A Flip era sonho antigo

[Ilustração: Regina Miranda]

Por Dalva Maria Soares

Depois da divulgação do nome de Lima Barreto como homenageado da 15a  Festa Literária de Paraty e da confirmação de alguns nomes, como Conceição Evaristo, a ruandeza Scholastique Mukasonga, Ana Maria Gonçalves, Edimilson Pereira, Grace Passô, o jamaicano Marlon James e o afro-americano Paul Beatty, me decidi. Convite feito a algumas amigas e rapidamente estávamos de passagens compradas e uma casinha de janelas e portas amarelas alugada.

Dez horas BH/Angra dos Reis e mais duas Angra dos Reis/Paraty, lá estávamos, as três, nos equilibrando no calçamento “pé de moleque”, marca inconfundível da cidade. Era segunda-feira e ainda tínhamos um tempinho para fazermos o mapeamento do terreno e da programação para escolher o que assistir. E tinha era coisa, viu?

Com a curadoria da jornalista Josélia Aguiar, a edição desse ano buscou a paridade de gêneros entre homens e mulheres, com 30% dos convidados negros e um passeio por autores do mundo inteiro, da Finlândia, à Africa do Sul. A festa, que depois seria conhecida como a mais diversa e plural da história, prometia. Hospedada fora do Centro Histórico tive acesso a uma outra Paraty: a dos locais e dos migrantes vindos de outros estados. Pessoas, como o pequeno Davi, garoto esperto, que do alto dos seus sete anos, orgulhosamente se define, não como paratiense, mas como caiçara, porque segundo ele, “tem uma forte conexão com o mato”. E olhe, a natureza em Paraty salta aos olhos.

A noite de segunda na cidade é tradicional o “Samba da  Bênção”, uma roda de samba com músicos locais que levantou a poeira na Praça da Matriz. O jovem maranhense, sobrinho de mestre de boi, que durante o dia nos atendeu no restaurante, à noite deu show dançando e tocando na praça. Uma prévia do que estava por vir… O cansaço decorrente da viagem na noite anterior nos impediu de ficarmos até o final e fomos descansar os ossos para a maratona de mesas e debates que se iniciaria em breve.

Na manhã de terça-feira, demos um pulo até a Vila de Trindade, nos arredores de Paraty. A antiga vila de pescadores viveu até os anos de 1970 da pesca artesanal e da lavoura, com seus habitantes confeccionando cestos e entalhando canoas. Sua história recente é marcada pela disputa de terra dos nativos com a especulação imobiliária, que já chegou àquele pedaço de paraíso. A visita à Vila foi fundamental para compreender que além de navegadores famosos, Paraty também é formada por caiçaras, quilombolas e indígenas, ainda que, para muitos, sua presença destoe da paisagem.

Na dia seguinte, demos um pulo em Tarituba, um distrito com menos de 900 habitantes, que foi cenário da novela Mulheres de Areia. Era em suas praias que o personagem “Tonho da Lua” fazia suas esculturas.

A noite ficou por conta da abertura do evento com a historiadora Lilian Schwarcz e o ator Lázaro Ramos. Chegamos na Praça da Matriz às 18h30, mas não tinha mais lugares na tenda. Nos ajeitamos como deu, sentando na calçada e o que vimos a seguir foi uma aula emocionante sobre a vida e obra de Lima Barreto. Que gênio que foi/é Lima Barreto. Por cerca de uma hora nos emocionamos com a leitura da biografia e excertos das obras do escritor homenageado. Lázaro e Lilian ainda nos surpreenderam saindo da Igreja Matriz, onde acontecia a abertura e indo até o palco montado na tenda da praça, onde releram o trecho final da homenagem. A abertura da Flip foi das coisas mais impactantes que já vi. Lima Barreto, um gênio que foi silenciado devido à sua origem étnico-racial e social. Ver Lázaro, outro negro sobrevivente, encarnar o escritor foi emocionante.

Depois, me enfiei na fila dos autógrafos para pegar dedicatória de Lázaro Ramos no seu livro recém-lançado, “Na minha pele”. Próxima da minha vez, o segurança encerrou, porque o ator já estava cansado, mas como não arredávamos pé, Lázaro veio até nós, passou por baixo das cordas e atendeu aos fãs. Na minha vez, eu disse a ele, parafraseando o mestre Paulo Freire, que é lindo ver o povo preto tomando de volta a palavra que nos foi roubada. E ele, depois de me ouvir atento, beijou minha mão.

