A pergunta que não quer calar

Por Laetitia Jourdan

« E você pensa em ter filhos?”

Essa foi a terceira ou quarta frase que aquela mulher, à beira dos 40, exibindo seu corpo de 25 e com suas duas crianças à tira-colo me dirigiu. Logo depois de saber meu nome e meu novo ‘estado civil’ de juntada. Não sei se por conhecer meu companheiro ou se foi pelos meus cabelos brancos, cada vez mais visíveis, mas ela julgou por bem que já era tempo deu pensar na maternidade.
Há poucos anos essa pergunta nunca teria sido feita, mas de uns tempos para cá ela tem se tornado uma constante. Primeiro ela vinha camuflada em uma conversa íntima. Depois, passei pelo episódio do aniversário de 30 anos, quando uma tia me aconselhou o congelamento de óvulos. E eis que a partir de então a tal pergunta passa a ser feita por meros conhecidos. Se em um primeiro momento essa questão passava como mais uma dentre tantas que fazemos sobre nosso futuro, hoje tenho me sentido invadida quando questionada sobre minhas intenções maternais. O quê leva pessoas que mal conheço a acharem educado e natural me perguntar se eu quero ter filhos? Sabendo, claro, que essa é uma indagação como “tudo bem com você?”. Ninguém espera um não como resposta. Na verdade, depois dos 30, ninguém espera nem um “talvez, um dia…”.
Enquanto a semi-estranha me perguntava sobre minhas ambições maternais, eu observava sua filha de 3 anos, puxando insistentemente seu braço e repetindo “mãe” 3 vezes por segundo, enquanto era tranquilamente ignorada por aquela mulher, que me encarava à espera de uma resposta. Diante do meu silêncio e do meu olhar voltado para a criança, ela se vira e diz “espera, mamãe tá conversando”. Meu tempo de reflexão tinha acabado. Balbucio algo como “é… não sei, não agora”, quando a filha mais velha chega chorando, porque bateu a cara na porta de vidro em uma das 57 vezes que atravessava a varanda correndo, sem nenhum objetivo aparente. Ela sobe no colo da mãe, que se vê agora com dois mini-seres clamando por atenção, enquanto seu marido, sentado há menos de 10 metros de distância, toma tranquilamente sua cerveja.
Aquela jovem mãe se voltou para mim, como se eu tivesse recusado, ou melhor, hesitado, diante de uma proposta incrível para entrar no clube vip do qual ela e todas as demais presentes fazem parte. Me senti desconcertada. Ela então começou a narrar todas as belezas daquele clube, no qual toda mulher ‘que se preze’ deve entrar. Não sei o que é carregar uma vida dentro de si e ser responsável por ela, mas já tenho certeza que é algo que beira o mágico. No entanto, a falta de alternativa não me convence. Não acho que a realização de uma mulher depende de sua procriação.
Afinal, o quê as pessoas querem saber quando questionam se eu quero ser mãe? Elas estão me perguntando se eu vou colaborar para a perpetuação da espécie? Caso negativo, eu seria uma traidora da humanidade e, por isso, seria banida do clube das ‘mulheres de verdade’? Ou elas desejam saber se eu quero colocar mais uma pessoa nesse mundo lotado de gente, com a bomba atômica, a desigualdade, a violência, a poluição, a impunidade, o desmatamento, o terrorismo, o aquecimento global, o tráfico de drogas, as guerras, o tsunami, o Estado Islâmico e o Cunha? Ou ainda, isso signifique que eu deva ter um desejo tão grande, que vale por dois, ou até por três. Seria o meu papel, enquanto mulher, ter um só desejo, um instinto, acima de tudo?
Eu, única sem filhos naquela tarde, também era a única a tomar cerveja, acompanhada apenas pelos homens, todos reunidos ali do lado. Encho o copo e me encho de coragem para encarar minhas companheiras de conversa, quando na verdade eu gostaria de estar discutindo futebol no grupinho dos meninos. Respondo para minha interlocutora que eu tenho certeza que ser mãe é uma coisa incrível e que tenho sim, muito medo de que esse tal ‘instinto marternal’ apareça em mim, mas que seja tarde demais. Diante dos diversos relatos que se seguem sobre as maravilhas da maternidade, me sinto culpada por não querer aquilo para mim de maneira incondicional. Me sinto julgada e já condenada a não ser uma ‘mulher completa’. Porque não basta ser mãe, é necessário não ter dúvidas sobre isso.
Em uma conversa com amigos sobre meu incômodo com a constante pergunta, me aconselharam responder que sou estéril, acabando com o assunto e ainda deixando o interlocutor em maus lençóis. Mas então é isso? O único jeito da não-maternidade ser bem aceita é quando ela é imposta pela natureza, e assim a mulher vira uma vítima, que não pôde completar sua missão na terra, mas a culpa não é dela? Não posso mentir sobre isso. Por respeito às mulheres estéreis e sobretudo por respeito às maravilhosas damas que conheço que abriram mão da maternidade, para serem simplesmente mulheres, em toda sua complexidade e plenitude.
Lebro da piscina, das mães, dos pais e das crianças. Lembro dos assuntos entrecortados por choros, risos e brincadeiras. Lembro do barulho, da falta de tédio, do encantamento. Lembro do cansaço, da falta de tempo, da atenção contínua. Lembro das justificativas, da competição e do orgulho. Lembro que tudo era lindo, mas não só. Sinto que me calei, diante da grande pergunta que queria fazer àquelas mulheres:
– E vocês, mães? Não têm medo de se arrepender?


 

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