ou menos /ninguém”.

O lançamento será no dia 17/08, quinta-feira, n’A produtora (Av. Corifeu de Azevedo Marques, 25, a 5 min. do metrô Butantã), à partir das 18h. André e eu ficaremos muito felizes se vocês puderem ir!  Fiquem com uma amostrinha do livro:

 

Tradução tradição

(poetry slam)

 

e como ficou chato ser moderno

agora serei Homero

esse bolero de Ravel memorável

o novo no de novo

o sido revivido

 

vazado aqui no meu lero-lero

de academicão

ao rés do chão

sem flor perfumada

 

(receita pra traduzir Homero)

 

pegue duas redondilhas

misture prosa na medida

acrescente o ritmo dissoluto

e tempere a gosto com augusto

 

pode não saber à antiga Musa

como quer q hoje nos surja

mas lembra alguma poesia

q por aqui se compõe com psicologia

 

o corvo de Poe crocitando em duplo 7

sem cesura?

com cesura?

fode a ode

isso pode

 

medo de ter medo da Musa suja

e eu incorporando Pessoas

porque desde antanho

nossa vida nunca mais foi igual

e esse retorno sonhado – agora chega!

 

traduttore traditore

u pelo i

pra denegrir

tradução tradição

u pelo i

pra relaxar e rir

 

e fazer maior aquilo ali

sem raias e enraizadamente

Altertumswissenschaft ahahah

verde-amarelismo ahahah

 

e assim

intérprete de mim

vou vertendo e catando a poesia entornada

e em meu ouvido Koellreutter soando

 

o músico pode ser erudito

a música não

Laura Cohen é escritora e criadora do projeto Estratégias narrativas, onde dá ateliês de escrita e leitura. Mestre em estudos literários na faculdade de Letras da UFMG, publicou os romances História da água (2012) e Ainda (2014), e o livreto de poemas Ferro (2016). É uma das coordenadoras do selo literário Leme, editando vários livros de prosa e poesia. 

 

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