Fomos dormir impactadas com o que vimos e experenciamos, sem conseguir verbalizar direito o que estávamos sentindo. Nós, três mulheres negras, nos sentimos representadas na obra de Lima Barreto e na performance de Lázaro Ramos. Dois negros com trajetórias parecidíssimas com as nossas. Fui dormir convencida que a literatura salva e que se não fosse a escrita, talvez Lima Barreto tivesse morrido bem antes.

Na quinta-feira, quando, enfim, conseguimos sair de casa, depois de muita resenha na mesa do café sobre a abertura do evento, cruzamos com Conceição Evaristo a caminho de uma entrevista na Livraria das Marés. Não resisti e fui até ela: “Bença”, pedi. Conceição que estava toda vestida de amarelo, respondeu: “Que Mamãe Oxum te abençoe.” Acabamos seguindo a escritora e fomos assistir a entrevista. Conceição falou sobre suas obras, seu conceito de escrevivência, sua dificuldade para publicar e que escrever para ela é uma espécie de vingança ao silenciamento que foi imposto ao povo negro pela diáspora.

O dia foi tão intenso, que no meio da tarde, tive que ir em casa tomar um chá e me recuperar para a mesa da noite.  Ouvir, abraçar e conversar com Conceição Evaristo, que afirmou que a escrita nunca foi sua primeira opção, porque as questões de sobrevivência sempre falaram mais alto.

À tarde, seguimos para a Praça da Matriz para assistirmos à mesa “Pontos de Fuga” com as jovens escritoras Carol Rodrigues, Natália Borges Polesso e a angolana Djaimilia Pereira de Almeida. Carol e Natália receberam, recentemente, além de outros prêmios, o Jabuti. A conversa girou em torno de temas como influências, técnicas e experiências das autoras. A angolana, Djaimilia Pereira, autora do livro Esse Cabelo, falou sobre sua experiênca como negra em Portugal, ela que é de origem angolana.

Depois, almoço e uma rápida ida em casa para trocar de roupas, pois à noite a temperatura caía bastante. Aconteceria a imperdível mesa com Noemi Jaffe e Scholastique Mukasonga. Essse foi o debate que teve a melhor mediadora da Flip, a jornalista portuguesa, Anabela Mota Ribeiro. A conversa, das mais impactantes, teve como fio condutor as histórias das mães das autoras. A de Noemi (O que os cegos estão sonhando), uma sobrevivente de Auschwitz; a de Scholastique (A  mulher dos pés descalços) assasinada, juntamente com dezenas de parentes no genocídio de Ruanda. Ao final do dia, depois da conversa com Conceição Evaristo e de ouvir Scholastique, fiquei ainda mais convencida que existe um movimento em curso, que passa pelo empoderamento da mulher negra. Penso que é uma revolução tão poderosa, que nenhum golpe conseguirá impedir.

A sexta-feira começou com a mesa “A pele que habito” com a jornalista portuguesa, Joana Gorjão Henriques e o ator Lázaro Ramos. As relações raciais e o combate ao racismo foram o tema da conversa. Joana tem sido uma voz importante no combate ao racismo em Portugal e Lázaro tem se mostrado um militante da causa negra abordando esse tema em todos os espaços por onde circula.  Durante a participação da plateia, a professora aposentada Dona Diva, se levantou e com voz embargada pela emoção, contou um pouco da sua história como negra no sul do Brasil, denunciando o racismo que sofre desde a infância. Essa foi das mesas mais emocionantes da Flip.

À tarde, teve uma mesa sobre o subúrbio, com historiador e escritor Antônio Simas e a professora Beatriz Resende.  O dia ainda teve o humor, inteligência e ironia de Pilar del Rio. No café, encontrei com uma importante referência bibliográfica que leio há anos: o professor Edimilson Pereira, que enfim, pude abraçar. Depois, lançamento e conversa sobre Literatura periférica/marginal com o escritor Rodrigo Ciriaco.

