A farsa da ubiquidade: cinco notas sobre “Estar onde eu não estou” de Olívia Gutierrez.

[Laura Cohen Rabelo]

Anotações:

Eu queria dizer alguma coisa sobre a leitura que fiz sobre o livro Estar onde eu não estou da Olívia Gutierrez (Crivo Editorial, coleção poesia incrível, 2018) desde ano passado, quando o li. Tinha feito anotações, mas as perdi na minha bagunça. Na primeira página do livro, eu anotei “ubiquidade (dicionário)”. Agora obedecendo a esse bilhete que a Laura de 2018 me deixou, olho o sentido no priberam (meu dicionário preferido por causa de sua poesia singular): “que está ao mesmo tempo em toda parte”. Fico pensando o que eu queria dizer com isso, porque ubíquo é o contrário de se estar onde não se está. Ao mesmo tempo, o livro traça uma rota: lugares, passagens ficam registrados na eternidade vertiginosa de uma página capaz de estar por toda parte. Acho interessante também que esse livro faz parte da coleção Poesia Incrível da Crivo Editorial: ele não foi vendido, mas é distribuído gratuitamente através de uma lei de incentivo, o que facilita que ele, de fato, esteja por toda parte…

Exercício do mapa:

Um dos exercícios que gosto de dar para os alunos daqui das Estratégias Narrativas é: escrever um mapa com palavras. A maioria fica bem confusa antes de conseguir, mas acho que se eu precisasse usar um exemplo, Estar onde eu não estou é um mapa para além de um espaço: há o percurso pela cidade, o percurso pelos dias, o percurso pelas pessoas e o percurso pelas diferentes vozes de uma cidade. Espaço, tempo, personagem, narrador, elementos sem os quais não existe uma narrativa, lugares onde se deve estar ao constituir narrativas. Portanto, é um livro de poesia que conta histórias, que tem muitas vozes, de um suposto eu autoficcional à conversa que se ouviu na esquina anteontem.

Citação:

Olívia, pelo que já conheço, é mais uma leitora do que uma escritora – afinal, ela organiza um clube de leituras! Essa é uma das características que mais admiro nos escritores: como suas leituras se concatenam com a escrita. Portanto, como a excelente leitora que ela é, ela vai indicar, citar, conversar com os livros que lê não só na vida real, mas também na escrita. Em Estar onde eu não estou, ela começa conversando com a poeta Marília Garcia e com o Alejandro Zambra já na primeira página. A maneira que Olívia cita, comenta e lê outros autores muda nossa forma de ver os autores, e é através dessa leitura que pega o que ela quer sem velhos tabus do lugar-comum autoral, a gente acaba aprendendo a conversar. Hoje eu estava lendo o livro do Leonardo Villa-Forte, escrever sem escrever, e em determinado momento ele fala que, ao aprendermos música, normalmente iniciamos tocando covers, composições de outras pessoas. Não começamos compondo. E o que diz o último poema de Olívia? “Cheguei à conclusão que ouvir um cover é ouvir algo novo”.

Personagem pai:

Acho que o meu personagem preferido desse livro é o pai que aparece em alguns poemas. “Meu pai não é daqui, ele é estrangeiro”, diz o poema Meu pai. Um pai: essa figura que pode ser tantas figuras. Um pai: aquele sujeito mais velho que, para muitas famílias brasileiras, nem sempre está presente. Esse pai está presente e sempre tem uma estranheza para a filha que o narra: primeiramente, a língua, que a filha adquiriu de maneira atravessada. Depois, o país natal dele, que ela visitou algumas vezes. E ainda: as manias do pai que ela tenta entender mas não compreende por completo. Olhar para esse pai da poesia de Olívia me faz pensar que todo pai é um pouco estrangeiro para seus filhos.

Poética do fracasso:

Alguma coisa sempre vai dar errado. As malas velhas chatas de carregar; as malas novas usadas que são uma pechincha, mas perdem as rodinhas no primeiro uso; a falha em ter que lidar com a menstruação (todo mês a gente se mune de várias estratégias, mas alguma coisa sempre parece que vai dar errado); uma citação: “eu gosto que esteja claro que eu não deveria estar aqui”; o pai que ama o número 18, mas não nasceu no dia 18; a tentativa de fazer yoga; o arroz de saquinho que fica mal cozinho; beber demais; pensar demais; você está sem sombrinha e vai chover. Não existe controle do mundo, os mapas e os planos mudam sozinhos suas direções sem que a gente se dê conta.

Laura Cohen Rabelo publicou os romances História da Água (Impressões de Minas, 2012) e Ainda (Leme, 2014), o livreto de poemas Ferro (Leme, 2016) e o romance Canção sem palavras (Scriptum, 2017). Mestre em estudos literários pela Faculdade de Letras da UFMG, é idealizadora e coordenadora do projeto Estratégias Narrativas, onde ministra cursos e ateliês de produção literária. Faz parte da coordenação do selo Leme da editora Impressões de Minas.

 

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