Foi muito interessante cruzar com os autores que leio pelas ruas e poder conhecer pessoalmente quem eu conhecia só pela internet. Na manhã de sábado, a mesa com o professor Edimilson de Almeida Pereira e Prisca Agustoni discutiram literatura infantil. O professor Edimilson já tinha feito sucesso na quinta-feira, na mesa que discutiu a obra de Lima Barreto.

A maratona de palestras contou ainda com uma mesa com o historiador, João José Reis e a romancista, Ana Miranda. O professor João José foi um dos responsáveis por me descobrir negra, quando na graduação, li sua obra na disciplina Antropologia do Negro Brasileiro. Ouvir esse moço, parceiro importante na luta contra o racismo, deixou meu coração amolecido como um figo na calda. À tarde foi a vez de uma conversa inusitada entre o rapper angolano, Luaty Beirão e a freira e escritora Maria Valéria Rezende que discutirama ativismo e literatura. À noite o jamaicano Marlon James e o afro-americano Paul Beatty, autores de editoras independentes, vencedores do prêmio de língua inglesa, Man Booker Prizer.

No último dia da Flip, o domingo começou com uma discussão sobre infância com as escritoras Ana Miranda e Maria Valéria Rezende. A última mesa encerrou a festa com chave de ouro, com a conversa entre Ana Maria Gonçalves e Conceição Evaristo. Ana Maria Gonçalves falou da necessidade de “que a gente comece a pensar numa literatura feita por negros, indígenas e mulheres”. Com “mais escritores, curadores e mediadores mulheres e negras”. Assim, segundo ela, conseguiremos “quebrar o estereótipo de que negros e mulheres não produzem literatura de qualidade.”

Enquanto arrumava a mala para voltar para casa, pensava na frase clichê que resumia minha semana: sonho realizado. A Flip é um evento branco, de classe média? É! Mas os 30% de autorxs negrxs convidados fizeram a diferença. Ver Conceição Evaristo concedendo entrevista numa livraria a convite do ex-curador da Flip, que ano passado, não convidou nenhum autor negrx, teve um sabor especial.  Assim como, ver a plateia se rendendo à erudição do professor Edimilson Pereira, foi delicioso. Quando um casal me perguntou quem era aquele moço tão sabido, eu enchi a boca pra falar que o conhecia, que é mineiro, que pesquisa as culturas populares e que já publicou livro sobre a Folia de Reis fundada por meu pai. Desculpa, aí! Encontrar com Ana Maria Gonçalves pelas ruas, ver Conceição Evaristo recebendo o reconhecimento que merece, (que ainda é pouco, como já escreveu alguém), foi muito bom. Lázaro foi estrela, Dona Diva divou e eu, Ana e Mariza não fomos as únicas pretas em muitos restaurantes que entramos. Alguma coisa mudou. As melhores mesas que participei foram as que discutiram a questão racial, que apareceu em quase todas, já que o homenageado também é um negro. Alguns participantes, inclusive, definiram essa Flip como Flipreta, pois a diversidade foi visível não só nas mesas, como nas ruas de Paraty.

Voltei de Paraty completamente encantada com Lima Barreto, que preciso ler, urgente. Estou convencida que a literatura salva, que Paraty é uma cidade maravilhosa e que sua beleza não está só no casario colonial do centro. A Flip foi histórica e foi lindo estar lá vivenciando tudo isso. E, como disse a Conceição Evaristo, não vamos abrir mão das conquistas, e que ano que vem, a paridade não seja só de gênero, mas também de raça/etnia. Como bem afirmou Conceição, “nós vamos continuar estilhaçando os orifícios da máscara. Nós vamos continuar afirmando que o subalterno pode falar.”

A festa terminou com o anúncio dos livros mais vendidos na livraria oficial do evento, onde, dos dez primeiros títulos, sete foram escritos por autorxs negrxs, sendo um deles uma biografia sobre Lima Barreto. Scholastique, Conceição, Djaimilia, Edimilson, Lázaro, Dona Diva, Grace, Aleixo, Marlon James, Paul Beatty, foram alguns dos que ajudaram a negritar a Flip. E foi só o começo! Quando a coisa fica preta, a coisa fica boa!

 Dalva Maria Soares é doutora em antropologia pela UFSC e pesquisadora das culturas populares, mais especificamente, do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, popularmente conhecido como Congado, com ênfase na trajetória de mulheres. É também mãe do João Pedro e gosta de escrever para diminuir a febre de sentir.

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